quinta-feira, 18 de junho de 2020

Confusão política, desânimo e pobreza aumentam em Timor-Leste


M. Azancot de Menezes* | Jornal Tornado

Xanana Gusmão, líder do CNRT, respondeu de forma sarcástica a uma carta escrita por Lere Anan Timur, Chefe do Estado Maior-General das Forças de Defesa de Timor-Leste. O desentendimento político agrava-se no país. Enquanto isso, o desânimo e a pobreza aumentam exponencialmente em Timor-Leste.

No dia 8 de Junho de 2020, Lere Anan Timur, notável antigo comandante guerrilheiro da área de Lospalos (ponta Leste de Timor-Leste), escreveu uma carta dirigida aos principais líderes políticos do país apelando ao diálogo e ao bom senso.

O apelo do Comandante Lere, resumidamente, remete para a importância da liderança política se unir em diálogo construtivo, com a argumentação de que a situação política (acrescento eu, económica e social) está a gerar muita preocupação e desmotivação, não só junto da população civil mas também no seio das forças militares.

A carta do líder do CNRT em contexto de crise política, económica e social

O Jornal Tornado teve acesso à cópia de uma carta datada de 12 de Junho de 2020 da autoria do líder histórico da resistência, Kay Rala Xanana Gusmão, uma resposta à missiva do Comandante Lere.

Desde já, penso que é importante referir, Kay Rala Xanana Gusmão, líder histórico da resistência timorense, continua a ser a pedra mais importante e influente do xadrez político e económico de Timor-Leste.

O comandante histórico das FALINTIL tem o indiscutível reconhecimento dos EUA e da Austrália, e de outros países, por muitos equiparado à dimensão de Nelson Mandela. Mesmo havendo críticas a algumas das suas posturas, Kay Rala Xanana Gusmão continua a ser (muito) respeitado ao nível nacional e, não esqueçamos, detém a chave dos principais dossiers internacionais.

Portanto, parece-me pacífico aceitar, em Timor-Leste, quer se goste ou não, ao nível económico, geo-militar e político, nada avançará sem o aval do líder histórico da resistência timorense, reconhecido como tal pelas Nações Unidas e pela comunidade internacional.

Na sua carta, o líder do CNRT referiu que não se sente com “capacidade” para dialogar com líderes políticos e militares que governam Timor-Leste.

Este partido político, também não é demais recordar, inclui militantes que no passado defenderam a integração de Timor-Leste na Indonésia, um aspecto aflorado na carta pelo próprio.
"Em nome do partido CNRT, ‘que não sabe governar e que está cheio de autonomistas e corruptos, eu tenho que reconhecer e de aplaudir o facto real de que só desde 2017 até agora é que surgiu o desenvolvimento, com a liderança de líderes inteligentes, e de membros do governo qualificados de alto perfil que sabem governar este Estado de direito democrático”.

Xanana Gusmão

Este assumir (sarcástico) segundo o qual o CNRT integra militantes que outrora defenderam a autonomia de Timor-Leste sob a soberania Indonésia é do conhecimento público. Contudo, não tenhamos pruridos em afirmar, todos os partidos políticos timorenses, incluindo a FRETILIN, integram nas suas fileiras membros que no passado capitularam e tomaram a opção pela Indonésia.

Atente-se bem, uns mais do que outros, todos os partidos estão nessa situação, sendo certo que essa realidade é transversal na sociedade timorense, havendo também oficiais das Forças Armadas e da Polícia Nacional nessa condição, o mais sensato é esquecer este delicado dossier ou as feridas jamais ficarão cicatrizadas.

Por outro lado, o processo de reintegração de timorenses pró-autonomistas (a favor da Indonésia), penso que é bom recordar, obedeceu a uma estratégia delineada no tempo da UNTAET (Autoridade Transitória das Nações Unidas), implementada logo após o referendo em 1999, sob liderança do brasileiro Sérgio Vieira de Melo.

Nesta altura, a UDT, a FRETILIN, o PST e outros líderes políticos integraram o modelo de governo montado pelas Nações Unidas, pelo que, críticas sobre essa matéria podem não ter razão de ser na medida em que a liderança no seu todo acolheu a  “recomendação” (leia-se: imposição) das Nações Unidas, isto é, a reintegração social e política de “autonomistas”.

Pobreza extrema e cobiça num país com tantas riquezas naturais

A preocupação do Brigadeiro General Lere em relação ao momento que o país atravessa, literalmente paralisado, sem desenvolvimento económico e social, com a pobreza e a miséria a aumentar de forma significativa é muito pertinente e deve merecer a atenção da liderança política, independentemente das suas divergências ideológicas e políticas.

Um estudo realizado em 2019 pelo «Índice Global da Fome» refere que Timor-Leste é o décimo país que mais sofre com a fome no mundo, atrás do Afeganistão e do Sudão, mas estes foram devastados pela guerra.

Nos diferentes municípios de Timor-Leste, principalmente nas zonas mais remotas, não fossem os timorenses agricultores, a miséria poderia atingir dimensões ainda mais preocupantes.

Até na cidade capital, Díli, continuam a faltar serviços básicos, tais como água potável, saneamento básico, saúde e educação. O desemprego é assustador e atinge 75% da população com menos de 35 anos de idade, havendo antes da pandemia da Covid-19 várias centenas de jovens a emigrarem para a Coreia do Sul, Irlanda (talhos e outros serviços) e Austrália (colheita de frutas) para se juntarem aos milhares que já lá se encontram.

A verdade é que para além da cobiça estrangeira sobre as riquezas naturais de Timor-Leste, mesmo havendo esta situação generalizada de pobreza sem fim à vista, muitos dos principais líderes olham para o petróleo e o campo de gás Greater Sunrise como fonte de riqueza pessoal e não para investir no desenvolvimento sustentável do país, o que também levanta sérias dúvidas sobre a autenticidade da “intervenção humanitária” filantrópica da Austrália em 1999.

*PhD em Educação / Universidade de Lisboa

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