terça-feira, 2 de março de 2021

Portugal | Que pena, que tristeza, que carneirada

O Expresso Curto sobre Portugal e o mundo. Lavra de Vitor Matos, da chafarica do tio Balsemão - Impresa, que ali está de pedra e cal. Continue. Sobre o mundo o melhor é ler Matos, sobre Portugal também. O que queremos ressaltar aqui é o anúncio do tio do PSD, Rui Rio, que veio anunciar a candidatura de um apaniguado de Passos Coelho e de tachos na UE por relevantes serviços no saque aos portugueses durante a crise em que o FMI e a UE meteram os portugueses, com sorte, a pão e água e outros dentro de esquifes acompanhados de um balde de cal e três badaladas. 

Moedas-Passos Coelho, uma dupla que nos levou ao descalabro e à fome, ao desemprego, à legalização do roubo aos plebeus para, disseram eles, "salvarem os bancos". Sim. É esse mesmo Moedas, um Carlos Sonso da estirpe do Passos que já dizem que também vai voltar à política nacional e retomar governo e sementeira de mais e mais neoliberalismo. O tal que é antecâmara do fascismo. Pudera, um Passos fascista cumprirá a sua tendência preferida. É o que é. Assim, sorrateiramente, a "coisa" está-se a cumprir... E os portugueses, ditos eleitores, a permitirem serem banhados em tanta vaselina que já nem sentem nada nos entrefolhos... É assim a vida dita "democrática". Pois é.

Medina ou Moedas em Lisboa... Tanto faz. Farinha do mesmo saco.

Fácil concluir que também a democracia avança para a cova, acompanhada por três badaladas e um balde de cal. O costume, neste longo processo de tramar povos - em que a classe dominante é especialista e deslumbrante na sacanagem que exibe. Já lá vão os que os recebiam com um garboso manguito. Que pena. Que tristeza. Que carneirada. Assim vai Portugal, a reboque de muito mundo no trilho do neoliberalismo, do nazi-fascismo, do racismo e da xenofobia. Pois.

Dito, sem mais. Lá vamos a seguir colar aqui o tal Curto do Expresso, que vale sempre a pena se a atenção e o pensar não for pequena. Avancem adiante. Curtam.

Redação PG 

Bom dia este é o seu Expresso Curto

Moedas vs. Medina: o futuro do PS contra o do PSD

Vítor Matos | Expresso

Bom dia!

Um dia, Zé Moedas, diretor do “Diário do Alentejo”, que era comunista, disse ao filho: “Não concordo contigo, mas luta por aquilo em que acreditas”. E o filho, nascido e criado naquela Beja parada, fez caminho nos estudos e depois nas empresas e a seguir no estrangeiro até ficar rico, digamos assim, para poder dedicar-se à política sem pensar no dia seguinte - nos antípodas do pai -, como militante do PSD e secretário de Estado da troika no Governo de Passos Coelho. Mas o voo mais alto estava para vir, nos cinco anos que passou como comissário europeu da Investigação, Ciência e Inovação. Agora, Carlos Moedas abdica de uma posição confortável na Gulbenkian para aceitar o desafio de Rui Rio e candidatar-se à Câmara de Lisboa. Devemos saber em breve, talvez hoje, o que tem para dizer o challenger do socialista Fernando Medina - também ele filho de dois comunistas que apesar de tudo se tornaram dissidentes do PCP e é de crer que também lhe dissessem para lutar por aquilo em que acreditava.

A política tem destas coisas, se Rui Rio andava com dificuldades em ter um trunfo viável que se pudesse apresentar para ganhar Lisboa, ele aí está: com esta jogada, o líder do PSD mostra instinto mas também cria um possível sucessor (quem sabe se futuro adversário) que ficará muito mais forte só pelo facto de ir a jogo, nem precisa de vencer. Se ganhar, claro, Moedas será promovido a herói laranja - como foi o próprio Rio em 2001 - e ficará o mais bem colocado sucessor na grelha de partida para uma presidência futura do PSD.

Estas coisas que a política tem exigem sempre prudência, e Fernando Medina não podia imaginar que lhe ia sair um touro de 500 quilos na arena - foi o que em 1989 disse António Pinto Leite a Marcelo Rebelo de Sousa quando lhe saiu Jorge Sampaio na rifa. Agora terá de arregaçar as mangas e mostrar o que vale no seu próprio terreno. Se perder, perde a mais importante câmara do país que já deu um Presidente da República e um primeiro-ministro ao PS, mas perde também as possibilidades de um dia poder liderar o partido. Se ganhar (sobretudo se não mirrar mais) continua tudo em aberto, caso um dia um dia queira aparecer como alternativa da ala esquerda de Pedro Nuno Santos e o PS tiver de voltar à zona central onde quase sempre esteve.

Com estes dois homens em competição, pode ser que a campanha seja verdadeiramente interessante, até porque ambos tiveram de pensar “cidade” por dever de funções nos últimos tempos. Há dois anos, quando ainda estava na Europa, o comissário Carlos Moedas fez um discurso em Portugal a dizer: "Hoje, quando vinha para cá, passei pela Avenida da Liberdade, e pensei 'o que será daqui a dez anos a Avenida da Liberdade?'. O futuro é sempre diferente daquilo que nós pensamos." São esses dois futuros em confronto que queremos ver a competir em outubro. O teste será decisivo para ambos, para Lisboa, que só tem a ganhar com o elevar da fasquia e já agora para os dois partidos também.

Na sua coluna diária no site do Expresso, o Daniel Oliveira escreveu ontem uma análise do que está em causa na capital, que vale a pena ler e que começa assim: “Há uma semana assinaria o epitáfio de Rui Rio Tudo indicava a desgraça: as sondagens, o crescimento dos partidos à sua direita e o fantasma de Passos Coelho. Mas é capaz de ter sido o sopro de Passos Coelho no seu pescoço que fez Rui Rio tirar Moedas da cartola. (...) As autárquicas podem ser a salvação de Rio. Mas um fantasma do passado pode ser substituído por outro do futuro. Se Moedas ganhasse Lisboa estaria bem colocado para liderar o PSD.” Agora vamos ao resto.

OUTRAS NOTÍCIAS

E o resto é o principal, aquilo que nos tem preenchido ou esvaziado as vidas e que nos mudou tudo, infelizmente para milhares de famílias tem sido uma tragédia, faz hoje um ano desde a primeira infeção por covid em Portugal. E desde então já morreram 16.351 pessoas no nosso país com o novo coronavírus, podia debitar por aqui muitos números, mas este chega para nos pôr a pensar. “Cansa-me o cansaço de estar sempre cansada”, lê-se num destes 28 depoimentos recolhidos e escritos pela Marta Gonçalves para assinalar este momento de fazer balanços: “Um cansaço perigoso, traiçoeiro: num dos casos este cansaço estava a matar e a própria pessoa nem se apercebeu”.

Numa abordagem mais imediata, ficamos a saber que já só há 14 concelhos com risco muito elevado e apenas três com risco extremamente elevado, ou seja, o confinamento está a dar resultados. Noutra mais de fundo, vale a pena olhar para trás e ler este trabalho da Liliana Valente sobre “um ano a governar em aflição” e que foi publicado na última edição em papel do Expresso e que nos conta os bastidores do Governo na gestão da pandemia durante o último ano.

Marcelo Rebelo de Sousa, que se tem assumido como “supremo responsável” por tudo o que se tem passado na pandemia, também fez questão de assinalar um ano de infeções com uma mensagem publicada no site da presidência, onde elogia os profissionais de saúde, o SNS e os privados, mas não deixa de mostrar os dois lados da moeda e de mandar mais um recado ao Governo: “O país foi-se ajustando à pandemia, umas vezes mais proativamente outras, infelizmente, mais reativamente." O Presidente da República tem insistido numa regulamentação do ruído, mas valerá a pena legislar apenas para o confinamento? A lei do ruído será revista “mais cedo ou mais tarde”, diz ao Expresso o presidente da associação ambiental Zero.

E será que a redução de casos positivos identificados oficialmente está a descer muito porque Portugal está a testar pouco? “Não”, diz um especialista ouvido pelo Expresso e que esteve há uma semana na Assembleia da República. Também pode ouvir aqui o Expresso da manhã, moderado pelo Paulo Baldaia e com os comentários do David Dinis e do Daniel Oliveira, sobre quem afinal é que manda neste segundo ano de pandemia: Marcelo ou Costa? É ouvir.

A semana arrancou com uma mudança um tanto inesperada na estratégia da Comissão Europeia quanto ao já famoso 'certificado de vacinação’. Depois de semanas de ressalvas e reservas face à hipótese de introduzir esta espécie de passaporte, Ursula von der Leyen anunciou esta segunda-feira, logo pela manhã, que Bruxelas vai avançar com uma proposta legislativa para a criação de um ‘digital green pass for travel’. Este documento poderá incluir informações como o resultado de testes à covid-19, provas de imunidade ou comprobatórios de vacinação. O vice- presidente da Comissão Europeia, Margaritis Schinas, assegurou ontem que “não é uma discriminação; é a criação de um sistema comum para assegurar a mobilidade segura dos cidadãos europeus”. Mas nem todos concordam. Estados-membros como a Bélgica vieram já dizer que a vacinação não pode comprometer a liberdade de circulação na UE ou pôr em causa o princípio europeu de não-discriminação. A proposta de Bruxelas será conhecida em detalhe a 17 de Março e promete não ser pacífica.

Por falar em liberdade de circulação e documentação europeia relativa à pandemia, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras deteve, este domingo, no Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, três cidadãos portadores de documentação falsa sobre a realização de testes de covid-19. Dois deles foram detetados na partida de um voo com destino à República da Irlanda, e outro para a Áustria.

O PCP comemora 100 anos esta semana, o que faz de um partido marxista-leninista a organização mais antiga presente na democracia portuguesa. Como as instituições antigas têm as suas liturgias, os comunistas farão hoje às 11h, em simultâneo, uma romaria aos lugares dos seus mártires por todo o país: pelas vítimas do Tarrafal no cemitério do Alto de São João; em Alcântara, por José Dias Coelho, assassinado pela PIDE em 1961; em Baleizão, no monumento com a foice e o martelo onde Catarina Eufémia foi assassinada pela GNR em 1954; e na Estrada de Bucelas, perto do local onde Alfredo Diniz (Alex) foi morto em 1945. Ontem, Jerónimo de Sousa falou da sua vida mais do que do partido numa entrevista a Miguel Sousa Tavares na TVI: Em meia hora, o homem que há 17 anos lidera o PCP lembrou memórias da guerra, da entrada na política do mundo operário para a bancada da Assembleia Constituinte e ainda do atual estado das relações com o Governo do PS.

Quem continua a detetar falhas e limitações que "fragilizam a monitorização da informação" é o Tribunal de Contas, no seu segundo relatório sobre a execução orçamental das medidas de resposta à covid-19.

E se o Benfica andava há quatro jogos a sofrer com outras falhas e as limitações, ontem o clube da Luz regressou finalmente às vitórias com um golo de Seferovic e outro de Pizzi, frente ao Rio Ave. Mais otimista que nas últimas semanas, Jorge Jesus disse que "a equipa sabe que está a respirar, a meter a cabeça fora. São estas vitórias que nos alimentam e dão confiança".

Lá fora, em França, a notícia de um ex-presidente preso num país onde a extrema-direita está cada vez mais forte nas sondagens: Nicolas Sarkozy, inquilino do Eliseu entre 2007 e 2012, foi condenado ontem a três anos de prisão, dois de pena suspensa e um de prisão domiciliária efetiva com pulseira eletrónica. Não vai para os calabouços, mas não serão as férias mais agradáveis… O ex-chefe de Estado francês foi condenado por ter tentato obter informação junto de um magistrado de forma ilegal, em 2014, no contexto de um processo jurídico em que estava envolvido, oferecendo-lhe um lugar em troca. Sarkozy ainda será julgado de novo no final de mês, noutro processo relacionado com a sua campanha para as eleições presidenciais de 2012, que perdeu para o socialista François Hollande.

FRASES

“Se alguma coisa positiva se pode retirar daquelas imagens trágicas, é o reconhecimento de que há uma disfunção na forma como os doentes acedem às urgências”
Nélson Pereira, coordenador do serviço de urgências do Hospital de S. João, no Porto, no “Público”

“É arriscado ousar um exercício de otimismo quando a doença grassou, a morte se instalou e a crise levou tantas famílias à miséria. Mas, um ano depois, é fundamental ver em perspetiva o que se passou”
Manuel Carvalho, diretor do “Público”, no editorial

“Essa maior fragilidade de todos nós é lamentavelmente acompanhada por um Governo que se mostra menos capaz de transmitir uma mensagem de confiança”
Helena Garrido, "Observador"

O QUE ANDO A LER

Sam Shepard põe-se a falar ou a escrever de fora quando afinal o que está é a falar sobre si neste pequeno livro de memórias, crónicas, e poemas, um road book em registo diarístico que havia de lhe dar a inspiração para escrever o guião do filme “Paris, Texas” realizado por Wim Wenders no longínquo ano 1984. As “Crónicas Americanas” que um bom amigo me ofereceu há anos suficientes para me sentir velho, mas que só fui lendo agora para desenjoar de outro demasiado volumoso - e que tem em inglês o título “Motel Chronicles” - é uma viagem por parte da vida do escritor, ator e dramaturgo desaparecido em 2017, que nos leva pela aridez das estradas da Califórnia, Texas ou Novo México, e onde só falta sentir o odor a mofo dos quartos à beira do asfalto. Cada texto está assinado com uma data e local onde foi escrito, o que nos dá uma verdadeira sensação de realidade e tempo.

Numa das crónicas (será antes uma reportagem?) fala do “cheiro a cobras”, nojento sim, uma “cascavel Mojave verde” desmembrada, mas a que raio cheira uma cobra?, é melhor nem pensar nisso. Noutra, quem dera escrever assim, porque escrever assim é uma coisa muito dos jornalistas que escrevem bem, descreve como ao descer uma colina a cavalo lhe mete medo (mas ele não precisa de lhe dizer que mete medo) o olhar de um rancheiro que ele nem sabe que está a olhar para ele. Um medo ancestral de descendentes de colonos ou uma reminiscência dos filmes de cowboys? Ou o medo do pai dela, noutro texto, com quem ele “fez” ao longo de uma viagem de comboio, ou ainda, mais impressionante, a história da camisa encarnada… onde o não dito e o que fica por dizer nos incomoda mais do que se fosse dito, até porque imaginamos que haja ali alguma verdade.

Por hoje fico por aqui, obrigado por ter chegado até ao fim da chávena, e tenha um bom resto de semana. Continue a acompanhar as notícias pelo Expresso, pela Tribuna ou pela Blitz.

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