domingo, 30 de março de 2025

Série TV | “Adolescência”: mais do que uma série, uma ferida aberta que não cicatriza

Vasco Avides Moreira* | Expresso | opinião

Sem ter uma resposta, tenho uma reflexão com base na empatia que julgo ser condição necessária de um investigador que ousa entrar no universo dos adolescentes, como foi o meu caso: é necessário empoderar os jovens, dar-lhes mais voz, não os infantilizar nem paternalizar

A série “Adolescência” tem dado que falar, e razões não faltam para este fenómeno da Netflix que evidencia a negligência coletiva perante a realidade digital que os adolescentes vivem hoje: desregulada, desmesurada e, sobretudo, perigosa.

A série retrata um caso de homicídio de uma colega de turma por parte de um jovem de 13 anos no Reino Unido. Mas não é pelo contexto britânico que o programa chegou nos primeiros quatro dias aos 24 milhões de visualizações, tendo atingido o primeiro lugar entre as séries mais vistas da plataforma de streaming globalmente, com críticas avassaladoramente positivas sobre a sua importância.

A história de Jamie Miller, num enredo que envolve os seus pares, família, educadores, profissionais de saúde e a polícia, abre portas a uma discussão atual, fundamental e sobretudo de uma fragilidade extrema: a vulnerabilidade de um grupo socialmente negligenciado em todo o mundo, que vive uma realidade totalmente distinta de todas as gerações prévias.

Os adolescentes vivem através da tecnologia - que os viu nascer – um universo frequentemente desconhecido por aqueles que lhes são mais próximos. Nessa outra dimensão misteriosa, são desenvolvidas identidades digitais que não existem num vazio: elas baseiam-se em inspirações, em figuras que através das redes sociais se tornam autoridades e que influenciam comportamentos. Estes que, de forma por vezes positiva e outras tão perigosa, podem não ser percetíveis pelo próprio jovem, porque não existe uma estrutura – escolar ou familiar - que consiga desmistificar a complexidade do digital. Há um empoderamento de criadores de conteúdo que atuam de forma desregulada, implementando ideias e formas de pensar que podem ter consequências tão graves como teve o desfecho de “Adolescência”.

Ao longo dos últimos quatro anos tenho estado a investigar como é que adolescentes dos 13 aos 18 anos em Portugal se podem aproximar do jornalismo, tentando entrar no seu universo digital ao nível dos consumos de conteúdos em redes sociais visuais como o Instagram, o YouTube e o TikTok. Concluí que o poder dos algoritmos se está a sobrepor cada vez mais, e que a informação chega aos jovens sobretudo através daqueles com quem os jovens sentem uma ligação emocional. Estes não são, infelizmente, os perfis de organizações devidamente reguladas – como é o caso do jornalismo - mas sim contas individuais de criadores de conteúdo que operam de forma independente, e que conseguem captar a atenção através de um discurso que pode ser construtivo ou destrutivo.

Quando é o segundo, existe um jogo de manipulação, tantas vezes motivado por interesses comerciais, e que leva a comportamentos prejudiciais, como a motivação para o cyberbullying que se evidencia de forma cruel na produção da Netflix.

Seja em casa ou na escola, não há acompanhamento do ritmo estonteante do universo digital do adolescente. Surge, em contrapartida, uma retração que leva ao debate de temas que voltam à ordem do dia com a série, como a proibição do uso de telemóvel nas escolas. Sem ter uma resposta, tenho uma reflexão com base na empatia que julgo ser condição necessária de um investigador que ousa entrar no universo dos adolescentes, como foi o meu caso: é necessário empoderar os jovens, dar-lhes mais voz, não os infantilizar nem paternalizar.

Esta tendência tão presente na série e fora dela por parte dos adultos é uma forma de negligência que em nada acrescenta senão numa maior distância daqueles que urgem ser ouvidos e compreendidos, e que são afastados do espaço público quando simultaneamente se expõem digitalmente para o mundo inteiro.

É necessário um trabalho coletivo e colaborativo, que é projetado na série como um grito de socorro, um exemplo extremo que demonstra as consequências fatais que pode ter um evento no qual o criminoso é realmente um adolescente de 13 anos. Jovem este cuja atuação impacta, porque alia a sua esperteza a uma insegurança e sobretudo a uma revolta. Não é caso único, bem pelo contrário: Jamie representa uma fase da vida que é tantas vezes vista e menosprezada como um bicho de sete cabeças. Se isto não é novidade - outras gerações também passaram esta etapa confusa da vida - há uma impreparação generalizada para a atual “Adolescência”, daí que a série e o seu próprio nome consigam ser tão arrebatadores.

Há trabalho a ser feito, muito aliás. Redes de investigação e projetos nacionais e internacionais que tentam aproximar a realidade dos adolescentes dos adultos – pais, professores, profissionais de saúde, jornalistas e tantos outros – mas conhecer estes estudos exige sentido crítico, exige a leitura atenta quando a falta de tempo prolifera. Talvez esta série possa despertar uma consciencialização maior para compreender estudos desenvolvidos por redes internacionais como a EU Kids Online ou o ySKILLS, criar uma rotina para consumir os recursos disponibilizados nacionalmente pelos projetos Cria.On ou o LEME.

Os adolescentes, como partilharam comigo em dezenas de entrevistas individuais que tenho feito, precisam de sentir que têm o seu lugar no mundo, sentirem-se ouvidos e reconhecidos. Isto requer mudanças estruturais e em rede, de forma a promover a cidadania sem demonizar o uso das tecnologias de informação e comunicação.

Doutorando e investigador em Ciências da Comunicação

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