Em
< Fernanda Câncio, opinião | Diário de Notícias >
A data é 23 de setembro de 2019, e o remetente é o à época diretor executivo do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, o sociólogo João Paulo Dias. Em cc, ou seja, “com conhecimento”, está o professor catedrático António Sousa Ribeiro, que em abril desse ano sucedera a Boaventura de Sousa Santos (o primeiro, e até então único, diretor desde a fundação da instituição, em 1978).
“O Centro de Estudos Sociais (CES) tomou conhecimento da sua foto na sua página pessoal de Facebook, a qual anexo a este email”, lê-se na comunicação, escrita em inglês (a língua da destinatária). “Esse “escrito” na parede, perto das instalações do CES, foi feito enquanto Boaventura de Sousa Santos era nosso diretor, sendo agora nosso diretor emérito. O que está a fazer é reproduzir uma acusação ultrajante e infame para a qual, até agora, não há consubstanciação factual apresentada ao CES ou a qualquer instância judicial, como deveria, sendo verdadeira, haver.”
Em anexo no email, que foi reencaminhado para o DN, está a reprodução de uma página de FB na qual se vê a foto do que parece um muro e onde está escrito a tinta encarnada “Fora Boaventura todas sabemos”.
Nos dois parágrafos seguintes, o diretor executivo insta a destinatária a “apagar imediatamente a foto”, sob pena de processo judicial.
“Assim, é inaceitável que contribua para este ato de ‘assassínio de caráter’ público. Se tem conhecimento de factos que possa revelar, por favor comunique-os. Se não, instamo-la a retirar de imediato a foto. Se não o fizer de imediato, instauraremos uma ação no sistema judicial português.”
Naturalmente, custa a crer que uma instituição académica que sempre se apresentou como desconstrutora de poderes estruturais - anti-capitalista, anti-patriarcal, anti-colonial, etc - considerasse apropriado exigir a alguém (no caso, uma anónima ex-estudante de doutoramento do CES, para mais estrangeira) que apagasse da sua página numa rede social a imagem de um graffito, qualquer que ele fosse, ainda por cima com aquelas características. E, mais extraordinário ainda, que ameaçasse com um processo judicial - processo judicial que, estando em causa a imagem descrita, jamais teria fundamento.
Intrigada, contactei João Paulo Dias e António Sousa Ribeiro para tentar, desde logo, perceber se efetivamente aquele email foi enviado pela direção do CES e qual o motivo para reputarem aquela imagem de difamatória. O segundo não respondeu, mas o primeiro confirmou o envio da comunicação. Porém, não quis esclarecer, como solicitado, o que considerou o CES constituir “assassínio de carácter” e “acusação infame” na imagem em causa.
“Falei aos órgãos próprios, tal como sempre farei quando solicitado por qualquer órgão institucional ou judicial”, respondeu o ex-diretor executivo do CES, e mais não disse.
A não resposta do ex-diretor executivo do CES é todo um programa: ou a foto em causa no email não é aquela que veio reencaminhada com o mesmo, ou não havia como responder sem tornar claro que a então direção do CES sabia aquilo que o graffito garantia “todas saberem”.
É que, como deve ser evidente, só poderia considerar “infame” e “ultrajante” o saber a que a pichagem alude tendo conhecimento do teor da alusão, e considerando-a muito grave. Sucede porém que, considerando a alusão muito grave, a direção do CES deveria estar mais preocupada em perceber se tinha um fundo de verdade que em proteger o seu ex-diretor a todo o custo, suprimindo metodicamente qualquer denúncia, por mais encriptada e remota.
Esta ação da direção deste centro académico é tanto mais simbólica quando a destinatária do email é a americana Miye Nadya Tom, que viria a ser uma das três autoras do famoso “capítulo” sobre o CES inserido numa coletânea internacional sobre assédio sexual na academia (Sexual Misconduct in Academia, Routledge, 2023) e cujo título remete, precisamente, para as pichagens nas quais se aludia a esse mesmo assédio: The walls spoke when no one else would/As paredes falaram quando ninguém mais se atrevia. Pichagens essas que, como se lê no capítulo e foi confirmado ao DN por múltiplas fontes, eram de imediato mandadas apagar pelos responsáveis do CES.
O capítulo, é sabido, desencadeou há exatos dois anos um escândalo mediático e académico mundial, escândalo esse que acabaria por levar, em novembro último, à saída de Boaventura de Sousa Santos do CES, na sequência das averiguações (finalmente) levadas a cabo na instituição.
Dessas averiguações, primeiro efetuadas por uma “comissão independente” e depois, na sequência das conclusões da mesma - de que tinham existido “padrões de conduta de abuso de poder e assédio por parte de algumas pessoas que exerciam posições superiores na hierarquia” - por uma “comissão prévia de inquérito”, que examinou as provas existentes para perceber se havia bases para processos disciplinares, só existiu uma consequência material: a já mencionada saída de Boaventura de Sousa Santos, que aconteceu antes de qualquer processo disciplinar que pudesse visá-lo, e sem que sequer se saiba se iria ser o caso.
Ou seja, sem que as denúncias efetuadas e a defesa apresentada chegassem a ser conhecidas publicamente.
De algum modo, quando se apresenta como “bode expiatório” - como mais uma vez fez na delirante entrevista que deu este domingo à CNN-Portugal - Boaventura de Sousa Santos tem alguma razão: o CES quis nele expiar todos os seus pecados, para não ter de encarar a dura verdade. A de que terão sido necessários muitos silêncios e silenciamentos para que os tais “padrões de abuso e assédio” ali se perpetuassem. Silêncios e silenciamentos muito ativos que, como o email reproduzido comprova, têm sido, apesar de toda a atenção que o “caso CES” mereceu, eles próprios silenciados.
Sem comentários:
Enviar um comentário