domingo, 10 de novembro de 2013

IRÃO E O CIRCO NUCLEAR

 

Cristina Oyarzo Varela
 
Não tem nada de curioso que as potências ocidentais costumem utilizar o medo como instrumento para justificar suas guerras, uma ferramenta de fácil uso que apela com descaro às emoções humanas mais primárias para nublar a análise. Já vimos no Iraque, onde a partir da afirmação da existência de armas de destruição em massa e o perigo do terrorismo internacional para toda a comunidade internacional, procederam à invasão ilegal do país. Pouco depois, esta hipótese foi destruída pelos fatos e a partir daí, os ocupantes não se preocuparam mais em elaborar desculpas. Já tinham derrubado um governo que consideravam incômodo, fizeram grandes negócios e destruíram o país.
 
O caso do Irã tem certas semelhanças. A recorrência ao terror como estratégia é, mais uma vez, a encarregada incidir nas consciências e a partir daí, introduzir facilmente o discurso da "necessidade" de uma guerra neocolonial. Desta vez, com a desculpa de uma possível guerra nuclear.
 
Fala-se sem discriminação, nos espaços políticos e na mídia, da "ameaça nuclear iraniana". Em primeiro lugar, essa "ameaça" - conceito de difícil retenção - não foi confirmada por nenhuma instância internacional, já que até agora e segundo fontes especializadas, o Irã não possui a capacidade de construir armas nucleares. Então, o que se busca efetivamente é evitar a obtenção desse tipo de capacidades. E nenhuma organização oficial pode afirmar com certeza a hipótese de que o Irã está à procura desses instrumentos. Por outro lado, o Irã declarou diversas vezes que seus planos de desenvolvimento nuclear são com exclusivos fins civis, o que se traduz em "pacíficos". Resumindo, não estamos diante de uma ameaça nuclear, mas sim, estritamente, diante da possibilidade de que um Estado específico construa os instrumentos para, possivelmente, desenvolver armas nucleares. É um pouco difícil perceber a diferença, mas no fundo, é um detalhe fundamental.
 
Os Estados Unidos, a União Europeia e Israel apresentaram esta dramática cena só pela possibilidade de que, em algum momento, o Irã possa ter as ferramentas para construir armas nucleares. Pelo menos é um elemento que deve ser considerado ao analisar o contexto geral.
 
Por outro lado, é possível que continuemos considerando legítimo que se exija a não nuclearização de alguns países enquanto outros possam estar livremente, não mais com capacidade de construção de armas, mas sim em posse de armas nucleares?
 
Segundo o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares de 1968, existem países que não podem ter armas nucleares - quase o mundo inteiro - e outros que podem.
 
Evidentemente, os únicos que podem ter este tipo de armas são as potências: Estados Unidos, França, Inglaterra, Rússia e China.

Coincidentemente, são os vencedores da 2ª Guerra Mundial e, portanto, os membros permanentes do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, possuidores do poder de veto, e aqueles que decidem, arbitrariamente, o que é ou não uma ameaça para a paz e segurança internacional. Isto por acaso respeita o princípio de igualdade soberana dos membros da Organização das Nações Unidas, estabelecido no artigo nº 2, parágrafo 1, de sua Carta fundacional?
 
Porque deveríamos considerar com maior força os argumentos dos Estados Unidos, Israel e da União Europeia? Porque, precisamente, os Estados Unidos, que não ratificaram o Tratado de Proibição de Testes Nucleares, e Israel, que não assinou este nem o Tratado de Não Proliferação Nuclear, fazem exigências a um terceiro país, quando não cumprem nem pensam cumprir com os mínimos acordos internacionais sobre o tema? Perguntas extremamente ingênuas e ao mesmo tempo irônicas. Prepotência absoluta.
 
Como antecedente adicional, e situação ainda mais absurda, é que precisamente Israel, o principal promotor da invasão, é o país que possui mais de 200 ogivas (a maior capacidade depois dos membros permanentes do Conselho de Segurança) não declaradas. Esta informação foi divulgada, inclusive, pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter.
 
Voltando à contingência, devemos destacar que especialistas norte-americanos e israelenses, entre outros, alertaram sobre as dificuldades de um ataque bem-sucedido de Israel contra o Irã, com ou sem os Estados Unidos. Em primeiro lugar, as distâncias, as armas existentes e as dificuldades de conseguir localizações precisas dos objetivos, não permitiriam um bombardeio definitivo e, no melhor dos casos, o resultado seria o atraso de alguns meses dos supostos planos nucleares, mas não a destruição das instalações. Devemos acrescentar que as rotas de voo implicariam a autorização de uso do espaço aéreo pela Jordânia, Arábia Saudita, Turquia ou Iraque, o que não é necessariamente um assunto de fácil resolução.
 
Considerando as fraquezas militares de Israel - em relação a esta conjuntura específica - pode-se dar credibilidade à hipótese de que, a partir dos bombardeios que com certeza não conseguiriam muita coisa, a aposta do atacante seja produzir uma desestabilização interna, capaz de derrubar o governo dos aiatolás. Questão que, por outros motivos, está explicitamente proibida pela Carta da Organização das Nações Unidas.
 
E para que tenta o reduto ocidental no Oriente Médio acabar com o regime islâmico?
 
Na minha perspectiva, a resposta é complexa e ainda mais incerta. Isto porque além da necessidade de controlar a rota do petróleo, questão óbvia, há bastante evidência para estabelecer que existe um ascenso do Irã como potência regional. Tanto no nível da liderança política como econômica. De alguma forma, é preciso tentar inserir o tema do Irã (e o da Síria, o aliado mais "fiel" do Irã até o momento) no mapa político regional. Basta ver como as intervenções dos Estados Unidos e da OTAN no Afeganistão e no Iraque foram um fracasso, fazendo impossível a instalação de governos com a estabilidade suficiente para controlar os seus povos e submetê-los às diretrizes políticas estrangeiras; como as relações com o Paquistão estão cada vez mais tensas e como a influência das potências chinesa e russa articulam um cenário complexo para o "ocidente", onde cada vez mais, os processos de decisão são assumidos com certa margem de autonomia internacional.
 
Além do tema do petróleo, tema de controvérsias por excelência, o que está em jogo hoje é a hegemonia total de uma cultura, de alguns modelos políticos específicos, de um modo de fazer economia dos Estados que, pelo menos durante o século 20, se aproveitaram da posição de poder absoluto.
 
Definitivamente, os argumentos usados pelos Estados com poder para atacar o Irã são absurdos. Se a preocupação pelas ameaças contra a paz e a segurança internacionais fosse certa, o primeiro questionado seria Israel, país que nos últimos 50 anos invadiu o Líbano (1978, 1982 e 2006); bombardeou a Síria em 2007 e mantém a Palestina invadida desde 1967, com ofensivas militares que deixaram milhares de mortos em 1967, 1987, 2000, 2008 e 2009, além das vítimas permanentes da ocupação, entre outros assuntos militares.
 
Dessa forma, é possível que algum país ou organização internacional tenha a ousadia de dar um ultimato ao "bullying" de Israel? É possível ver o Conselho de Segurança exigindo aos Estados Unidos, Rússia ou Israel um desarmamento imediato para garantir a paz mundial?
 
E se mesmo sob este argumento maluco (que parte da premissa de que somos, o resto do mundo, totalmente idiotas), é realizado um ataque que dificilmente possa cumprir o seu objetivo, a que tentativa de síntese poderíamos chegar? Hegemonia.
 
E hegemonia para quê?
 
 

Sem comentários:

Mais lidas da semana