quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Portugal: UMA SEGUNDA OPORTUNIDADE PARA MIRÓ

 

José Cabrita Saraiva – Sol, opinião
 
Não gosto de falar de cor, mas tenho a ideia de que, na época dos lucros fabulosos, os bancos distribuíam prémios no valor de milhões de euros. Os seus administradores mantinham um estilo de vida condicente com essa riqueza súbita e obscena. Porém, quando os bancos precisaram da ajuda do Estado, tiveram de ser os contribuintes a pagar a factura...
 
Os números variam: em tempos, disse-se que o buraco do BPN custou 4 mil milhões de euros aos portugueses, mas notícias mais recentes apontam para cerca de 6 mil milhões. Em qualquer dos casos, para o cidadão comum, são valores difíceis de conceber.
 
No fundo desta espécie de buraco negro onde o dinheiro ia desaparecendo, deste sorvedouro insaciável de recursos, havia no entanto qualquer coisa que continuava a brilhar. Refiro-me às obras eminentemente líricas do catalão Joan Miró - pintor de sonhos, de imagens infantis e de estrelas - que o destino trouxe até Portugal.
 
Não posso pronunciar-me sobre a qualidade das 85 pinturas e desenhos, pois durante a sua passagem por cá estiveram sempre fechadas a sete chaves e, antes da sua saída para Londres, nenhuma alma caridosa tomou a iniciativa de organizar uma exposição e trazê-las à luz do dia. Mas parece-me evidente que, no meio dos activos tóxicos da Sociedade Lusa de Negócios, eram talvez a única coisa que mantinha intacta a inocência.
 
Para todos aqueles que contribuíram para tapar o buraco e acreditaram que as pinturas podiam ficar em Portugal, nasceu a esperança de que qualquer coisa de positivo podia resultar do escândalo. Uma espécie de final feliz para um episódio negro dos nossos tempos. Mas essa pequena retribuição, que custaria apenas uns 'trocos' em comparação com as quantias assustadoras que já foram gastas, foi-lhes negada, e as obras enviadas para leilão.
 
Portugal já tem, recorde-se, uma triste tradição de perdas trágicas. O terramoto de 1755 reduziu a cinzas a colecção de pintura do Paço da Ribeira, onde, ao que se diz, havia 50 obras do grande pintor veneziano Ticiano Vecellio. Apenas umas dezenas de anos mais tarde, as invasões francesas delapidaram o património das nossas igrejas e conventos. Já no século XX, artistas modernos de primeira água como Marc Chagall e Max Ernst passaram por Lisboa, mas sem aqui deixarem vestígios da sua presença. E, mais recentemente, o Estado Português recusou recuperar, por um preço quase simbólico, a sumptuosa baixela de prata que foi oferecida ao duque de Wellington por ter expulsado as tropas de Napoleão. Já para não falar do célebre diamante de D. José roubado na Holanda...
 
Agora que o leilão da Christie's foi suspenso, é-nos oferecida uma segunda oportunidade para evitarmos que esta tradição de perdas e prejuízos ganhe um novo capítulo.
 
Não a desperdicemos.
 

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