quarta-feira, 30 de julho de 2014

Brasil - Santander: banco que dá prejuízo a acionistas pode ser bom conselheiro?




O alarde associando oscilações da Bolsa às pesquisas eleitorais é uma versão 'Não vai ter Bolsa' do 'Não vai ter Copa'. Quem apostou contra o Brasil, perdeu

 Helena Sthephanowitz

O banco Santander do Brasil abriu seu capital ao público na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) em outubro de 2009, a R$ 23,50 cada ação. Menos de cinco anos depois, a matriz espanhola do banco fez, em 29 de abril de 2014, uma oferta pública para os acionistas minoritários – que detêm cerca 25% dos papéis do Santander do Brasil negociados na Bovespa – trocarem suas ações pelas ações da matriz do grupo espanhol, ao valor de R$ 15,31.

Significa que quem aplicou seu dinheiro nas ações do Santander Brasil em 2009 ao valor unitário de R$ 23,50, depois recebeu uma proposta do próprio banco de negociá-las por R$ 15,31. Um prejuízo de 34,85% entre uma operação e outra. Será que o banco pode ser considerado um bom conselheiro? A ponto de escrever uma mensagem nos extratos de caráter especulativo sobre rumos da economia de acordo com oscilações das pesquisas eleitorais que, pela falta de fundamentação mais sólida, não difere muito de previsões vistas nos horóscopos.

Outra curiosidade é que a matriz do grupo espanhol quer se fortalecer unificando com as operações brasileiras. Ou seja, há uma clara aposta no crescimento do mercado brasileiro maior do que na Espanha e, independentemente do resultado das eleições – senão esperaria outubro passar para montar tal operação ou não, conforme o resultado.

Há, de fato, especulação financeira na Bolsa de Valores quando as pesquisas melhoram as chances dos candidatos de oposição, porque o mercado financeiro vê o candidato do PSDB, Aécio Neves, como o seu representante. Se considerarmos as tensões naturais entre os interesses de lucro de banqueiros e o papel moderador da autoridade de governo para defender a sociedade dos excessos cometidos pelos bancos, através da boa regulação do mercado, Aécio se posiciona do lado do balcão em que estão os banqueiros. Dilma Rousseff é criticada por eles, que reclamam de excesso de "intervencionismo".

Porém, tal especulação não passa de alarde. Os espertos espalham o boato de que a Bolsa de Valores sobe ou desce conforme o resultado das pesquisas. As pessoas ingênuas acreditam e passam a vender ou comprar ações em função de oscilações nas pesquisas. Os espertos sabem de antemão o comportamento e fazem seus movimentos inversos, de forma a ganhar o dinheiro dos ingênuos. É como boiadeiros que conduzem a manada rumo ao abate.

Se a oposição tucana ganhasse as eleições, com suas medidas amargas prometidas, o mais provável é haver no Brasil medidas recessivas pedidas pelos bancos. E estas medidas prejudicam o desempenho de empresas, inclusive as de capital aberto, com ações negociadas. Logo, o cenário mais provável seria que a Bovespa sofresse queda em 2015, caso houvesse a eleição do tucano, e permanecesse combalida. Algo semelhante ao que ocorreu no início do governo Collor.

Mesmo a Petrobras perderia valor ao longo do tempo à medida que o tucano cumprisse sua promessa de retirar o protagonismo da estatal na exploração do petróleo no pré-sal, entregando para empresas estrangeiras. Seriam as petroleiras estrangeiras que teriam suas ações valorizadas em seus países, enquanto a Petrobras perderia valor por passar a um processo de encolhimento, como ocorreu no governo FHC.

O Banco do Brasil também perderia valor, pois o projeto tucano é privatista, de enfraquecer os bancos públicos em favor dos bancos privados. A única estatal que poderia ter seu valor de mercado maior a curto prazo seria a Eletrobras, se Aécio promovesse um tarifaço na conta de luz, como faz com a Cemig, forçando o cidadão a pagar mais para distribuir mais dividendos aos acionistas.

Porém, essas medidas prejudicariam todo o setor produtivo que tem a eletricidade como insumo. É outra medida recessiva que prejudica a produção e as exportações. Há outras questões, como a visão equivocada do tucanato em se imaginar atrelado apenas às economias estadunidense e europeia, se afastando do G-20 e dos Brics, o que importaria a crise europeia para cá, fazendo a bolsa cair.

Enfim, uma análise bem fundamentada não autoriza ninguém a levar a sério estas variações na Bolsa de Valores por causa de pesquisas. Até porque se houvesse essa relação de verdade, os próprios bancos contratariam suas pesquisas eleitorais internas diariamente para tomada de decisão no dia a dia. Mas os espertos especulam, e azar de quem perder dinheiro caindo nesta conversa.

Como há males que vêm para bem, o fato de um banco grande como o Santander ter replicado oficialmente este alarmismo chamou atenção para o que está acontecendo de fato. Este alarde é uma versão "Não vai ter Bolsa" do "Não vai ter Copa". Quem especulou que a organização da Copa do Mundo 2014 no Brasil fracassaria, perdeu. A Copa foi um sucesso na organização e nos resultados econômicos que o evento produz para o país.

Com aqueles que apostam contra a economia brasileira, que mostra capacidade de superar as adversidades, deve ocorrer a mesma coisa. A economia brasileira vem resistindo nos momentos mais adversos, até porque hoje é muito sólida, com reservas de US$ 370 bilhões que garantem folga para enfrentar tormentas. Se ajusta com novas oportunidades e horizontes que se abrem, como a recente criação do Banco de Desenvolvimento dos Brics.

Os que hoje pregam o terror para especular nas bolsas pedirão para esquecer o que escreveram logo que passar as eleições. Abertas as urnas, não haverá mais pesquisas eleitorais para especular com a crença dos ingênuos.

Rede Brasil Atual, em Blog da Helena

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