domingo, 15 de novembro de 2015

Angola. A LIBERDADE QUE SE ALCANÇOU ESTÁ SEDENTA DE AMOR E DE VIDA!




1 – Neste 11 de Novembro de 215, as minhas memórias estiveram bem presentes…

Enquanto na Praça do Mausoléu de Agostinho Neto o desfile comemorativo se espraiou sob meus olhos como um majestoso rio humano e eu repetia o gesto automático de disparar a pequena máquina fotográfica que gravou a afirmação de patriotismo e de esperança que tão intensamente se viveu, por dentro dos meus olhos húmidos, tocando-me por inteiro, tomando-me o cérebro e as entranhas, revivi aquele remoto 11 de Novembro de 1975 duma forma muito especial: reconstruindo secretamente os passos peregrinos e decididos do rio de minha própria juventude quando em Angola, entre o troar das armas, se afirmava e se assumia o sonho mais legítimo de liberdade!

Aos Dembos havia chegado em 1972, animado já de horizontes que se impunham muito para lá daquela época opaca, fechada ainda na caixa do fascismo e do colonialismo: minha consciência crítica havia sido oxigenada em Lisboa, onde a frequência na universidade, mesmo sem Casa do Império, possibilitou-me fazer um balanço sério das conjunturas que então se viviam, com a corajosa e resoluta dádiva dos colegas mais velhos e experientes, que me levavam também a questionar toda a vivência juvenil até então…

Nas universidades portuguesas o espírito de luta contra o fascismo e o colonialismo ganhava asas e dimensionou um território humano que viria a antecipar as transformações sócio-políticas que eclodiriam em todas as frentes do espaço português, implodindo o Estado Novo e finalmente abrindo autodeterminação e independência para as colónias.

Era o tempo dos trovadores e Zeca Afonso cantava as janeiras!

Tudo isso apanhou-me em cheio logo nos meus verdes vinte anos, pelo que quando dei por mim nos Dembos, feito alferes miliciano das Forças Armadas Portuguesas, sabia que iria ser sujeito a duras provas, por que o contraditório fustigaria e poria à prova de forma subtil mas inadiável todos os meus passos e todas as mais profundas convicções próprias dum jovem que despertava para a vida.

Não foi assim um náufrago que chegou os Dembos, foi um jovem para o qual a justiça não era uma palavra vã e perante as lições correntes com que se tinha de deparar, forçosa, ainda que paulatinamente, em tudo teria de optar.

Foi esse ambiente que me sacudiu por inteiro, um ambiente em que o quotidiano era uma radiografia das desigualdades, dos desequilíbrios humanos existentes e tantas vezes das injustiças sociais mais absurdas que se poderia imaginar, que conheci Teresa Cassule, uma jovem camponesa analfabeta de Pango Aluquém, nascida numa das pobres aldeias da região, na aldeia de Benza…

Com o fervor dos meus verdes anos cedo fiz dela minha companheira, com um misto de compreensão e espectativa por parte da sua família, pois possivelmente não suporiam que algo duradouro pudesse um dia surgir: em dias turbulentos afinal eram tão frequentes os amores de passagem, como as aves de arribação e depois o que faria um alferes miliciano na vida, amarrado por indeléveis laços a uma jovem camponesa dos Dembos?…

Entre as riquezas que pude então recolher, que a muitos poderá surpreender, ao ouvir os mais velhos de então, constavam histórias que se foram entrecruzando, pois marcavam o século XX até então naquela região: desde a saga das resistências dos Dembos aos choques de 1961…

A minha companheira contou-me mesmo, ela própria, algumas dessas histórias que os pais transmitiam oralmente e com toda a circunspecção aos filhos, por que tinham a noção exacta de que sua divulgação poderia desencadear por si o mesmo tipo de opressão já antes experimentada…

Desfilaram aldeias bombardeadas (Gombe ya Muquiama), aldeias desaparecidas (uma aldeia entre Pango Aluquém e Cazuangongo), exemplos de vidas que se esvaíram, famílias inteiras que haviam desaparecido na voragem da guerra… as fronteiras entre o que era a possibilidade de vida e a morte prematura que se impunha aos oprimidos, aos pobres, aos angolanos sujeitos à qualificação do indigenato, àqueles cujo único crime era enfim a sede de liberdade que lhes era negada pela força das armas, aqueles a que eram negados os mais elementares direitos humanos…

Em Agosto de 1973, na modesta casita de pau-a-pique rebocada a cimento e com chão cimentado que havia erigido na Benza, nasceria nossa primeira filha que levaria também por minha opção o nome da mãe, Teresa e de minha mãe, Maria…

Era um ser frágil, muito sujeito desde logo à precariedade de nossa vida e fui surpreendido pela decisão de meus pais, pois eles decidiram ir buscá-la numa viagem épica que encetaram do Lobito até Pango Aluquém, num carrito que estava dimensionado a um Lobito – Benguela e pouco mais que isso…

A Teresinha partiu com eles que tiveram a hombridade de não me censurar face à situação: no fundo acho que reconheciam a legitimidade das opções que se me deparavam e compreendiam os meus anseios, as minhas espectativas e as minhas esperanças na flor da vida…
  
2 – Quando foi possível ingressar nas FAPLA, num memorável encontro que o Comandante N’Zagi pessoalmente me propiciou, a Teresa Cassule já estava comigo em Luanda, onde vivíamos numa casinha de madeira alugada ali no Lelo (Ilha do Cabo), junto ao Largo da Peixeira (hoje desaparecido)…

Depois foi um desfiar contínuo de missões em 1974 e 1975, até chegar ao dia em que, ainda sob a bandeira portuguesa, na base secreta da ilha Cabeleira (Kamuxiba), próximo do Estado-Maior das FAPLA então instalado no morro da Luz, teve a minha unidade a missão de proteger os Comandantes das Forças Armadas Revolucionárias de Cuba, que haviam chegado clandestinamente no âmbito da “Operação Carlota”…

A unidade estava espalhada num pequeno conjunto de casas que pertenciam à patriótica família Tavira, disfarçado pela comunidade envolvente e dela faziam parte outros angolanos, entre eles os camaradas Luís Rosa Lopes, Manuel da Ressurreição, “Pancho” (recentemente falecido), o internacionalista português “Alex” (de seu verdadeiro nome Eduardo Cruzeiro)…

Ali pude assistir ao desdobrar dos mapas por parte dos Comandantes cubanos, entre eles Dias Arguelles e às suas discussões que levavam pouco a pouco a começaram a estabelecer os planos para as frentes sul e norte de Luanda… foi assim que pela primeira vez me foi explicado o significado da “Operação Carlota”, em honra da temerária escrava rebelde de Matanzas, assim como foi talvez a primeira vez que foi estabelecido o conceito que viria a criar o funil de Kifangondo, integrado no plano preparatório para a defesa de Luanda, a norte…

A minha companheira esteve comigo ainda algum tempo nessa base, mas grávida de meu segundo filho, foi decidido entre nós que ela fosse ao Pango Aluquém a fim de melhor ser assistida pela sua família…

As batalhas sucediam-se em Luanda, na barra do Dande, no morro da Cal, nas estradas do litoral norte e sul e parte da unidade acabou por ser destacada às pressas para os Dembos, pois havia a hipótese das forças conjuntas do inimigo poderem romper na via Pango Aluquém – Cazuangongo – ponte do Zenza e vir a surgir em Maria Teresa, na estrada de Catete…

A aba leste do funil de Kifangondo foi assim reforçada, porquanto a aba oeste era o mar.

No momento em que cheguei a Pango Aluquém num camião Hino de grande caixa aberta que levava dezenas de combatentes, fui a correr até à Benza onde encontrei a Teresa Cassule com a irmã Conceição Cassule, cada uma com sua trouxa à cabeça, grávidas e com dois meus sobrinhos: um o Ribeiro (já falecido) pela mão e a Carlota, que era ainda bébé, às costas da mãe… iam para as lavras pois corria o boato que “a FNLA vem aí” e por isso tinham de se refugiar e proteger!

Mandei-as ir para casa: “nós chegámos, vão haver combates e eles não vão conseguir avançar” disse com toda a convicção que me ia na alma, até por que tinha todas as razões de vida para assim creditar…

Reforçaram as unidades os dispositivos que estavam às ordens do Comandante César Augusto Kiluanji (hoje digno Embaixador de Angola em Cuba), que comandava a frente, mas mesmo assim acabou-se por perder a Mobil e Kibaxi…

Às pressas formou a unidade um pequeno CIR na Fazenda SAGRI, enquanto se reforçava Cacamba (do lado do Úcua) e Kikeza (do lado de Kibaxi)…

O Manuel Ressurreição “Pancho” dispararia um “muanacaxito” desde os altos de Cacamba, contribuindo para que as linhas não fossem mais rompidas a oeste de Pango Aluquém e eu com outros mais camaradas (Luis Rosa Lopes, “Saber Andar”, falecido, “Diabo Branco”, Carlos Freitas, falecido e outros) reforçámos os Comandantes Vida e Wachile em Kikeza, onde tínhamos um canhão de 76mm de quem estava encarregue o camarada Xavier (hoje General reformado de Artilharia)…a norte de Pango Aluquém a FNLA tinha também os dias contados…

No dia 11 de Novembro de 1975 já havíamos reconquistado Kibaxi com a chegada do Comandante Margoso e de mais reforços das FAPLA e a minha unidade ficou instalada na Missão, a partir da qual íamos fazendo patrulhas envolventes, inclusive uma patrulha que chegou à ponte do Dange na estrada do café, que o inimigo havia destruído com explosivos…

Entre aqueles que fizeram parte da logística de tropas das FAPLA e cumpriram várias missões arriscadas de ligação, esteve Alfredo de Jesus, “Manguchi”, de quem sou familiar e amigo de coração, um camarada que sempre apoiou as FAPLA e o MPLA no Bengo, de forma digna, decidida e honrada…
  
3 – A 20 de Novembro de 1975 nasceria o meu segundo filho com a minha companheira Teresa Cassule…

Ainda na área de Kibaxi, não pude estar presente, mas quando a notícia chegou tive a noção de quanto foi vital toda aquela epopeia…

Meu filho receberia o nome do meu pai, João e o meu, Manuel, tal qual havíamos procedido com a Teresinha…

Na altura não havia combatentes das FAR cubanas nos Dembos mas foi deste modo a minha participação no início da “Operação Carlota”, que sairia vitoriosa em Cabinda, em Kifangondo e no Ebo.

Se por acaso o inimigo tivesse tomado Luanda, tinha já a missão de ficar nos Dembos a fim de integrar a guerrilha que se formaria de imediato…
  
4 – Enquanto o desfile na Praça do Mausoléu prosseguia, foi esse o desfile que passava por dentro dos meus olhos, numa onda húmida e enternecida…

Todo o simbolismo saturado de vida me estremeceu: as convicções, as emoções, a saudade imensa, eu feito um humilde homem total, na pele dum ignoto combatente, face a face à história e à humanidade…

A Teresa Cassule minha companheira dessas eras decisivas viria a sucumbir em meados do último ano do século XX: tinha um coração frágil que não aguentou com as injustiças da vida que entretanto nos atingiam em cheio…

Aconteceram muitas coisas que não escolhi que acontecessem… mas a memória da escrava Carlota impunha-se-me sempre, por que a partir dela havia um caminho que se abria e eu integrava a torrente humana que engrossava cada vez mais esse caminho e ia alcançando com coragem cada conquista, uma a uma, com sacrifício, sangue, suor, lágrimas, mas com um horizonte radioso que seria impossível perder!

Com todos os defeitos humanos, com algumas virtudes, mas sempre sedento de amor e de vida, como nos meus verdes anos nos Dembos, quando despertei para o desfile dos 40 anos da“dipanda”… foi assim que consegui ver a liberdade em Angola, bem por dentro de mim! 

- Foto da minha companheira das horas decisivas, Teresa Cassule

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