quinta-feira, 1 de novembro de 2018

EM ANGOLA HÁ 20 ANOS – I


Martinho Júnior, Luanda 

1- O choque neoliberal protagonizado por Savimbi entre 1992 e 2002, foi como tal e no princípio factualmente difícil de perceber, até por que entre os meandros sócio-políticos internos e internacionais, ele soube ir doseando a geometria variável dos enredos, jogando tanto quanto o possível com a clandestinidade numa altura em que meio mundo estava“desnorteado” com as profundas alterações, quando a hegemonia unipolar foi imposta pelo exercício de domínio numa base de capitalismo financeiro transnacional e tirando partido da Nova Revolução Tecnológica.

Mesmo assim os fundamentos ideológicos das práticas subversivas de Savimbi duma forma geral foram mantidas e isso facilitou a percepção imediata das suas intenções.

Cercar as cidades a partir do campo e depois de tomar as cidades provinciais montar o assédio à capital, confirma o que ele aprendeu da teoria de Mao em Nanquim em resultado do que a cisão maoista provocou antes no campo socialista, aproximando-se dos Estados Unidos conforme aconteceu no tempo da Administração de Gérald Ford em meados da década de 70 do século XX…


2- Em meados de 1998 foi essa a primeira apreciação feita, na altura em que num contentor de suporte ao então Estado Maior Geral das FAA, pouca informação verificada e confirmada havia, mas havia no ar o odor a enxofre da ameaça que pendia sobre Luanda, de onde aliás saíam muitos dos suportes logísticos para Savimbi levar a cabo a “guerra dos diamantes de sangue” que iria dividir desde logo os processos económicos no país.

Com a aplicação dos conceitos de Mao, agarrando-se à exploração desenfreada de diamantes e beneficiando da fragilização do aparelho de estado angolano e de seus instrumentos de poder, Savimbi interpretava e procurava garantir que o interior iria assaltar o litoral (com poder sobre a riqueza dos diamantes, assaltar as áreas do petróleo) e com isso que “os autóctones” desse interior atirassem ao mar, ou ao inferno, “os crioulos” do litoral!...

Continuava sem dúvida bem presente a cartilha subversiva de dividir para melhor reinar e justificações para tal nunca faltaram, chegando a confundir ainda hoje muitos incautos: se há mal, não poderá ser com um mal ainda maior que se pode alguma vez encontrar soluções justas, muito menos no que à sociedade diz respeito!…

Também com essa geoestratégia não era inovador: não só os clãs em torno de Mobutu garantiam rectaguarda e experiência comportamental, logística e afã nos interesses comuns, como até um filósofo togolês, (o Togo foi na altura uma das suas dilectas plataformas externas), a partir dum centro de inteligência como a Sorbonne de Paris, lhe ajudava na configuração da superestrutura ideológica e nas justificações sócio-políticas, tudo isso à mercê dos enredos do cartel dos diamantes, embarcado numa experiência que não quis, nem soube evitar, tal a força de Maurice Tempelsman enquanto poderoso homem-de-mão do próprio cartel e da CIA em África e particularmente na “praça-forte” de Kinshasa!

3- Os impactos neoliberais utilizando o choque contra Angola, assimilaram com todo o sentido de oportunidade o protagonismo de Savimbi, que teve tempo nessa esteira de, uma vez que o “apartheid” perdia o domínio do Sudoeste Africano, Namíbia, mudar de rectaguarda e de santuários de suporte para a sua acção, substituindo a Jamba pelo cordão de iniciativas ao longo do Cuango, do Cassai e do Cuanza e instalando a sua “capital provisória” no Andulo!

Toda a parte norte e leste da província do Bié assistiu à disseminação das principais estruturas administrativas e outras de sua organização, “coroando” os tentáculos espalhados pelo país e sobretudo nos vales do Cuango, do Cassai e do Cuanza, pelo que a resistência governamental na cidade do Cuito se tornou determinante contra os seus propósitos.

Foi também no norte da província do Bié onde instalou a sua Zona Estratégica (entre as povoações de Chimbamba e Dando, em ambas as margens do Cuanza), onde até uma improvisada pista de aterragem de terra batida construiu em Chimbamba; essa pista permitia a aterragem de quadrimotores e vista do ar mais parecia um pelado de futebol; a povoação estava encoberta pelo arvoredo e era muito pouco visível do ar.

Um hospital militar de campanha ficava situado a sul das aldeias de Samicossa e Pomba, a sudeste da Lúbia; a primeira fica a 9,41 km e a segunda a 11,4 km da Lúbia, pelo que se pressupõe que as estruturas estão dispersas por uma área mínima de 4 km2.

Depois havia locais escolhidos para centros de comunicações, paióis, bunkers, instalação de todo o tipo de unidades militares em fase de se tornarem autênticas unidades regulares…


4- Mesmo assim com esse esforço todo, pouco a pouco na UNITA muitos se foram distanciando de Savimbi, uma parte deles colaborando mesmo no sentido de acabar com uma saga que dilacerava de forma tão cruenta o tecido social angolano.

Alguns nomes de políticos e generais são conhecidos, mas houve muitos mais que nesse distanciamento, contribuíram para se acabar com a guerra, particularmente provenientes das áreas rurais mais afectadas pela permanência do próprio Savimbi, em particular depois de sua derrota no Andulo…quase todos eles eram de origem camponesa, deserdados da sorte, da fortuna e sobrevivendo precariamente nas mais difíceis condições de guerra…

A esta distância de 20 anos, a minha sincera e justa homenagem a todos eles que pessoalmente desconheci, pois na ordem de batalha ficou determinado que só o camarada “Revolução” detivesse a capacidade de enlace com esses meios humanos, patriotas e anónimos heróis…

… Assim como com sua força instalada em torno dos diamantes, alguns provenientes das áreas controladas pelo governo ajudaram Savimbi no seu esforço de guerra em função duma logística que era afectada por esses interesses!

A dicotomia social propiciada pela “guerra dos diamantes de sangue” era por demais evidente e contribuiria para influenciar mais tarde na fermentação dos circuitos de corrupção em Angola, sob o ónus do estado angolano!

Na UNITA contudo, o prolongamento de condições traumáticas, das provações de toda a ordem e dos desequilíbrios sócio-políticos, fizeram aumentar deserções e a passagem de muitos para o campo governamental foi um caudal em crescendo, atraídos também pelas necessidades de paz que lhes eram estendidas, assim como as oportunidades que passaram a ter…

No contentor de suporte ao Estado Maior-Geral, as tarefas foram divididas:

Em relação ao camarada José Herculano Pires, foi atribuída a missão de missões de contrainteligência e reconhecimento particularmente no Bié, mobilizando meios humanos entre os que se afastavam de Savimbi nas regiões mais afectadas pela sua directa saga…

O manancial de informações operativas, oportunas e pertinentes que o camarada “Revolução” compilava, serviu de suporte ao heróico camarada General Simeone Mukuni, que a partir da cidade do Cuito teve um papel decisivo em toda a região até á sua morte.

Optou-se por fazer passar antes de mais essas informações pelo nosso malogrado camarada General e só depois fazê-las chegar ao crivo da análise em Luanda!

Em relação ao camarada Alberto José Barros Antunes Baptista, “Kipaka”, ele reforçou a pesquisa de informação, melhorou a utilização das técnicas de informática e de pesquisa na Internet e reatou muito oportunos contactos externos do foral da inteligência…

Em relação a mim foi decidido não mais fazer operações, nem militares nem de contra inteligência, dentro de território angolano e eu explico: a todo o custo se procurou evitar que houvesse mais alguma interpretação tendenciosa ou qualquer tipo de mal-entendido que me levasse à condição a que já antes me havia sujeitado com a minha prisão leviana, injusta e inglória de Março de 1986, que aliás havia dolorosamente afectado, sem remissão, toda a minha desamparada família próxima…

Desse modo fiquei incumbido de me dedicar apenas à informação, análise, aos contactos oficiosos e, se fizesse alguma missão, seria apenas no exterior…

Em todos os casos a cultura dum comportamento cívico, ético e moral responsável e rigoroso foi muito importante e mobilizador para esse pequeno núcleo duro: em nenhum caso, em nenhuma altura, nos deixámos envolver por qualquer tipo de apelativo de ordem financeira, material, ou outra, fixando-nos com toda a vontade nas missões que haveríamos de cumprir!

Os meus honorários foram garantidos por quem me dera trabalho civil, que também possibilitou a disponibilidade do contentor e meios de reprodução, suportando custos de consumíveis e outros relativos ao bom funcionamenro, pelo que do estado angolano nada foi recebido nem durante, nem depois, salvo o que foi exclusivamente empregue em algumas missões, dentro e fora do território angolano!... “Custo 0”!...

Jamais nos deixámos envolver pelos vírus que estavam a ser injectados a Angola, os vírus que abriram caminho a tudo o que se seguiu de 2002 a 2017, nos quinze anos de terapia neoliberal em que se assistiu ao vendaval da corrupção dilacerando a sociedade angolana e sabíamos que, ao detectar as minas de diamantes ao serviço da sangrenta saga de Savimbi muitos, quando a paz finalmente chegasse, iriam ser atraídos a esse “métier”!

Martinho Júnior - Luanda, 1 de Novembro de 2018.

Fotos:
1, 2 e 5 – A administração de Ronald Reagan, mentora do neoliberalismo que socorre ainda hoje o capitalismo financeiro transnacional, recebeu em 1986 Savimbi, entregou-lhe “stingers” e inscreveu-o entre os “freedom fighters” de sua própria Doutrina, que estavam disseminados pelo Afeganistão, Nicarágua e Angola; naturalmente que nessa altura Bin Laden era um “freedom fighter”, tal como Savimbi; A Doutrina Reagan foi a base de integração de Savimbi no choque neoliberal, ainda que Mobutu começasse a ficar “fora do baralho” e por isso Ronald Reagan foi idolatrado na Jamba;

3 – Maurice Tempelsman foi um “homem de mão” incontornável quer para a CIA, quer para o “lobby” dos minerais (Tempelsman é um tradicional financiador dos Democratas nos Estados Unidos), quer para o cartel dos diamantes e por isso foi importante, para o domínio do império, na transição do choque para a terapia neoliberal, desde antes de toda a região ser sacudida pela “guerra dos diamantes de sangue”;

4 – A cidade mártir do Cuito foi um bastião inexpugnável à custa duma destruição quase total;

A lembrar:



UNITA - Uma nova estratégia de desestabilização do País – I

FONTES             : “COMUNICADO DA COMISSÃO POLÍTICA”                                    – 07 JUL 98 .
                               “JEUNE AFRIQUE” – 10 JUL 98 .
                               “DIÁRIO DE NOTÍCIAS” – 10 JUL 98 .
                               “JORNAL DE NOTÍCIAS” – 10 JUL 98 .
                               “WASHINGTON POST” – 10 JUL 98 .
                               “ELECTRONIC MAIL & GUARDIAN” – 10                                                     JUL 98 .

16 JUL 98 .

1) Tudo nos leva a crer que a UNITA está a levar a cabo um programa de vários anos com vista a desestabilizar a vida do País, tendo como objectivo final a conquista do poder pela força.

Este programa teve início com as próprias Conversações que viabilizaram o Acordo de LUSAKA e, com a aplicação desse Acordo, até ao desaparecimento físico de BLONDIN BEYE – 1 ª fase.

A sua sequência, 2ª fase, está neste momento em curso.

2) Durante a 1ª fase, a UNITA praticou uma política de aparente submissão aos Acordos de LUSAKA, muito embora fosse jogando com o tempo de forma a retardar o cumprimento dos seus compromissos; com isso, paciente e laboriosamente, foi refazendo o seu sistema de auto financiamento, de compra de armamento, de recuperação das suas Unidades Militares (“fintando” os próprios organismos de controlo das diversas missões da ONU em ANGOLA), da montagem do aparelho clandestino em várias partes do MUNDO e no interior (principalmente em direcção a LUANDA), nunca pondo de lado as ideologias que se serviu enquanto Organização Armada e tirando partido de apoios importantes, inclusive na EUROPA.

Paralelamente soube tirar partido das mudanças que houve na conjuntura Internacional após a GUERRA FRIA, de forma a adquirir uma nova geração de armamentos (de que existem algumas notícias) principalmente aos Países do LESTE (com a UCRÂNIA em aparente evidência), que soube introduzir no interior do País montando autênticas operações de longo curso com aeronaves que foram chegando às várias pistas sob seu controlo no NORTE, CENTRO e LESTE do País desde meados de 1997 até MAR 98, enquanto treinava os seus homens no domínio das técnicas para sua utilização.

3) O facto de BLONDIN BEYE reagir abertamente contra as suas pretensões, ao apontar-lhe o dedo sobre as responsabilidades do descarrilamento eminente do Processo de Paz, implementando novas sanções pela via do CONSELHO DE SEGURANÇA da ONU, determinou muito naturalmente o começo da 2ª fase do Plano, que se iniciou com a operação da sua morte, com a conivência do TOGO e de alguns apoios a partir de FRANÇA (jogando até com o facto do Presidente Francês vir a ANGOLA praticamente na mesma data), precipitando todos os acontecimentos que se lhe estão a seguir.

Efectivamente, muito embora não haja ainda resultados técnicos conclusivos sobre a queda da aeronave onde viajava BLONDIN BEYE, o que começou a desencadear-se logo a seguir são sintomas evidentes que a sua morte foi o sinal do virar da página, duma fase para outra, em que os métodos políticos passaram de novo para um segundo plano e se começou a enfatizar os processos operativos clandestinos de acção, nas cidades e nas áreas rurais, com o emprego de forças consideráveis, bem treinadas (em alguns casos reforçadas por Zairenses e Ruandeses), assim como se fizeram reaparecer em número calculado em cerca de 70.000 as suas forças, mantidas “em letargia” durante os quatro últimos anos.

Paralelamente começaram a chegar-nos informações melhor fundamentadas sobre o que antes transportavam as aeronaves que se dirigiam clandestinamente para ANGOLA (algumas das quais tocaram no Aeroporto do SAL, em CABO VERDE): de entre as técnicas adquiridas há notícias que a UNITA comprou mísseis solo – solo no exterior, principalmente à UCRÂNIA e RÚSSIA, entre eles “SCUD”, “SS 20” e “PERSHING II”.

Há também notícias que a UNITA formou operadores desses mísseis no IRAQUE (cerca de 200 homens), assim como pilotos de aeronaves (que ainda não estão identificadas), na TUNÍSIA, bem como comandos e grupos de sabotagens em vários Países (incluindo MARROCOS e muito provavelmente o TOGO), num número considerável, 1.500 dos quais se deslocaram já para as periferias de LUANDA, onde se encontram disseminados. 

Desta vez a UNITA aparentemente prepara-se para desencadear acções num escalão sem precedentes, essencialmente contra a cidade Capital, envolvendo meios próprios, mas que podem estar ligados e / ou sincronizados com uma “quinta coluna interna” .

4) Apesar de serem importantes as acções da UNITA no LESTE do País (de forma a garantir o manancial principal da pesquisa de diamantes, bem como os canais clandestinos de ligação à RDC e ZÂMBIA) e no CENTRO (onde aparentemente está a reforçar as medidas à volta do BAILUNDO – ANDULO que não pretende entregar ao Governo no âmbito dos Acordos), parece-nos que as acções no NORTE são contudo as que estão na direcção principal, havendo a expectativa que outras acções importantes sejam dirigidas contra a estrada SUMBE – CABO LÊDO, a SUL da Capital, (de forma a criar a sensação de “asfixia” sobre LUANDA, pelo menos no quadro da actual fase).

As acções sobre os DEMBOS (triângulo BULA ATUMBA – QUIBAXE – PANGO ALÚQUEM) parecem-nos que foram preparadas com maior cuidado e a prazos mais dilatados, se levarmos em conta que:

Foi nessa área que o aparelho (possível) de INFORMAÇÃO Governamental tem sofrido aparentemente alguns dos maiores reveses de há quatro anos a esta parte.

Foi nessa área que se utilizou uma política forte de redução de influência de gente não identificada com a UNITA (uma operação com indícios de depuração étnica).

É nessa área que muito recentemente se está a fazer a maior concentração de efectivos militares surgidos da“letargia” daquela Organização Armada, estimados em vários milhares.

Em conclusão, a UNITA criou condições para, em posições que estão de 100 a 200 km em linha recta da Capital, ter a maior preponderância informativa e táctico operativas na área e na direcção de LUANDA (com ligação aos dispositivos que se encontram nela); há notícias que os mísseis solo – solo, teriam sido desembarcados no NEGAGE e foram, ou estariam a ser montados em “mesas”, nas montanhas dos DEMBOS, sendo essa uma das razões da enorme concentração dos efectivos naqueles três Municípios, tirando partido das condições naturais (difícil acesso, muita camuflagem e relevo adaptado às manobras de defesa activa e clandestinidade, bem como as melhores condições técnicas de lançamento dos mísseis).

5) O esforço do RECONHECIMENTO EM PROFUNDIDADE e de INFILTRAÇÃO CLANDESTINA nessa área, parece-nos muito importante, apesar das dificuldades, tendo em conta o enorme fluxo de população que, estando a fugir à ocupação da UNITA, pode estar a servir de “camuflagem” a muitos mais operadores clandestinos que estejam a ser lançados em LUANDA.

O maior aprofundamento de dados sobre essa concentração, tendo em conta elementos que pertencendo à UNITA estejam em processo de aparente afastamento, apesar dos riscos de desinformação, ou contra informação, parece-nos de prioritária importância.

16-07-1998 22:00.

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