segunda-feira, 11 de março de 2019

ESTADO DO MUNDO


  
1- Se me perguntarem hoje pelo estado do mundo em pleno século XXI da globalização e da revolução das novas tecnologias, tenho desde logo uma proposta a fazer: comecemos então a avaliação pelo Haiti e pelos componentes do CARICOM.

Justifico-o pelas mais diversas razões, todas elas de natureza singularmente caótica:

Por que as assimetrias globais redundam de acumulações de terríveis injustiças que se foram acumulando desde o passado histórico e antropológico, particularmente desde o século XV e XVI;

Por que até as “potências médias” foram tendo o papel de subservientes para com os “fortes” e arrogantes para com os“fracos”, servindo às mil maravilhas como “correias de transmissão” para os processos antropológicos reflectores do degrau em degrau da “ascensão elitista do domínio” sobre todos os outros;


Por que em nome da civilização, a barbárie continua, século após século, antropocêntrica, egoísta, exclusivista e incapaz de equacionar planeta e humanidade como uma só responsabilidade equânime e comum;

Por que a leitura dos processos de domínio evidencia que hoje se coloca o sul na mesma posição de submissão colonial dos séculos anteriores, esvaziada apenas dos encargos de mando e administração dos territórios que só davam prejuízo, servindo-se sem contemplações, mas recorrendo à profusão de meios e de novas tecnologias, dos mais diversos expedientes de enriquecimento possíveis por via da assimilação e da formatação para a prossecução do seu poder hegemónico e retrógrado, alienando a esmagadora maioria da humanidade da situação de submissão a que continua a ser condenada.

Haverá apego à lógica com sentido de vida mais transparente e evidente que nos pequenos estados insulares das Caraíbas, em especial no Haiti?

Não é sobre eles que recaem parte dos ónus das imensas dívidas acumuladas pelos poderosos para com o resto da humanidade?


2- O espelho histórico e antropológico que é visível nos ambientes humanos sujeitos à insularidade do Caribe, é prova insofismável que em relação ao sul, o norte “civilizado” jamais encontrou capacidades correspondentes às obrigações de respeito para com a humanidade e para com o planeta, antes gerou linhas divisórias de “apartheid” e persistente alienação e formatação, chegando ao extremo de, sem vergonha, ali onde não havia separação por via do mar, se assumirem inequivocamente como construtores inveterados de barreiras, de obstáculos e de muros, numa dimensão jamais antes experimentada, nem nos tempos da muralha da China.

A barreira de Trump, que está a ser construída do leste na costa do Atlântico, ao oeste na costa do Pacífico, ao longo de toda a fronteira dos Estados Unidos com o México prolongando a barreira física e geográfica do mar do Caribe, isola a sul o espaço físico dos processos dominantes que se autoproclamaram de hegemónicos e permitem que físico-geograficamente todo o sul votado à ultraperiferia própria dum qualquer “pátio traseiro”, em especial as pequenas nações insulares daquela imensa região, seja alvo preferencial de todo o tipo de intervenções, ingerências, assimilações, alienações e formatações.

É nessa tão contraditoriamente tumultuosa bacia do Caribe, que para além da separação que as águas permitem, a linha divisória entre o norte e o sul se tornou mais que evidente e onde as pequenas nações insulares, que sobretudo mais não são que depósitos de descendentes de escravos trazidos à força desde o continente africano, estão à mercê enquanto ultraperiferia secularmente submetida, dos processos dominantes impostos sobre quem não tem escolha nem saída para as mais básicas e legítimas aspirações de liberdade, para além da constante luta pela sobrevivência em condições tão sacrificadas, penosas, adversas e indignas.

As pequenas nações insulares membros do CARICOM, mais que as pequenas repúblicas que compõem a cintura adelgaçada da América Central (as “repúblicas bananas”), são acantonamentos e antros de pobreza, por que quem domina impede qualquer veleidade de encontrar plataformas e meios para se quebrarem as barreiras físicas e humanas que as separa da dignidade civilizacional que em pleno século XXI deveria prevalecer por todo o globo e o Haiti, a parte ocidental da única ilha das Caraíbas dividida em dois estados, é disso evidência maior!...

É o sul que de há séculos está sempre em dívida com o norte e jamais houve dívida alguma do norte para com o sul, reduzido a fornecedor de matérias-primas cujos preços só o norte estipula ou estimula em suas próprias moedas e a fornecedor de excedentes de mão-de-obra barata angariada no plasma da sobrevivência de suas depauperadas e caóticas sociedades.

…Por isso, se me perguntarem pelo estado do mundo, respondo com toda a sensibilidade que processo de assimilação algum conseguiu confundir, iludir, formatar ou alienar, com toda a humilde responsabilidade e respeito que cabe a cada cidadão do mundo globalizado face a uma humanidade de mais de 1.000 milhões de seres, (mas tão assimétrica ao ponto de se disseminarem impunemente tsunamis de “apartheid”), propondo o desafio da radiografa antropológica e histórica do Haiti, desde que Colombo chegou à Hispañiola!


3- A sobrevivência no Haiti, de há mais de três décadas a esta parte, não tem sido só sacudida pelos mais terríveis terramotos (como o de 12 de Janeiro de 2010) que se possam imaginar, mas também pelos mais telúricos processos sociopolíticos, ainda que os homens ávidos de civilização estejam praticamente nus e impotentes face à avalanche plasmada de barbárie que escorrega desde o norte hegemónico e insensível que está tão próximo e tem sido tão oportuna quão poderosamente intervencionista!...

Num texto sob o título “El levantamiento popular en Haití es consecuencia de la agresión imperialista contra Venezuela”,um corajoso e esclarecido autor, Kim Ives, dá conta dos acontecimentos recentes no Haiti, das opções em aberto no ambiente sociopolítico do país e de suas raízes distendidas desde finais do século XVIII até aos nossos dias.

O Haiti está equidistante físico-geograficamente de Miami e de Caracas e se suas elites pendem para as vassalagens estimuladas por Washington, sintomaticamente a partir de Miami, aqueles que na massa de 80% de pobres (abaixo da“linha da pobreza”) ganharam consciência crítica da situação de contínua submissão do país, estão sem dúvida muito mais próximos de Havana, de Santiago de Cuba e de Caracas, por que a iniciativa da missão PETROCARIBE foi nesse sentido determinante para a identidade das opções!

Kim Ives detalha:

“Entre 1990 y 2006 Washington castigó al pueblo haitiano con dos golpes de Estado (1991, 2004) y dos ocupaciones militares extranjeras -gestionadas por la ONU- por haber elegido a Aristide dos veces (en 1990 y 2000).

En 2006 el pueblo haitiano había logrado alcanzar una especie de empate, al elegir como presidente a René Préval (un aliado de Aristide en sus inicios).

En su primer día en el cargo, el 14 de mayo de 2006, Préval firmó el acuerdo de Petrocaribe, lo que molestó mucho a Washington.

Después de dos años de lucha, Préval finalmente logró acceder al petróleo y al crédito venezolano, pero Washington hizo lo necesario para castigarlo también.

Después del terremoto del 12 de enero de 2010, el Pentágono, el Departamento de Estado y Bill Clinton, junto con algunos subalternos de la élite haitiana, prácticamente tomaron el control del gobierno haitiano, y durante el proceso electoral que tuvo lugar entre noviembre de 2010 y marzo de 2011, destituyeron al candidato presidencial de Préval, Jude Célestin, y presentaron al suyo, Michel Martelly.

Entre 2011 y 2016, el grupo Martelly siguió desviando, despilfarrando y perdiendo la mayor parte del capital, conocida como el Fondo del Petróleo, que había mantenido a Haití a flote desde su creación en 2008.

Martelly también utilizó el dinero para ayudar a su protegido, Jovenel Moise, a hacerse con el poder el 7 de febrero de 2017.

Desafortunadamente para Moise (que llegó al poder justo después de Trump), pronto se convertiría en uno de los daños colaterales de la escalada de la guerra de Washington contra Venezuela.

Trump intensificó inmediatamente las hostilidades contra la República Bolivariana, imponiendo severas sanciones económicas contra el gobierno de Nicolás Maduro.

Haití ya estaba atrasado en sus pagos a Venezuela, pero las sanciones de Estados Unidos hicieron imposible (o les dieron una excusa de oro para no hacerlo) cumplir con sus facturas de petróleo en Petrocaribe, y el acuerdo de Petrocaribe con Haití realmente terminó en octubre de 2017.

La vida en Haití, que ya era extremadamente difícil, se volvió insostenible.

Ahora que se cerró el grifo del crudo venezolano, el Fondo Monetario Internacional (FMI) -agente del trabajo sucio de Washington- le dijo a Jovenel que tenía que subir el precio del gas, lo que intentó hacer el 6 de julio de 2018.

El resultado fue una explosión popular que duró 3 días y anunció la revuelta de hoy”…


4- Precisamente na mesma altura que a administração de Donald Trump leva a cabo a intensificação da pressão subversiva e desestabilizadora sobre a legitimidade bolivariana na Venezuela, pondo em causa os caminhos de aprofundamento da democracia, explode no Haiti a revolta popular contra o corrupto governo avassalado do presidente Jovenel Moise, um dos que reconheceu Guaidó como presidente da Venezuela às ordens de Trump!

Kim Ives relata-nos assim os últimos episódios:

…“Más o menos al mismo tiempo, un movimiento de masas comenzó a plantear la pregunta de qué había pasado con los 4.000 millones de dólares en ingresos petroleros venezolanos que Haití había recibido en la década anterior.

Una multitud cada vez mayor de manifestantes preguntó: Dónde está el dinero de PetroCaribe?

El Fondo PetroCaribe debía financiar hospitales, escuelas, carreteras y otros proyectos sociales, pero la población no ha visto casi nada.

Dos investigaciones del Senado en 2017 confirmaron que la mayoría de los fondos habían sido despilfarrados.

La gota que colmó el vaso fue la traición de Jovenel Moise contra los venezolanos cuando su solidaridad había sido ejemplar.

El 10 de enero de 2019, durante una votación de la Organización de los Estados Americanos (OEA), Haití votó a favor de una moción apoyada por Washington para declarar a Nicolás Maduro ilegítimo, a pesar de haber obtenido más de dos tercios de los votos en las elecciones de mayo de 2018.

Los haitianos ya estaban furiosos por la corrupción generalizada, hambrientos a causa del aumento de la inflación y el desempleo, y frustrados por años de falsas promesas, violencia y humillación militar extranjera. Pero esta traición espectacularmente cínica de Jovenel y sus amigos, que intentaban obtener la ayuda de Washington para salvarlos de una situación que los ponía cada vez más en peligro, fue la gota que colmó el vaso.

Sorprendido y aturdido por la falta de perspectivas (y sus propias disputas internas), Washington está ahora horrorizado por el previsible colapso del pútrido edificio político y económico que ha construido en Haití en los últimos 28 años, desde el primer Golpe de Estado contra Aristide en 1991 hasta el último golpe electoral que llevó a Jovenel al poder en 2017”...


5- O estado do mundo reverte de facto para um abismo e no Haiti está-se presente a mais um telúrico processo humano face ao monstro da globalização neoliberal e revertente das injustiças e das desigualdades secularmente instaladas e estimuladas, que pode uma vez mais conduzir a um banho de sangue no gueto que constitui a parte ocidental da Hispañiola!

Para o Haiti tem havido um castigo constante desde a independência de bandeira, quando a revolução no seu apogeu conquistava o direito dos escravos à liberdade e à autodeterminação: a sujeição a que o país tem sido submetido, ainda que a consciência crítica tenha sido alimentada sempre pela terrível e contraditória situação de pobreza e devassidão própria da opressão poderosa do norte que está tão próximo e deita mão de todo o tipo de intervenções, ingerências e manipulações!

Se Gaza é um gueto provocado pelos falcões de Israel no Médio Oriente Alargado, o Haiti é um dilecto gueto para os falcões da hegemonia globalizante que se dispõem a continuar imediatamente a sul, desde Washington e Miami, no seu“pátio traseiro”, a Doutrina Monroe, a fim de injectar suas diletas políticas neoliberais!

A “democracia representativa”, segundo os obstinados padrões de Washington, que em época de potencialidades propiciadas pela revolução tecnológica procura em retrógrada exclusividade favorecer apenas as oligarquias e elites afins aos processos de domínio capitalista neoliberal em proveito de sua tentacular hegemonia, está a entrar em irreversível colapso desde logo na ultraperiferia económica e financeira imediatamente a sul, pelas razões humanas mais sensíveis, que tocam antropológica e historicamente, nas raízes em que se assumiu o próprio Haiti ao rebentar com as grilhetas da escravatura colonial!

A sul, perante uma globalização hegemónica que se reserva a uma exclusividade de tal ordem que manipulando a democracia oprime os povos, a neocolonização obriga até por razões que se prendem afinal à própria sobrevivência, a um novo rebentar de grilhetas!...

É precisamente esse o significado mais profundo da situação que está disjuntivamente também na ordem do dia na Venezuela: ou prevalece uma dócil mas poderosa oligarquia avassalada que só serve para o saque que a partir do norte é imposto, como um pérfido tentáculo sociopolítico, ou a sensibilidade bolivariana em busca de diálogo, de consenso, de legitimidade democrática participativa e protagonista, de socialismo, de soberana identidade popular e dum desenvolvimento que traga mais felicidade e coerência distributiva para com os povos, vai, ainda que pouco a pouco, conseguir prevalecer!

Martinho Júnior - Luanda, 6 de Março de 2019

Imagens referentes ao Haiti:
- Ruínas do Palácio Presidencial, símbolo do poder nacional, após o último terramoto que atingiu a capital Port-au-Prince;
- “Reconstrução” quadro dum pintor haitiano que expõe na tela a continuada aspiração de liberdade dos descendentes dos escravos na Hispañiola;
- Cartaz que simboliza o anátema da corrupção levada a cabo por uma elite alienada, retrógrada, ingrata e servil, incapaz de se identificar com as mais legítimas aspirações à felicidade da massa de deserdados que maioritariamente compõem a população do Haiti;
- A bandeira da Venezuela Bolivariana que é erguida nas últimas manifestações que têm eclodido no Haiti, é erguida por aqueles que reconhecem a mão amiga estendida pelo Comandante Hugo Chavez quando instituiu e colocou em prática a missão PETROCARIBE;
- A bandeira dos Estados Unidos que é queimada nas últimas manifestações no Haiti por aqueles que sentem na própria carne os efeitos da submissão a que estão condenados a partir dum norte cuja hegemonia se faz sentir também pelo comportamento racista conforme aos mais hediondos padrões de “apartheid” que só a barbárie pode conceber.

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