sexta-feira, 6 de março de 2020

Acordo do Afeganistão é a derrota da NATO


O acordo assinado por Washington foi estabelecido para tentar mitigar o mútuo desgaste de guerra. Permite à Administração Trump usar eleitoralmente a promessa de fazer regressar os “boys” a casa.

José Goulão | AbrilAbril | opinião

Consta dos anais diplomáticos dos finais dos anos sessenta do século passado que os Estados Unidos reconheceram a sua derrota militar no Vietname a partir do momento em que cederam perante as partes vietnamitas na discussão sobre o formato da mesa de conversações em Paris – que, na prática, reconheceu o Governo Revolucionário Provisório do Vietname do Sul. Cinquenta anos depois, a assinatura de um acordo com os talibã em Doha, no Qatar, é a confissão da derrota norte-americana na sua mais longa guerra, a do Afeganistão. Uma derrota que não é apenas dos Estados Unidos mas também da NATO – logo dos próprios governos que integram a aliança.

Em Portugal, como de costume, assobia-se para o lado e prefere saudar-se o hipotético fim de uma guerra que, na prática, não é o fim de uma guerra mas um esforço dos agressores para salvar o que for possível, de maneira a garantir a continuação da presença num país que é chave para influir na Ásia Central. O Pentágono, aliás, não esperou mais do que escassas horas para explicar isso mesmo ao bombardear um suposto «esconderijo» talibã na província de Helmand e garantindo a seguir, no mais puro léxico atlantista, que se tratou «de um ataque defensivo».

O acordo com os talibã, a que se juntam os «anexos secretos» cuja existência já foi confirmada pela parte norte-americana, é uma confissão de derrota militar, a que o secretário da Defesa dos Estados Unidos, Mark Esper, preferiu chamar eufemisticamente «impasse estratégico». Muitos estarão ainda lembrados que, em Outubro de 2001, George W. Bush e a sua corte prometeram cumprir em escassos dias os objectivos prometidos com a invasão do Afeganistão: liquidar Bin Laden, destroçar os talibã e instaurar «a democracia» no país.

Dezoito anos e alguns meses depois, os Estados Unidos têm 13 mil soldados no terreno, sem contar com os efectivos dos outros países da NATO e os mercenários das empresas de segurança contratadas. Os talibã controlam maior percentagem de território do que em 2001. A «democracia» assenta na fraude e na corrupção e está reduzida à capital, Cabul. As forças militares e de segurança afegãs criadas, financiadas e treinadas pela NATO são um fiasco quando enfrentam as dos talibã. Grande parte do país foi devastado e nada foi reconstruido. A única coisa que floresceu entretanto, e muito, foi o tráfico de heroína produzida a partir do ópio afegão.




Uma trégua bilateralmente conveniente

O acordo assinado por Washington com o grupo que, nos seus primeiros tempos, era conhecido como o dos «estudantes de teologia», uma organização armada islâmica associada à etnia pashtun – dominante no Afeganistão – e que emergiu do magma mujahedin criado pela CIA para combater os soviéticos, foi estabelecido para tentar mitigar o mútuo desgaste de guerra. Em primeira instância, permite à Administração Trump usar eleitoralmente a promessa de fazer regressar os boys a casa – na realidade apenas um terço dos efectivos, 4400 em 13 mil – e dentro de um ano e meio; além disso, funcionando efectivamente como «trégua», poderá permitir uma acentuada quebra nas baixas militares e mercenárias, além de um significativo abrandamento do clima cáustico na comunicação social em relação ao arrastamento da guerra sem quaisquer perspectivas de solução militar. No imediato, o acordo serve para tentar retirar o fracasso militar afegão dos temas quentes do período eleitoral norte-americano.

Nada disto disfarça que o acordo seja, de facto, aquilo que é: uma confissão de derrota dos Estados Unidos sem discutir sequer – ao que se saiba – o formato da mesa utilizada em Doha.

Em termos gerais, o acordo estabelece uma trégua durante a qual decorrerão «negociações intra-afegãs» sobre o futuro do país. Um período em que virão ao de cima as contradições entre zonas de influência tribais, étnicas e paramilitares sendo que não está excluída a possibilidade de o Hezb-i-Islami (Partido Islâmico), apoiado pela Arábia Saudita e o Paquistão, entrar em confronto armado com os talibã.

O Irão foi «esquecido»

Outro aspecto que torna o acordo de Doha um arranjo transitório e parcial é o facto de ter ignorado em absoluto a componente iraniana do problema afegão, quanto mais não seja pelo facto de o Irão acolher 3,5 milhões de refugiados do Afeganistão.

Uma omissão que não decorre apenas no antagonismo cego de Washington em relação ao Irão: tem igualmente a ver com o objectivo norte-americano de estancar a crescente influência russa e chinesa sobre os talibã e o Afeganistão – cuja principal porta de entrada é Teerão. Daí que o acordo de Doha tenha implícita uma redução irreal dos assuntos afegãos ao binómio Estados Unidos-talibã, ou seja, na tradicional perspectiva norte-americana, uma tentativa de Washington para «comprar» o seu principal inimigo militar e convertê-lo em instrumento de influência – como aconteceu durante os anos noventa.

Um dos «anexos secretos» cujo conteúdo tem transpirado confirma que a negociação de «vantagens mútuas» é uma das componentes do processo bilateral. Estabelece que a CIA tem permissão para fazer negócios em áreas controladas pelos talibã; por outras palavras, a agência pode continuar a superintender o grandioso maná da cultura de ópio, produção e tráfico de heroína com o qual financia as suas operações clandestinas através do mundo. A produção de ópio e a quota de participação do Afeganistão no tráfico de heroína têm aumentado de maneira permanente e até exponencial desde o início da invasão da NATO, em 2001, segundo relatórios oficiais das Nações Unidas.

A moeda de troca para convencer os talibã poderá ser o investimento norte-americano no desenvolvimento pacífico do Afeganistão – com repercussões no controlo sobre a Ásia Central – através de projectos de integração internacional recentemente criados em Washington para tentar rebater as acções chinesas e russas no âmbito da Iniciativa Cintura e Estrada (ICE) de Pequim e da Organização de Cooperação de Xangai, que agrega as duas potências e na qual o Irão tem estatuto de observador – podendo tornar-se membro permanente em breve. Um Afeganistão pacificado como base de influências sobre a Ásia Central e zona de passagem das novas rotas comerciais entre o Oriente e o Ocidente são perspectivas naturais, mas a muito longo prazo e ainda periclitantes, do acordo assinado em Doha.

As duas partes signatárias estão visivelmente a tactear terreno, cientes de que as perspectivas de evolução militar não garantem as suas ambições. Ambos os lados tentam ganhar tempo através de concessões menores e um status quo menos desgastante, mas sem terem abandonado formalmente os objectivos que significam a vitória no conflito: do lado talibã, a retirada total das tropas norte-americanas e da NATO; do lado norte-americano e da NATO o estabelecimento no país de uma situação política e militar respeitadora da ordem imperial e a manutenção da sua presença militar no terreno.

Quando os povos contam

O acordo pode ser um passo intermédio para coisa nenhuma a não ser a continuação da guerra, situação que é do agrado do poderoso ramo militar do establishment norte-americano.

A sua assinatura por Washington, ainda que por questões tácticas e de circunstância, representa, porém, uma confissão de derrota da potência imperial e respectiva corte de aliados militares formando a aliança agressiva com maior poder militar da história da humanidade.

Tal como há 50 anos no Vietname e agora no Iraque, na Síria e, por maioria de razão, no Afeganistão, prova-se que a força bruta pode não chegar contra exércitos ou organizações enraizadas nos povos que se defendem das agressões.

Não são comparáveis as estruturas patrióticas vietnamitas e os grupos talibãs. Não restam dúvidas, porém, que vitória da resistência popular vietnamita se deveu à sua forte ligação às populações de todo o país, das quais era, de facto, uma emanação. No Afeganistão, nem todos os pashtuns são talibãs mas quase todos os talibãs são pashtun, a etnia dominante no país. E os pashtuns têm uma longa história de afirmação soberana e de absoluto inconformismo perante a arrogância e os poderes estrangeiros que tentam impor a sua força. Neste aspecto, as situações vietnamitas e afegã são indubitavelmente comparáveis.

Os Estados Unidos e a NATO não aprendem, continuam a minimizar a capacidade de superação dos povos e a considerar que podem escrever a História ao ritmo dos interesses potencialmente criminosos das elites que servem. Puro engano, como ficou de novo à vista agora em Doha.

José Goulão, Exclusivo O Lado Oculto/AbrilAbril

Imagens: 1 - Um afegão chora o seu irmão, morto num ataque aéreo da NATO, na província de Jalalabad, Afeganistão, a 5 de Outubro de 2013. Pelo menos cinco civis foram mortos durante esse ataque, acusou o porta-voz do governo provincial afegão. A intervenção militar da coligação militar liderada pelos EUA foi acusada de causar um número desproporcionadamente alto de baixas civis CréditosParwiz / Reuters; 2 - Paraquedistas norte-americanos numa operação em Lwar Kowndalan, Afeganistão, em Outubro de 2005

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