quinta-feira, 2 de abril de 2020

Confinamento. Mesmo por entre calhaus vão ver que chegam lá e entendem


Por um bocadinho fomos beber à fonte do Expresso Curto o que lá vem e o que verteu ontem ao fim do dia na comunicação de António Costa, primeiro-ministro, sobre a prorrogação do Estado de Emergência, confinamentos e outros “ornamentos” pascoais dos tempos que semi-vivemos… em casa. 

Da lavra do Curto a seguir, fabricado no estaminé do dr. Francisco Pinto Balsemão, via teclado, com as marteladas das cabeças dos dedos e cérebro de João Cândido da Silva, trabalhador dali (esperemos que não a recibos verdes) saem ainda quentinhas as “novas” sobre o “mais um bocadinho” do “fica em casa”. Atentos devem ler e perceber que se devem deixar de aleivosias e egoísmos – além da estupidez natural de alguns.

Pois, sabemos, esta vida assim não “dá pica”. Esta coisa de ficar em casa é terrível… Então, mas não percebem que desse modo, sem se porem a jeito para serem contaminados, o vírus morre? Acaba e podemos cantar que foi um ar que lhe deu? Pois, ainda não pensaram nisso. Mas há ainda mais uma vantagem além dessa: não se registam tantas mortes e o coletivo pode sair mais cedo de casa e fazer a tal vidinha com “pica”, ir ao futebol chamar nomes feios ao árbitro e a certos e incertos jogadores… Isso tudo por aí. Coisas de que gostam, de que dizem que “assim é que é vida”. É?

Adiante. Queremos ser curtos e nada grossos nesta quadra pascolina. Leia o que lá vem, no Curto do Expresso. O resto já sabe. E se não sabe é porque lhe dispuseram um calhau com olhos em cima dos ombros. Ooooh! O que lhe fizeram foi mesmo mau. Por isso percebe-se porque quer ir veranear para o Algarve, e ver as praias, e andar pelas ruas e a contagiar os outros seus concidadãos… Está tudo clarificado. O problema não é o covid-19 nem mais nada que não a constatação do calhau…

E andam tantos a esforçarem-se e a arriscarem as vidas para salvar gente assim…

Pirem-se para o Curto, a seguir. Mesmo por entre calhaus vão ver que chegam lá e entendem. Obrigado. Boa Páscoa a ficar em casa, sem misturas, com todos os cuidados, poupando-se a si e aos outros e outras… pessoas.

AV | PG



Bom dia, este é o seu Expresso Curto

Só mais um bocadinho

João Cândido da Silva | Expresso

Bom dia,

Crentes, agnósticos e ateus terão, pelo menos, a característica comum de gostarem de desfrutar um fim-de-semana prolongado na companhia de familiares e amigos. Não vai acontecer na Páscoa de 2020. O estado de emergência que vigora em Portugal será prolongado.

As regras de confinamento que visam conter a pandemia da covid-19 vão ser apertadas. Só mais "um bocadinho", afirmou o primeiro-ministro, no estilo relutante de quem se vê na obrigação de dar más notícias e o tenta fazer de forma a que não pareçam demasiado sombrias. Serão "medidas mais claras para que as pessoas percebam que não podem andar a circular de um lado para o outro", explicou António Costa. Sobre os emigrantes que nesta altura do ano costumam visitar Portugal, deixou uma recomendação: “Este ano é melhor não virem na Páscoa”. Nem um bocadinho, presume-se.

Contrariado, talvez, o primeiro-ministro parece disponível para colocar de lado o optimismo irritante e aceitar a realidade incontornável que vem acompanhada da escassez de meios e da necessidade de adoptar alguma humildade a bem do sossego político em época de crise. Apelou à contenção em quatro aspectos: quanto ao modo como se olha para os dados mais recentes, como se olha para o apertar de regras para a segunda quinzena do estado de emergência, como serão as medidas de regresso à normalidade, de que é um exemplo a abertura das escolas, e, por fim, quanto aos apoios que o país tem capacidade para dar.

O combate no terreno da saúde cobra um custo pesado sobre a actividade económica. Os danos são elevados, os pedidos de apoio multiplicam-se. Entre as iniciativas já aprovadas pelo Governo, destacam-se aquelas que estão destinadas a tentar atenuar os efeitos da crise sobre trabalhadores e empresas. Através deste guia, pode ficar a conhecer o que o Governo já decidiu. Há apoios para as microempresas que não se aplicam às grandes e há apoios que se aplicam às grandes e que deixam de fora os empresários em nome individual.

Nem tudo corre bem. As empresas queixam-se de dificuldades no acesso às ajudas e dois terços das empresas inquiridas pela Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa sublinham outro ponto: a maior dificuldade está na imprevisibilidade que resulta das sucessivas alterações que já foram introduzidas.

O balanço nacional desta quarta-feira deu conta do registo de 8.251 pessoas infectadas, um acréscimo de 808 em comparação com o boletim da direcção-geral da Saúde do dia anterior. O número de vítimas mortais subiu para 187 e há 43 recuperados, uma conta que não sofreu alterações nos dias mais recentes. O isolamento social está a produzir efeitos positivos? Os números divulgados revelam uma nova desaceleração da curva, de 10,9%, depois de nesta terça-feira se terem registado mais de mil novos casos.

O que se passa, de acordo com quem tem uma perspectiva global, pode ser lido e escutado nas palavras do diretor-geral da Organização Mundial da Saúde. Tedros Adhanom Ghebreyesus está preocupado com o aumento dos contágios no mundo e admite que algumas medidas levadas a cabo por vários países poderão ser contraproducentes para pessoas vulneráveis. “Entrámos no quarto mês da pandemia e estou muito preocupado com o rápido aumento da infeção”, disse esta quarta-feira. O responsável pela OMS revelou que, ao actual ritmo, o mundo alcançará na próxima semana o número redondo de um milhão de casos confirmados, um cenário preocupante quando se sabe que, de Espanha a Itália, de França ao Reino Unido e aos Estados Unidos, os sistemas de saúde já estão assoberbados.

É possível que muitas das situações de infecção antecipadas por Tedros Ghebreyesus venham a ser detectadas em lugares indevidamente esquecidos. Annie Chapman e Sanne Van Der Kooij são duas médicas que formaram o SOS Moria para unir os médicos de todo o mundo num pedido único: retirem as pessoas dos campos de refugiados porque quando o vírus chegar “vai ser como uma bomba química, não vai matar, vai dizimar”. Mais perto de nós, há quem não tenha casa onde se proteger: "Uma noite na rua a dar comida aos sem-abrigo" é o título de uma reportagem feita junto de uma parte da população que está mais exposta, um relato sobre solidariedade onde ela é agora (ainda) mais necessária.

Noutras circunstâncias, estas notícias seriam surpreendentes e bem-vindas: a concentração de poluentes caiu 80% em Lisboa e 60% no Porto e a mortalidade nas estradas é a mais baixa dos últimos dez anos. As imagens de Lisboa que integram esta fotogaleria explicam as leituras favoráveis sobre poluição e sinistralidade rodoviária feitas pelas entidades oficiais, uma bonança que chega por maus motivos.

Esta quinta-feira é mais um dia no combate à covid-19. Siga os desenvolvimentos através dos diretos do Expresso, que pode encontrar aqui, se pretende acompanhar a situação nacional, e aqui, para ter informação sobre o que está a suceder no Mundo. Estes mapas, nacional e global, também ajudam a perceber a evolução da pandemia.

OUTRAS NOTÍCIAS

Pirataria internacional. O Ministério da Defesa da Venezuela anunciou, na terça-feira, que um barco da Marinha venezuelana naufragou após uma colisão com o cruzeiro de bandeira portuguesa "Resolute". Nicolás Maduro pediu às autoridades do Curaçau, onde o barco de turismo está ancorado, a investigação deste "ato de pirataria internacional".

Uma versão diferente. A empresa Columbian Cruise Services garantiu que o "Resolute" foi "objeto de um ato de agressão" por uma embarcação da Marinha venezuelana em águas internacionais, enquanto fazia a manutenção de um motor.

Augusto Santos Silva, ministro dos Negócios Estrangeiros, disse que "não se trata de um incidente entre Estados e que aquilo que os Estados devem fazer é colaborarem entre si para que a verdade seja apurada". O navio em causa tem bandeira portuguesa desde 2018, quando foi registado na Madeira, mas pertence à empresa Bunnys Adventure and Cruise, com sede em Hamburgo, na Alemanha. A tripulação do navio RCGS Resolute é totalmente ucraniana, não havendo qualquer português a bordo.

Electricidade mais barata. A Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos avançou com uma revisão extraordinária da tarifa de energia aplicável no mercado regulado que deverá provocar uma diminuição de 3% na fatura de eletricidade dos clientes domésticos.

Um homem calmo e bondoso. É desta forma que a imprensa ucraniana descreve o cidadão do país que morreu no interior das instalações do Aeroporto de Lisboa. Três inspectores do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras são suspeitos de ter responsabilidades no estranho caso e alegam que Igor Homenyuk causou distúrbios. O caso está em investigação.

Portugal tem duas marcas de vinho entre as 13 mais admiradas do mundo. É o que ditou a edição de 2020 das "World’s Most Admired Wine Brands". As marcas distinguidas são a Symington e a Esporão. Um brinde, então.

FRASES

"Certos investimentos que estavam a ser considerados para 2020 podem ter que ser adiados ou concluídos faseadamente". Paulo Azevedo, presidente da Sonae

"Há muitas situações em que o trabalhador é o sócio-gerente, que não pode ter acesso ao regime do 'layoff'". Ana Jacinto, secretária-geral da Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal

"A Comissão Executiva [da TAP] liderada por Antonoaldo Neves e escolhida por David Neeleman é provavelmente a mais incompetente da história da companhia aérea", Daniel Oliveira

"O Ronaldo é uma pessoa fantástica e é muito sociável, tranquilo dentro e fora do balneário. Sim, dá a impressão de ser um gabarolas, mas não há nada que possamos fazer contra isso”. Paolo Dybala, médio ofensivo da Juventus

O QUE ANDO A LER

Nos tempos que se vivem, não falta quem dê o conselho de que se aproveite o confinamento para ir às estantes e pegar naqueles calhamaços que estavam reservados para quando chegasse a idade da reforma. É um conselho como qualquer outro. A boa literatura não se mede aos palmos. Ainda assim, vale a pena correr o risco.

O romance que marcou a estreia literária de Garth Risk Hallberg já era um sucesso, pelo menos para o autor, antes de ter chegado à livrarias. A editora pagou dois milhões de dólares pelo manuscrito, uma iniciativa que criou expectativa suficiente para ser considerada uma inteligente manobra de marketing, talvez mais relevante do que os méritos da obra publicada em 2015.

“Cidade em Chamas”, que na edição portuguesa percorre mil páginas, segue a estrutura de uma história que poderia ser classificada entre o livro de suspense e o policial. O homicídio de uma estudante universitária no Central Park, em Nova Iorque, na noite de Ano Novo de 1976, é o elemento que cruza e une as diferentes personagens. Os segredos sobre cada uma delas são desvendados através de recuos no tempo e a narrativa toma sentido e consistência quando se avança na leitura. O puzzle exige paciência e perseverança.

O desenvolvimento da intriga é lento, mas o principal interesse de “Cidade em Chamas” está no retrato e no comentário que faz de Nova Iorque numa época de transição entre a falência do sonho hippie de paz e amor dos anos 1960 e o despertar do niilismo do movimento punk na segunda metade dos anos 1970. No desfecho está o apagão de 1977, quando a violência e a criminalidade na cidade, quase literalmente em chamas, atingiram um pico. A banda sonora deste livro é mais ou menos óbvia. “Horses”, o primeiro álbum de Patti Smith, é a principal referência.

Três estrelas em cinco, para resumir.

O QUE ANDO A OUVIR?

Muita coisa.

O streaming é uma porta aberta para a descoberta. Quase toda a música está disponível. Aquela de que se gostou, aquela de que se gosta e aquela de que se há-de gostar. Melhor, ainda: nalguns serviços é oferecida com a máxima qualidade de som.

“Basement Music”, Viktor Skokic. Contrabaixista e compositor que tem origens nos balcãs e que vive em Estocolmo. Aparece aqui em sexteto para interpretar temas originais. Perfeito.

“We Are Sent Here By History”, Shabaka and The Ancestors. Shabaka Hutchings, membro dos Sons of Kemet e The Comet is Coming, regressa à África ocidental para dar música ao apocalipse.

“Peninsula”, Clark Sommers. Contrabaixo, saxofone e bateria. Por vezes, não é necessário mais do que isto.

"Farewell Old Ways", Aloft Quartet. Uma pequena banda, sólida e consistente, que interpreta com frescura temas em que o realce está nas melodias.

"Cast of Characters", Nick Finzer. Um belíssimo sexteto, liderado pelo trombonista Nick Finzer, que executa temas originais. O pós-bop no seu melhor.

E é tudo. Acompanhe a actualidade no Expresso e tenha um excelente dia.

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