sábado, 24 de abril de 2021

ANA GOMES, A AMIGA DA ONÇA DE XANANA GUSMÃO

M. Azancot de Menezes* | Tornado | opinião 

Ao ler os comentários (emocionais) da ex-deputada Ana Gomes em relação ao líder histórico da Resistência Timorense, publicados há alguns dias em vários órgãos de comunicação social, fiquei perplexo e escandalizado pela significativa falta de discernimento e de desconhecimento que esta dirigente do Partido Socialista português tem sobre a realidade actual timorense.

O observador menos atento, é minha convicção, após ter lido os comentários da Senhora, percebe de imediato que houve um objectivo premeditado em tentar colocar a figura mítica de Timor-Leste numa situação constrangedora e humilhante, como fazem os “Amigos da Onça”, quiçá, ao serviço de terceiros interesses.

Em termos de significação de conceitos e para me posicionar sem equívocos, considero que a expressão “amigo da onça” foi criada há muitos anos e tem como significado “figura malandra, debochada e irónica que gosta de levar a melhor sobre os outros”.

As expressões utilizadas pela Senhora Ana Gomes ao referir-se ao ex-Comandante das “Forças Armadas de Libertação Nacional de Timor-Leste” (FALINTIL), Kay Rala Xanana Gusmão, referidas em órgãos de comunicação social, tais como:

“ar maltrapilho e perturbado”;

“até por temperamento, ele era dado a algumas atitudes coléricas”;

“foi de boca aberta que se viu o antigo Presidente a dormir ao relento”;

“parece estar desequilibrado”;

“admito que seja por questões do foro neurológico”;

que o estado do Katuas Xanana “pode ser resultado da velhice ou frustração por perder o poder”;

entre outras,

São a principal razão de ser da minha indignação pelo requinte utilizado por Ana Gomes em tentar ridicularizar uma figura histórica de Timor-Leste, amada pelo povo maubere, mas, igualmente muito grave, por ausência de qualquer fundamentação de carácter político, científico ou social.

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Recordar alguns desequilíbrios de Ana Gomes

Como todos sabemos a ex-candidata presidencial, formada em direito, chefiou a missão diplomática portuguesa na Indonésia durante a luta de libertação, reconheço, com alguns aspectos positivos. Contudo, o temperamento desta senhora que conheci há mais de 30 anos na residência do Embaixador Fernando Reino, em Sintra, onde também estava a Senhora Carla Grijó, entre outros (não refiro os nomes por razões de ordem estratégica pessoal e partidária), é extremamente autoritário e muito emocional, agindo com frequência sem racionalidade, quase sempre sem fundamentação, apenas por impulso, amiúde de forma espalhafatosa.

Apenas com dois exemplos ilustrativos, demonstro o grau de ostentação, vaidade e arrogância desta dirigente do Partido Socialista português.

Quem não se recorda, em 2020, desta mesma Ana Gomes, após ter visitado Cabo Verde, ter feito uma série de denúncias contra o antigo Embaixador da União Europeia (UE) em Cabo Verde, apenas porque este se decidiu reformar e com as suas economias ficar a viver neste país africano da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), ao ponto de ter sido aberto um inquérito pela União Europeia?

No processo, em que a grande iluminada Ana Gomes foi a denunciante, o então Embaixador da UE, José Manuel Pinto Teixeira, agora Embaixador da Ordem de Malta em Cabo Verde, foi totalmente ilibado e o mesmo foi arquivado.

Ora, num processo iniciado por Ana Gomes junto da União Europeia, posteriormente arquivado (!) em que José Manuel Teixeira recebeu apoio solidário de todos os partidos e posições, pergunto eu, quem é que parece ser “desequilibrado”?

Um outro caso igualmente escandaloso passou-se no âmbito das eleições na Etiópia, em que Ana Gomes foi uma das observadoras. Os resultados ainda não tinham sido divulgados mas devido ao seu carácter “dispara primeiro”, sob a habitual emoção desmedida, produziu declarações não validadas, tendo provocado um incidente gravíssimo que provocou instabilidade no país e mereceu a crítica de vários países africanos. Pergunto eu, quem é que parece ser “desequilibrado”?

O desconhecimento da situação política e social de Timor-Leste

As “análises” superficiais e abusivas de Ana Gomes não passam de comentários parciais e subjectivos e denotam o total desconhecimento da mesma em relação ao desenvolvimento político-partidário e social em Timor-Leste.

A dirigente do PS português, para espanto meu, ainda não percebeu qual é a actual disparidade entre as cidades e os campos em Timor-Leste, aliada à desigualdade social que cresce de dia para dia, e muito menos qual é o grau de envolvimento de Kay Rala Xanana Gusmão neste processo da actual luta de libertação.

Será que Ana Gomes compreende que a paralisação do sector agrícola de Timor-Leste é de tal forma gritante que a produção nacional nem consegue competir nos mercados “tradicionais”? E a total destruição dos combatentes da Pátria e dos bens que o país produziu à custa do seu suor e sangue? Tem noção de qual é o ponto de situação? Os diplomados que são produzidos nas universidades timorenses são absorvidos pelo mercado e pela sociedade? Será que Ana Gomes se apercebe da pobreza quantitativa e qualitativa que assola os sectores mais marginalizados da sociedade? Será que a preocupa sentir que as crises sociais podem passar a ser ininterruptas?

Perante a grave situação social, económica e política que atravessa Timor-Leste, Ana Gomes está preocupada porque Kay Rala Xanana Gusmão tem um “ar maltrapilho”? O que é ser “maltrapilho”? Vestir T-shirt e calças? Mahatma Ghandi, especialista em ética política, pelas suas vestes, também era “maltrapilho”?  Está preocupada com a “velhice” de Kay Rala Xanana Gusmão, com 74 anos de idade, enquanto o Presidente do seu país tem 81 anos?

Afinal, quem “parece desiquilibrado”? Quem é a senhora, enquanto jurista, para produzir juízos de valor em relação ao estado de saúde do líder histórico da resistência timorense ao ponto de admitir que “haja questões de foro neurológico e que as mesmas se tenham agravado”?! Por acaso a Senhora é psicóloga clínica ou médica psiquiátrica? Elaborou algum exame médico à distância?

Senhora Ana Gomes, (grande) amiga da onça, não estrague a boa imagem de Portugal em Timor-Leste, penitencie-se, e ponha-se no seu lugar!

M. Azancot de Meneses -- PhD em Educação / Universidade de Lisboa

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