sábado, 10 de outubro de 2015

CARTA (RE)ABERTA AO PRESIDENTE JOSÉ EDUARDO DOS SANTOS



A lucidez no exercício do mais alto cargo da magistratura de um país é uma ferramenta definidora do carácter de um líder que exige a sua consagração pelo voto do soberano, através dos marcos da legalidade e da legitimidade.

William Tonet* - Folha 8, opinião

A ausência de um destes pressupostos demonstra a natureza do seu titular, que governando, não tem o consenso do povo e voto eleitor.

Senhor Presidente da República de Angola, José Eduardo dos Santos, escrevo-lhe, uma vez mais, apelando a sua sensibilidade, para se colocar não como Presidente dos angolanos do MPLA, mas como Presidente de todos angolanos, logo com amor paternal, principalmente, em relação aos meninos e jovens com idades próximas a dos seus filhos.

Escancare o coração e sinta o gemido e a dor de meninos, muitos hoje, com a idade que o levaram a abandonar o Sambizanga e partir para o Congo para abraçar a lua de libertação nacional e devolva-os as mães e esposas dilaceradas com a prisão injusta, levada a cabo, por serviços castrenses, desejosos de comprometer o seu futuro, pois a responsabilidade lhe será imputada.

A sua biografia fala do período de irreverência juvenil e das manifestações contra as políticas injustas, então praticadas, nos anos 60, pelas autoridades coloniais portuguesas, que aderiu e participou, para quê e porquê, se agora, em democracia o Senhor nada faz contra a repressão, a tortura, a prisão e por vezes os assassinatos levados a cabo pela Segurança de Estado e Polícia, contra jovens que nem o querem matar, apenas apelar a uma melhor governação.

Senhor Presidente, José Eduardo dos Santos, acredito ser altura de emprestar nobreza ao seu reinado, depois de 36 anos de poder ininterrupto, sem nunca ter sido nominalmente eleito. Foi um erro estratégico, esta opção, pois qualquer que seja o desfecho final do seu consulado, essa condição remetê-lo-á para a galeria dos ditadores…

Poderia ter evitado isso, principalmente, quando morreu assassinado o seu principal adversário político: Jonas Savimbi.

Depois de 2002, o senhor concorreria praticamente sozinho e poderia ser eleito nominalmente, pela primeira vez, e se estivesse difícil, apelar à “engenharia informática de esgoto”, para concentrar os votos nas suas urnas, não seria anormal, pelo contrário… Não o tendo feito está mais vulnerável enquanto líder…, quer interna como externamente.

Senhor Presidente, os seus apoiantes, acredito, a maioria exímios bajuladores, escondem-lhe a realidade, caso contrário, saberia do clamor do povo e da baixa popularidade que tem. Ninguém mais acredita no seu consulado e Executivo, incluindo destacados militantes e dirigentes do MPLA, que vaticinam a sua partida. Não o dizem por temerem, na crónica cobardia, a perca das mordomias.

Felizmente como não faço parte deste exército tenho a autoridade de lhe trazer a “voxi populis”. O declínio da sua áurea começou com os assassinatos, dentre outros, de Ricardo de Melo, Adão da Silva, Mfulumpinga Landu Victor, mais recentemente, com o lançamento aos jacarés de dois jovens que o protegeram anos a fio, na sua Guarda Presidencial: Cassule e Kamulingue, seguindo-se, no quartel do palácio, Hilbert Ganga.

São muitas mortes nas redondezas do seu gabinete, com igual omissão.

A prisão dos 15+1 jovens é a maior asneira do seu consulado, pois tolha a imagem do Executivo de que é titular, colocando-o na lama, face à insensibilidade que vem denotando, com o avolumar de injustiças e o temor que demonstra face ao exercício da democracia, nos marcos consagrados, numa constituição feita a sua imagem e semelhança.

Senhor Presidente, será que os seus assessores (nacionais e estrangeiros), responsáveis pela elaboração da actual Constituição, tendo escondido ao MPLA (os deputados do partido no poder, tinham outro ante-projecto), também lhe esconderam a consagração destes direitos fundamentais? Se não, porque razão os cidadãos não os podem, livremente, utilizar?

Essa postura descredibiliza-o, como líder e democrata, daí estar a ser fortemente criticado, também pela promoção de tribalismo, contra um jovem de 18 anos, por alegadamente, adoptar o nome do comandante Nito Alves, que paradoxalmente, também não conseguiu contar com a sua solidariedade, enquanto coordenador da Comissão de Inquérito, sendo então assassinado pelo MPLA em 1977, agora pode acontecer o mesmo com o seu homónimo, quando chineses e outros têm a nacionalidade sem cumprir os requisitos legais…

Senhor Presidente, não acredito ser tão mau e insensível, mas a sua insensibilidade abomina, ao ponto de, alegadamente, preferir que morra, nas fedorentas masmorras do regime o filho de um homem que o serviu com “fidelidade canina” e que foi director da sua Fundação, o Luaty Beirão, que empreende há mais de 19 dias uma greve de fome, face às injustiças, estando muito mal.

O mais grave é que o Senhor sabe disso, mas dizem-me, não gosta de ouvir conselhos de gente que não o bajula, gente com coerência e autoridade moral, preferindo antes ser “morto pelo elogio do que salvo pela crítica”.

Será que se um dos jovens, Marco Mavungo, José Kalupeteka, Quim Ribeiro + 21 polícias, morrer na cadeia o Senhor continuará a viver com paz espiritual, sabendo que mais uma vida se foi face à injustiça do seu executivo?

Senhor Presidente, não se esqueça que é pai, logo lembre-se do que sofre quando um deles não está bem, sei ser difícil isso acontecer, pela faustosa vida que têm, mas ainda assim imagine o que é o sofrimento de um pai, sabendo que seu filho está preso ou morreu face à sua omissão ou descaso.

O poder da oração tem muita força, não defraude todo um país, pois ser radical, não demonstra nobreza, pelo contrário, é medo, é cobardia… Desprenda-se do colete de força e prepare uma retirada feliz, pois caso contrário nunca ninguém o recordará como bom patriota…

Senhor Presidente, saiba que na actual conjuntura, os maiores e piores adversários habitam na sua própria legenda, por não ter conseguido, como é natural, servir a todos…, logo se não preparar pontes com os políticos da oposição e membros da sociedade civil, não bajuladora, correrá o risco de acabar sozinho no futuro, inclusive abandonado por alguns dos seus próprios filhos.

Senhor Presidente, finalmente, seja, pelo menos, uma vez líder de todos, líder sem armas e exército privado, líder do bem, líder do amor, capaz de interpretar os conselhos do Papa e do Presidente Obama, pense como um pai, promova uma verdadeira reconciliação e conciliação, entre todos actores políticos.

Agora, na magistratura dos seus 73 anos de idade, faça algo abrangente, porque amanhã, é a lei da vida, poderá ser tarde e nem dos feitos positivos desfrutar e ser recordado.

Incite a promoção para uma verdadeira justiça, mande libertar os jovens políticos inocentes, demonstre não ter medo deles e das manifestações, coisa que o indulto/2015 de cariz sectário, não fez, discriminando, injustamente, muitos inocentes que definham nas cadeias, por razões políticas.

Seja líder!

*Diretor do Folha 8

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