domingo, 23 de abril de 2017

Eleições em França. FALSOS FACTOS COM CONSEQUÊNCIAS NA RUA. E NO VOTO DE HOJE?

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Num cais vazio, malas solitárias com ar ainda mais de abandonadas porque as pegas estão por terra, carrinhos derrubados, mochilas e até malinhas de mão espalhadas no chão demonstram uma fuga abrupta... - ontem à tarde, a Gare du Nord, estação central de comboios na margem direita de Paris, foi cenário de mais um momento de pânico coletivo. Na véspera, acontecera o mesmo na estação do metropolitano de Châtelet, por causa de uma tábua caída de andaime. Desta vez, na Gare du Nord, foi uma patrulha policial que interpelou um homem, supostamente com uma faca na mão, mas que se rendeu de imediato.

As pessoas falam do medo fundo, não adormecido, como velhos combatentes: "Já não é como do primeiro atentado, mas..." O assassínio do polícia nos Campos Elísios, na quinta-feira, abalou, mas... São muitos os "primeiro atentado" a calejar - desses da memória recente, Charlie Hebdo, Bataclan, já para não falar das bombas dos anos 1990, dos radicais islâmicos argelinos, que levaram a fechar os caixotes de lixo na cidade, e muito menos da pré-história, há mais de meio século, dos atentados da guerra da Argélia transportada para Paris... Vendo bem, a cidade nunca foi fácil, os parisienses estão habituados. Mas... Os parisienses estão tensos.

O passar das sirenes, em cortejos longos de até uma dúzia de carrinhas da polícia, é constante. Jovens soldados de camuflado e colete à prova de bala, mão pousada no protetor de gatilho da metralhadora, um ir até ao canto da rua, olhar à esquerda e à direita, precedendo o avançar da patrulha, imagem normal de filme (Vietname) ou de noticiário de TV (Mossul)... Mas tão insólito e inesperado quanto a placa da rua diz Boulevard Haussman, os cartazes anunciam as galerias Lafayette e, no passeio, namorados sentam-se em cadeiras de palha e bebem golos de Aperol.

Estranhos sinais de uma guerra que não é. Ou é?

Poucos quarteirões adiante, no canal de Saint-Martin, os vizinhos e os turistas olham, da ponte em curva, o barco de um casal de velhos dinamarqueses, ele de camisola às riscas azuis e brancas de marinheiro, ambos com tremores de mão e mão em copo de rosé, esperando que a eclusa suba a água para poderem prosseguir a viagem à sombra dos castanheiros...

O bairro já foi pobre mas agora beneficia da gentrificação, esse palavrão que moderniza e globaliza as capitais. O gerente do Donantonia Pastelaria, jovem de Bragança, regressado com os pais emigrantes para Trás-os-Montes e há meia dúzia de anos em torna--viagem para a Paris, onde nasceu, vende pastéis de natas e bolas-de-berlim. Só lhe resta esperar o que vai acontecer hoje e daqui a duas semanas, pois ainda não escolheu ser francês como a lei lhe permite.

É que a França é uma incógnita e o jovem transmontano sabe-o de bem perto. Prosseguindo pela rua da pequena pastelaria portuguesa, pelos muros altos e tetos de ardósia do Hospital de Saint--Louis, virando na Rua Bichat, chega-se a um cruzamento. Um graffito desenha uma rosa e um desejo: "La vie en rose...", como cantava Piaf, a miúda da cidade. Às vezes não é bem assim, como viveram o restaurante Le Petit Cambodge e o bar Le Carrilon, que no cruzamento se encaram. Têm tragédia comum.

Numa sexta-feira à noite, em novembro de 2015, um terrorista islâmico atirou à maluca e com exatidão, 15 mortos. Quis atacar o modo de vida parisiense, mas, estúpido, nem isso soube fazer bem: eram 21.30, e hora e meia antes teria sido a happy hour, bebidas mais baratas e multidão maior que não faria desperdiçar algumas balas que acabaram nas paredes. Ontem, à happy hour, apesar do medo que dura, dezenas de parisienses escolhiam entre o petit beaujolais e a cerveja. Despreocupados, embora sejam herdeiros de um acontecimento que levou ao estado de emergência que ainda hoje vigora.

Esses, os factos, suficientes para assustar. Os não factos são muitos mais e também ajudaram a assustar durante esta campanha as presidenciais. Em março, um vídeo no Facebook (quase oito milhões de visualizações) mostrou um estrangeiro a agredir duas enfermeiras num hospital francês. Na verdade, aconteceu num hospital russo... Ainda ontem, nas redes sociais, circularam vídeos que seriam de muçulmanos em Londres celebrando o atentado dos Campos Elísios. Na verdade, eram paquistaneses a festejar a vitória da sua equipa de críquete em junho de 2009.

Este último vídeo foi a mais recente desmistificação de notícias falsas feita pelo site CrossCheck, um trabalho de 37 meios de comunicação franceses e internacionais, unidos contra a aldrabice organizada nestas eleições presidenciais. Dois participantes do projeto, os grandes jornais franceses Libération e Le Monde, fizeram secções próprias para caçar as mentiras difundidas na internet. Deram-lhes nomes que dizem ao que vêm, Desintox e Décodex, desintoxicar e descodificar. A maior parte das mentiras difundidas são sobre questões de imigração e segurança.

Pierre Haski, antigo diretor adjunto do Libération e fundador do site Rue89, explicou nesta semana como os meios de comunicação tradicionais têm vindo a perder importância na informação consumida pelos leitores. Nesta campanha, um quarto (24,2%) das notícias partilhadas pelos internautas franceses vieram de sites de origem duvidosa. "Este número explica a porosidade de uma parte da opinião pública em relação às fake news", diz Haski.

Nesta semana já vimos como dois factos menores, um incidente numa obra no metropolitano e uma simples detenção numa gare, provocaram pânico na multidão. Hoje veremos se o voto também se deixou abalar por rumores.

Ferreira Fernandes | Diário de Notícias | enviado a Paris

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