domingo, 21 de abril de 2019

Lição aprendida: Rússia faz na Venezuela o que errou ao não fazer na Iugoslávia, na Síria



Quando insistia para que os EUA iniciassem guerra aérea contra a Síria em 2012, Hillary Clinton argumentou em seus e-mails que a Rússia “não se intrometerá”, assim como “nada fez além de reclamar”, quando EUA e aliados bombardearam a Iugoslávia em 1999:

O segundo passo é desenvolver apoio internacional para uma operação aérea da coalizão. Rússia jamais apoiará essa missão; portanto não faz sentido operar no Conselho de Segurança da ONU.

Alguns dizem que o envolvimento dos EUA cria o risco de guerra mais ampla com a Rússia. Mas o exemplo do Kosovo mostra coisa diferente. Naquele caso, a Rússia tinha laços étnicos e políticos genuínos com os sérvios, laços que não existem entre Rússia e Síria; e mesmo naquele caso, a Rússia nada fez além de reclamar.

Funcionários russos já reconheceram que não se intrometerão, se houver intervenção.

O que Hillary não percebeu é que Putin não é Yeltsin, que Putin voltou à presidência depois que uma abstenção de Medvedev na ONU permitiu ao Império iniciar guerra aérea contra a Líbia, não Yeltsin, e tampouco percebeu que mesmo Yeltsin fez um pouco mais que só “reclamar” em 1999.



Quando a guerra OTAN-Iugoslávia aproximava-se do fim, Yeltsin ordenou que os 300 russos da força de paz na Bósnia avançassem sobre o aeroporto de Priština  no Kosovo e o ocupassem, antes que tropas da OTAN chegassem pelo sul, o que foi feito. Wesley Clark deu a ordem ao general britânico Mike Jackson, e a única razão pela qual não nos lembramos de 1999 como o maior confronto direto entre russos e exércitos da OTAN é que Jackson recusou-se a cumprir a ordem de atacar. Iéltsin então, dando-se conta de que seria quase impossível a entrada, por ar, de reforços de países pró-OTAN, resolveu entregar o aeroporto.

Assim sendo, sim, verdade é que a Rússia fez bem mais que “só reclamar” em 1999. A Rússia tentou um movimento mal concebido e mal executado, de último momento, mas sinceramente empenhado, para garantir uma área ocupada pelos russos no Kosovo, para defender os sérvios. Não deu certo, mas tentar é muito diferente de nem tentar.

Como sabemos, na Síria a Rússia também fez muito mais que só reclamar. Ao contrário do que Clinton esperava três anos antes, a Rússia, em 2015, entrou em guerra, na Síria.

Minha opinião é que o fator que possibilitou a intervenção russa na Síria foi a intervenção dos EUA, iniciada um ano antes, na Síria, contra o ISIS. Desde 2011 a CIA apoiava a rebelião islamista contra o governo sírio. Mas depois que ISIS e rebeldes separaram-se no final de 2013, e da rápida expansão do ISIS para o Iraque ocidental no início de 2014, o Pentágono dos EUA entrou na guerra contra o ISIS, primeiro no Iraque e uns poucos meses depois, em menor extensão, também na Síria.

Com isso os russos puderam intervir, eles também, claramente, aos olhos do mundo e também aos norte-americanos, sem se mostrar em oposição direta aos objetivos dos EUA –, quando de fato não estavam nessa oposição. Militarmente, os russos, Moscou poderia demonstrar, lá estavam para fazer o que os próprios militares norte-americanos faziam, a saber, combater contra o ISIS, embora os russos fossem mais ativos e também combatessem contra al-Qaeda e seus aliados. Em vez de a intervenção russa opor-se diretamente à intervenção norte-americana, os russos – porque de fato havia duas intervenções norte-americanas separadas operando em projetos cruzados –, os russos se posicionaram num ângulo de 90 graus em relação ao que os EUA faziam lá.

De fato, acho que Moscou foi à Síria tanto para frustrar os planos norte-americanos de ‘mudar o regime’, como para forçar os EUA a engajar-se e lidar com os russos, e reconhecer a presença russa como presença parceira, não importa o quanto houvesse de ressentimento nessa ‘parceria’, em certo sentido. Essa estratégia pareceu promissora inicialmente, quando a Rússia gerou alguma boa-vontade internacional, ao combater contra o ISIS quando o grupo atacou Paris, e depois novamente quando Lavrov e Kerry em setembro de 2016 conseguiram chegar a um acordo para expandirem, conjuntamente, a guerra contra al-Qaeda, mas acordo que foi logo sabotado por atores dentro do Pentágono, especificamente pela Força Aérea.

Em retrospecto, essa estratégia de forçar Washington a engajar-se em alguma ‘parceria’ jamais teria qualquer chance de funcionar, mas valia uma tentativa naquele momento, com a inteligência então disponível.

De um modo ou de outro, fato é que a intervenção russa caminhou diretamente contra os esforços da CIA (e em menor extensão, também contra os esforços do Pentágono) que contava com armar os rebeldes. Também caminhou contra as esperanças e sonhos dos liberais dos mísseis cruzadores ocidentais, que se autoenganavam com o mesmo empenho de sempre, na crença de que os rebeldes jihadi valiam o que custavam e representariam alguma melhoria em relação ao governo secular.

Também é fato que os russos venceram essa disputa e que a ‘mudança de regime’ comandada por jihadistas foi contida e derrotada. Simultaneamente, o ISIS foi eliminado, de modo que hoje Rússia e Pentágono já não têm objetivo militar partilhado, o que torna as duas forças muito mais claramente opostas uma à outra do que no começo.

A diferença entre as tentativas dos russos para se fazerem presentes na Iugoslávia em 1999 e na Síria em 2015 nunca esteve na ousadia. Em tese, o movimento de tentar e bloquear a entrada da OTAN num aeroporto e no norte do Kosovo foi muito mais ousado do que se pôr a bater no ISIS mais de 12 meses depois de os EUA já estarem fazendo precisamente isso.

A diferença entre o sucesso na Síria e o fracasso no Kosovo foi o timing. Por mais que Hillary insista em que os russos teriam “laços étnicos e políticos genuínos com os sérvios”, simplesmente não é verdade. Belgrado e Moscou não foram aliados durante a Guerra Fria e não foram aliados nos anos 1990s, quando a Iugoslávia viveu uma década como pária, e Yeltsin, como fantoche de Washington.

Qualquer tentativa de último instante em 1999 para frustrar planos da OTAN e apoiar com firmeza os sérvios fracassaria, porque não havia qualquer plano, nem qualquer força posicionada com antecedência. Chegada por ar, sobrevoando países pro-OTAN nunca funcionaria. Para que o movimento de Moscou tivesse alguma chance, qualquer chance, teria de haver navios para transporte de tropas já ancorados no Adriático. Mas isso teria exigido exatamente a capacidade de se antecipar e a independência que não havia no governo de Yeltsin nos anos 1990s.

Bem diferente disso, na Síria havia menos urgência, mas também muito importante e diferente de inexistentes laços entre russos e iugoslavos, entre russos e sírios, sim, havia e há laços reais. Esses dois fatores explicam que os russos se tenham envolvido desde o início, quando ainda havia muito tempo para virar o jogo.

Eis porque acho que a recente pequena missão militar russa à Venezuela é tão importante. Na Iugoslávia, a Rússia só entrou depois que a OTAN já entrara e perdeu, porque era tarde demais. Na Síria, a Rússia também deixou que o Império entrasse primeiro, mas mesmo assim venceu, porque as circunstâncias eram outras e favoreceram os russos. Mas tudo sugere que, na Venezuela, a Rússia não tenha qualquer intenção de permitir que os EUA entrem antes dela. Dessa vez, a primeira força militar no teatro é russa.

Os russos dizem que seria visita já regularmente agendada sob acordos de indústria e defesa vigentes há dez anos, mas a mídia russa espertamente logo viu que, fosse esse o caso, o mais natural seria mandar para lá técnicos civis e empresas da Defesa, não soldados das Forças Terrestres e, temporariamente, até o seu vice-comandante. O mais provável é que tenha sido enviado pessoal militar porque se trata de missão militar.

Estou certo de que a Rússia não estenderá à Venezuela qualquer tipo de proteção de guerra, (como foi feito para Cuba, nos anos 1960s), nem suponho que venham a ser enviados sejam quantos forem soldados para combater e defender os venezuelanos contra qualquer possível invasão pelos EUA, dentre outras razões porque seria procedimento vão e contraproducente.

Mas acho que é bastante possível que Moscou tenha decidido frustrar um ataque militar direto pelos EUA, ou, em outras palavras, ajudar a detê-lo, apoiando os venezuelanos do mesmo modo como a URSS apoiou vários militares africanos durante a Guerra Fria. Vale dizer: com número mínimo possível de especialistas altamente treinados para tarefas não de combate, de multiplicar forças chaves.

Os próprios norte-americanos já trabalham com a hipótese de as tropas russas na Venezuela incluírem ciberespecialistas e engenheiros e outros técnicos especialistas em reparos nos S-300. Outra possibilidade é que tenham sido enviados para a Venezuela especialistas em guerra eletrônica e inteligência de sinais.

Mas mais importante que o papel exato que os russos planejem desempenhar na Venezuela, é o fato de que – repito – os russos lá chegaram antes dos norte-americanos. Não significa que lá permanecerão para sempre. Se as coisas se acalmarem, ou se os russos sentirem que faz sentido se retirarem, ok, mas o que se deve extrair disso é que Moscou parece ter aprendido uma lição muito importante da Iugoslávia e Síria: se você deixar os EUA chegarem primeiro ao cenário, depois não reclame.

Dessa vez, quando estiverem para decidir a favor de guerra aérea, os norte-americanos ou gente como Mike Pompeo não terão o benefício de que gozou o predecessor de Pompeo, em 2012. Já saberão que os russos provavelmente estarão lá, numa ou noutra função. E, claro, com uma ou duas surpresas guardadas na manga.

Em Oriente Mídia | Tradução do Coletivo Vila Mandinga

*anima o site Checkpoint Asia), para o The Saker blog

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