O Tribunal Central Criminal de
Lisboa começa esta segunda-feira a julgar um cidadão marroquino acusado de
pertencer ao grupo Estado Islâmico e de recrutar operacionais em Portugal.
A primeira sessão do julgamento
está marcada para as 9h30, no Campus da Justiça, e servirá para ouvir
Abdessalam Tazi, 65 anos, que se encontra em prisão preventiva desde 23 de
março de 2017 na cadeia de alta segurança de Monsanto, em Lisboa.
Lopes Guerreiro, advogado do
arguido, disse que o seu constituinte irá prestar declarações "com o
exclusivo propósito de demonstrar, uma vez mais, que nada tem de ver com
terrorismo, com ligações ao Estado Islâmico, com recrutamento e financiamento
de terroristas ou com idas à Síria".
O arguido responde por oito
crimes: adesão a organização terrorista internacional, falsificação com vista
ao terrorismo, recrutamento para o terrorismo, financiamento do terrorismo e
quatro crimes de uso de documento falso com vista ao financiamento do
terrorismo.
A 22 de junho de 2018, o juiz Ivo
Rosa, do Tribunal Central de Instrução Criminal (TCIC), pronunciou (decidiu
levar a julgamento) o arguido apenas por um crime de falsificação de documento
(relativo à falsificação do passaporte) e por quatro crimes de contrafação de
moeda (relativos ao uso de quatro cartões de crédito falsos), que nada teriam a
ver com terrorismo ou com ligações terroristas.
O Ministério Público (MP)
recorreu para o Tribunal da Relação de Lisboa que, em novembro do ano passado,
revogou a "decisão instrutória" do juiz Ivo Rosa e ordenou que
"fosse substituída por outra que pronuncie (leve a julgamento)"
Abdessalam Tazi pelos oito crimes que constam do despacho de acusação do MP,
por "entender estarem fortemente indiciados os factos descritos na
acusação".
Segundo a acusação do MP,
Abdesselam Tazi deslocou-se várias vezes ao Centro de Acolhimento para
Refugiados, no concelho de Loures, para recrutar operacionais para esta
organização, prometendo-lhes mensalmente 1.800 dólares norte-americanos (cerca
de 1.500 euros).
Abdesselam Tazi fez-se sempre
acompanhar por Hicham El Hanafi, que havia radicalizado e recrutado em
Marrocos, antes de ambos viajarem para a Europa. O MP diz que o processo de
refugiado, os apoios e a colocação em Portugal deste suspeito foram idênticos
aos do arguido, tendo ambos ficado a viver juntos no distrito de Aveiro.
"Pelo menos a partir de 23
de setembro de 2013, a
principal atividade desenvolvida pelo arguido em Portugal consistia em auxiliar
e financiar a deslocação de cidadãos marroquinos para a Europa e em obter meios
de financiamento para a causa 'jihadista'", indica a acusação do
Departamento Central de Investigação e Ação Penal.
O MP conta que Abdesselam Tazi
"passou a visitar regularmente" o Centro de Acolhimento para
Refugiados (CAR) "para dar apoio às pessoas em relação às quais organizara
a sua vinda para Portugal e outros migrantes jovens que pudessem ser
radicalizados e recrutados para aderirem ao Daesh" (acrónimo árabe do grupo
extremista Estado Islâmico), procurando convencê-las de "que teriam uma
vida melhor se aderissem ao Daesh e fossem viver para a Síria".
Lusa | em TSF | Foto: Artur
Machado / Global Imagens
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