Brás Cubas, opinião | Correio Mercantil - Página Um
Escrevo-vos não da vida, mas da morte; não da eternidade dos ideais, mas da transitoriedade das vontades políticas. Digo-vos isto como quem já viu a glória e o esgoto, o templo e o Parlamento, o busto de bronze e o excremento de pombo – e de tudo isto fica o limo, e do homem, um decreto. Foi assim que soube, entre vapores de éter e suspiros da eternidade, que Carlos Moedas, esse sátrapa bem-penteado da capital lusitana, autorizou o corte do arvoredo da Avenida 5 de Outubro para ali fazer — não, não uma ágora, não um jardim filosófico, não um templo de contemplação estoica — mas um parque de estacionamento.
Sim, minhas floridas donzelas e frondosos cavalheiros, todos vós de ramos aparados e sombras generosas: um parque de betão e aço. Nada mais prosaico, nada mais carbonífero, nada mais virado à catedral do tubo de escape. E, para cúmulo da ironia, tal desflorestação ocorre sob o pretexto de preparar a cidade para um futuro mais verde, mais ecológico, mais sustentável. Como se a clorofila brotasse do alcatrão e a sombra crescesse nas franjas de um pilarete. Como se um Nero reciclasse as cinzas de Roma para plantar papoilas saltitantes.
Ah, e lá se decepam uns jacarandás! Jacarandás! Que árvores de nome sonoro, flores de lilás melancólico, sombra de poeta reumático! Se me tivesse dado queda para a poesia, que poderia dizer desta minha vizinha enraizada de Pindorama, com raízes mais antigas que muitos mandatos? Que contam estas sentinelas de pétala em riste por penhor à plêiade Maia, memórias pegajosas na calçada, testemunhas mudas de Primaveras repetidas e revoluções esquecidas. Ninguém lhes ensinou jamais a falar, mas calam com elegância: no estio, murmuram brisas de consolo; no Inverno, vertem silêncios densos.
Oh! jacarandás, mas vós que tingíeis as avenidas de púrpura crepuscular, sereis cortados como se fôsseis hérnias no plano urbanístico, espinhas dorsais no raio X de um arquitecto sem alma, verrugas transverais no queixo tecnocrático de um alcaide. E a vossa madeira nem servirá sequer para banco de jardim — será esfarelada em pó de esquecimento, talvez para alimentar algum canteiro estéril de compensação ecológica. A cada queda vossa, não ressoará apenas o estalido da madeira — ecoará o fracasso de uma civilização que troca a sombra pela vigilância, o perfume pela eficiência, o mistério pelo manual de normas técnicas.
Deixemo-nos de lirismo, e sigamos o pragmatismo de Carlos Moedas. Nada disto é novo. Desde os jardins suspensos da Babilónia que os poderosos erguem e derrubam flora ao sabor de caprichos, mas sempre com argumentos de futuro ou de eficácia. Nabucodonosor ergueu para uma esposa melancólica o que Moedas destruiria por um arruamento em espinha de peixe. É essa a diferença entre os tiranos de outrora e os gestores de agora: os primeiros decepavam por amor, os segundos por mobilidade.
Luís XIV, por exemplo, não hesitou em mandar abater tílias e faias centenárias nos jardins de Versalhes sempre que a geometria barroca lhe parecia bem, ou mal— uma árvore, para o Rei-Sol, não era mais do que uma sombra desobediente em plano deslocado. Napoleão, esse pequeno César com pressa, devastava clareiras para as suas tropas avançarem com cadência imperial, cortando vegetação como quem abre linhas de infantaria. Mao Tsé-Tung, no seu zelo pela pureza socialista, ordenou a destruição de zonas arborizadas na campanha contra os “quatro males” — o rato, a mosca, o mosquito e o pardal, todos contra-revolucionários.
Estaline, por sua vez, fiel ao seu ideal de grandeza geométrica, converteu laranjais e pomares uzbeques em desertos brancos de algodão — não por alergia ao cítrico, mas por fé na planificação. E no Egipto do século XIX, o Khedive Ismail, ansioso por transformar o Cairo numa Paris do deserto, mandou arrasar palmeirais ancestrais para abrir avenidas com nomes franceses, apagando a sombra e a história em nome do estilo.
Relativizemos na dimensão, mas consideremos relevante a ironia cósmica em se arrancar jacarandás na 5 de Outubro — data que celebra a implantação da República, essa madrinha das promessas não cumpridas. Acredito que haja, aqui, um gesto litúrgico de Moedas: o sacrifício simbólico da natureza perante o altar da tecnocracia.
Que diria Epicuro, que procurava nos jardins a felicidade moderada, ao ver que até os jardins são agora planificados por engenheiros de tráfego e asfaltados por tratados de urbanismo sem alma? Onde antes florescia a contemplação, ergue-se agora a buzina; a orquídea substituída pela rotunda; a sombra, pela iluminação LED de vigilância inteligente; o banco de pedra, pela estação de carregamento; o chilrear dos pardais, pelo bip da validação do passe. Substitui-se o belo pelo útil, o lento pelo mensurável, o vivo pelo funcional. Os jacarandás, esses, jamais cabem nesse plano — nem nas vagas do parque, nem no horizonte de Moedas. Porque em vez de florir todos os dias, só sabem estar. E isso, hoje, é imperdoável.
Calma — alguém me diz: Carlos Moedas, com o seu sorriso de algoritmo e voz de café de cápsula a quem injectaram hélio, promete plantar outras árvores. Duas centenas a troco de 20 cortes. Sempre prometem. E, curiosamente, dizem a verdade. Só que o problema da política já nem é a mentira — é a postergação. Há sempre um plano de reflorestação algures numa penúltima página, um compromisso firmado com 2030 (ano cabalístico que serve para tudo) no horizonte, uma neutralidade carbónica prometida com ar de oração laica, mas que ninguém verá. Ou verá, talvez, de forma diferente — no PowerPoint ou na realidade aumentada da Web Summit.
Os jacarandás cortados, esses, já cá não andarão. E quem os viu em Maio do ano passado, desabrochados como pensamentos lilases no meio da cidade, não os verá este ano, nem no próximo, nem naquele a seguir ao próximo. Porque o plano de plantio fica, primeiro, a aguardar parecer da Direcção-Geral dos Registos de Canteiros e Paisagens. Depois há um atraso no viveiro florestal — culpa de um fungo exótico ou de uma greve de escaravelhos. A seguir descobre-se que os canteiros previstos coincidem com o traçado de um novo corredor ciclável, ainda por aprovar em consulta pública. Mais tarde, o jardineiro municipal é deslocado para uma missão urgente: regar palmeiras numa rotunda em Alvalade por causa da visita do embaixador da Papua Nova-Guiné.
E como se não bastasse, surgem três ou quatro variações climáticas ou intempéries meteorológicas — uma seca, uma chuvada e um tornado de nome Ezequiel ou um furação de nominata Zedequias — e, ao fim de uma década, o legado verde resume-se a meia dúzia de arvorezinhas esquálidas, com o tronco torto, folhas tímidas e ar de quem pede desculpa por existir. À volta delas, uma placa oficial, novinha em folha, proclama com orgulho que “Lisboa está mais verde!” — e está: verde de raiva.
Dir-me-ão que exagero, que Lisboa tem outras árvores, outras avenidas. Sim, como Roma tinha outros mártires. Mas não é de quantidade que falo: é de símbolo. Os jacarandás não são apenas árvores: são um calendário natural que marca a chegada de dias mais longos, mais lentos, mais líricos. São a resistência à lógica do imediato. Arrancá-los para fazer caber mais automóveis é como substituir o fado por sirenes.
Dizem-me que o futuro é eléctrico. Mas que adiantam carros a hidrogénio se o espírito é a carvão? Que importa a energia verde se a alma é cinzenta? E por que razão se acredita, com tão olímpica convicção, que uma cidade precisa mais de um estacionamento do que de uma árvore? Mas Carlos Moedas não governa corações — governa fluxos; não governa afectos — governa algoritmos; não governa silêncios — governa mobilidade. A cidade de Moedas não respira — circula. Não contempla — optimiza. E quando uma árvore se interpõe entre um automóvel e o seu destino, não é sombra que oferece, mas resistência aerodinâmica.
Sinto que neste corte dos jacarandás ecoa o velho conflito de Antígona. Não, não há cadáveres humanos — mas há irmãos vegetais, tombados sem honra, privados de sepultura digna, esquecidos por entre actas de vereação e relatórios ambientais forjicados. Os jacarandás são os vossos Polinices lilases, abatidos por decreto. E vós — vós que passais indiferentes, que aceitais em silêncio a substituição da sombra pela faixa de rodagem — sois o coro trágico desta cidade, que tudo observa e nada impede.
A modernidade alfacinha é o novo Creonte: racional, eficiente, burocrático… e cruel. Não mata por ódio, mas por cálculo. Não proíbe enterros, apenas adia plantações. E nesse compasso de espera entre o corte e a promessa, entre a árvore e a maqueta, consuma-se a tragédia urbana — sem lágrimas, sem hinos, sem memória. E tudo assim se conjugará numa catástrofe inevitável, apesar de um edil confiante nas promessas e na visão de que a ‘sua’ ordem, na ‘sua’ cidade, está acima dos afectos e da beleza. Pode até ser que os lisboetas se soergam deste sono letárgico embalado pelas moto-serras do progresso — mas acho que, nesse dia, tal como o último cortado jacarandá, quando quiserem culpar Moedas, ele já cá não andará…
Até breve, e um piparote.
* Brás Cubas
N.D. Correio Mercantil foi um periódico brasileiro do século XIX (1848-1868), onde o grande Machado de Assis deu os seus primeiros passos. O PÁGINA UM registou-o como marca nacional no Instituto Nacional de Propriedade Industrial. O autor desta crónica, Brás Cubas, é obviamente um pseudónimo, constituindo não uma homenagem ao fidalgo e explorador portuense do século XVI, que fundou a vila brasileira de Santos, mas sim a Machado de Assis e ao personagem de um dos seus mais famosos romances. Tal não deve ser interpretado como sinal de menor rigor, independentemente do carácter jocoso, irónico ou, claro, sarcástico.
As imagens foram produzidas com recurso a inteligência artificial.
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