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sábado, 4 de fevereiro de 2017

DE PINOCHET A TRUMP



Entre os matadouros humanos do general Augusto Pinochet, no Chile, e o terror anunciado e já iniciado por Donald Trump, expoente capitalista entronizado presidente dos Estados Unidos da América, distam 35 anos.

José Goulão*, opinião

Nesse período proclamou-se o fim da História, transformou-se o mercado no deus absoluto de céus e terra; homens e mulheres maravilharam-se, rendendo-se às novas missangas da tecnologia e da globalização; revolucionaram-se mapas nos quais se desfizeram, nasceram, renasceram e inventaram países.

Para que tais milagres, celebrados em mirabolantes farândolas mediáticas, fossem possíveis liquidaram-se milhões de pessoas, transformaram-se mais milhões ainda em refugiados, o terrorismo expandiu-se como ameaça global, o fosso das desigualdades entre os seres humanos cresceu de modo exponencial, o planeta foi dizimado ambientalmente, os comércios livres de armas, de drogas e de dinheiros sujos funcionam como alavancas clandestinas do poder económico e financeiro; um único exército de mil exércitos controla o mundo.

E, contudo, a crise afectando o sistema que determina a ordem mundial chegou, viu, e teima em resistir a todas as mezinhas. Muitos factos que nos rodeiam indiciam que o sistema de anarquia capitalista global está a atingir o esgotamento do prazo de validade – pelo menos nos padrões de funcionamento mais usados – e procede agora a correcções de rota, neste caso um visível regresso às origens.

É aqui que se dá o encontro entre Augusto Pinochet e Donald Trump, irmanados prosaicamente pelo fascismo político, redescoberto como a solução que resta, e a mais garantida, de fazer funcionar o fascismo económico e financeiro inerente à plenitude neoliberal.

O neoliberalismo, que tem sido entendido como estado supremo e bem-aventurado do capitalismo, no qual o mercado reina sem peias sociais e de dignidade humana, é o primado absoluto da economia do lucro máximo e da liberdade de especulação financeira
A primeira experiência da passagem à prática das teorias neoliberais renascidas na chamada Escola de Chicago, sob a tutela do seu mestre Milton Friedman, foi o Chile de Pinochet, estabelecido em Setembro de 1973 por acção do golpe militar fascista que derrubou o presidente Salvador Allende e o seu governo de Unidade Popular, legitimados por eleições livres e democráticas.

Os enviados da Escola de Chicago, os chamados «Chicago boys» na sequência do golpe preparado por Henry Kissinger e pela CIA – como outros na mesma época, na América Latina… E também na Europa – tomaram as rédeas da economia chilena sob a protecção de uma feroz ditadura política.

O sanguinário processo deu origem a milhares de democratas assassinados e desaparecidos, sindicatos e partidos dizimados, liberalização absoluta das leis de trabalho e do mercado laboral, privatizações sem limites e a preços de saldo, substituição da segurança social por seguros de saúde para alguns, enfim não é preciso enumerar a longa lista de malfeitorias pois algumas até as conhecemos por experiência própria, via União Europeia.

Da passagem da experiência chilena à institucionalização regimental do neoliberalismo foi um ápice. No Reino Unido, a primeira-ministra Margaret Thatcher, admiradora confessa de Friedman e Pinochet, procedeu a transformações económicas neoliberais sob o enquadramento do sistema político vigente, adaptado às circunstâncias – por isso ficou conhecida como «dama de ferro», devido à maneira como dizimou a vertente social da economia e reduziu a pó o poder sindical, sem hesitar em recorrer a acções de repressão de tipo fascista.

Rumo idêntico seguiu a administração Reagan nos Estados Unidos da América, a partir de 1980, ano em que se iniciou a chamada «revolução conservadora» que trouxe o mundo à situação em que se encontra. Membros da administração de Ronald Reagan e seus discípulos tornaram-se determinantes nas presidências seguintes, tanto sob os rótulos republicano, Bush pai e filho, como democrata – casos da família Clinton e de Obama.

Do mesmo modo, no Reino Unido e através da Europa a política neoliberal instaurada por Thatcher foi seguida, no essencial, pelos trabalhistas como Tony Blair e outros descobridores da «terceira via», de Felipe Gonzalez a Hollande, sem esquecer os sociais-democratas nórdicos e alemães.

Daí que a transformação da Comunidade Europeia em União Europeia, nos anos noventa, se tenha processado, por inteiro, sob os cânones neoliberais, de que são exemplos as destruições dos aparelhos públicos e sociais nos Estados membros, os intermináveis processos de privatizações, de agonia austeritária, de «liberalização» dos sistemas laborais, de ditaduras das dívidas e dos défices.

Eis então que a crise explode em 2009, depois de ter amadurecido durante os primeiros anos do século. É significativo que entre os principais instrumentos de combate ao fenómeno, nos dois lados do Atlântico, tenham estado a degradação ainda mais ostensiva da democracia e a multiplicação de guerras e agressões, ditas “humanitárias” e “democráticas”, nas regiões mais geoestratégicas do globo.

No primeiro período da «revolução conservadora», principalmente na Europa, o sistema de pluralismo democrático foi reduzido ao primado dos chamados «blocos centrais» ou «arcos da governação», cópias mais ou menos aparentadas do sistema bipartidário norte-americano: duas siglas obedientes ao mesmo sistema económico e financeiro e apenas ligeiramente diferenciadas nas práticas política e social.

A partir de 2009, sobretudo na União Europeia, o processo de desvalorização democrática perdeu o pudor e, como hoje podemos testemunhar, o fascismo e a xenofobia afirmam-se sem disfarces perante a cumplicidade, quando não o apoio, de Bruxelas. A Hungria, os Estados do Báltico, a Polónia, a Eslováquia seguem o seu rumo autoritário sem ser incomodados, enquanto todas as antenas da União fiscalizam o exemplo democrático e plural português como algo de anacrónico e desafiador, com os instrumentos punitivos à mão.

Por isso, não têm os agentes da especulação financeira e da exploração económica acastelados nas estruturas da União Europeia qualquer credibilidade para se afirmarem como bastiões de defesa da democracia perante a investidura e as investidas fascistas de Donald Trump.

A xenofobia e o desprezo de Merkel perante os refugiados e os povos do sul da Europa, a aliança institucional de Renzi com a extrema-direita berlusconiana em Itália, os despropósitos de Hollande ao governar há mais de um ano na arbitrariedade do estado de excepção, enquanto vai cumprindo a agenda social da família Le Pen pretensamente para travar o passo a Marine Le Pen, são maneiras mais ou menos encapotadas de estar em sintonia com Trump. Porque, além disso e como sabemos perante abundantes exemplos, a construção de muros, cercas e fossas anti-refugiados é uma prática europeia prévia à emergência de Trump; e também nada obstou a que a União Europeia fosse parte activa na concretização do golpe fascista na Ucrânia, apresentado como «revolução democrática», e nas guerras que destruíram países como o Iraque, a Líbia e a Síria.

Aliás, toda a argumentação dos governos europeus tentando harmonizar as declarações de fidelidade à NATO e a suposta contestação a Trump caem pela base sabendo-se que o mesmo Trump é, sem tirar nem pôr, o comandante supremo da NATO.

O ingresso de Donald Trump na Casa Branca aparenta ser um regresso do neoliberalismo à experiência original. Embora, visivelmente, a prática do novo presidente norte-americano esteja a suscitar contradições – que são mais inquietações – em alguns círculos do grande poder capitalista norte-americano e transnacional, os seus métodos parecem ser necessidades objectivas para a sobrevivência do neoliberalismo perante a crise, sob a ameaça de esgotamento dos efeitos temporariamente favoráveis da globalização, do aviltamento da democracia e do recurso à multiplicação de guerras.

A afirmação brutal de um nacionalismo norte-americano fundamentalista, tradicionalista e doentio, em busca da recuperação de galões económicos perdidos na globalização e no neoliberalismo exercido em tons formalmente democráticos, coloca-o em confronto com outros nacionalismos tradicionais ou renovados, recriando cenários tragicamente semelhantes aos que antecederam a Primeira Guerra Mundial.

Acresce que Donald Trump não é um «engano» do establishment norte-americano. Nem ele enganou ninguém para chegar onde chegou. Foi como candidato com programa fascista e ultra-nacionalista que foi eleito presidente, dentro do funcionamento normal do sistema político – mesmo com minoria de votos, como aliás já sucedeu em outros casos nos Estados Unidos, e também em países europeus. Sabemos ainda, como regra geral, que a vontade real das maiorias poucas vezes se casa com a democracia.

Como talvez nenhum outro presidente norte-americano, Trump entra a cumprir o que prometeu, não se esconde em eufemismos nem discursos redondos. Surpreendente é que tantas almas mainstream se declarem agora estupefactas e continuem a acreditar que existem dissonâncias entre Trump, o establishment e o próprio neoliberalismo – quando têm todos, e sempre, a mesma essência: poder absoluto do mercado, ganância de lucros sem limites, exploração máxima, direitos humanos zero, especulação financeira sem barreiras.

O que a chegada de Donald Trump à Casa Branca demonstra, em primeiro lugar, é que o neoliberalismo deu como esgotada a etapa de convívio com a democracia – ainda que precária – e, nas condições actuais, liga a sua própria sobrevivência ao autoritarismo político, no limite o próprio fascismo. Aqui chegou o estado supremo do capitalismo.

Posto isto, enquanto Donald Trump e Augusto Pinochet selam simbolicamente a sua cumplicidade, grande borrasca paira sobre o mundo. Quando um ciclo se fecha, outro deverá estar em formação. O problema mais inquietante são as circunstâncias do ponto de partida.

Trump não é um fenómeno, um erro ou engano; é uma consequência natural de um sistema acossado por uma crise renitente que resiste a terapias cada vez mais extremas.


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