Drop Down MenusCSS Drop Down MenuPure CSS Dropdown Menu

terça-feira, 12 de novembro de 2013

A AMBIGUIDADE FEITA CULTURA POLÍTICA

 

Martinho Júnior, Luanda
 
1 – Os relacionamentos entre Portugal e Angola estão repletos de exemplos daqueles que, sendo dirigentes em Portugal, foram evidenciando ao longo dos tempos posições ambíguas senão mesmo retrógradas, contribuindo para ferir ou manchar os relacionamentos bilaterais depois da independência de Angola.
 
Algumas vezes essas posições ambíguas foram levadas avante a coberto de outros interesses; noutros casos elas dão sinais do carácter de quem as produz, das linhas com que se conduzem e sempre dos interesses que representam.
 
A ambiguidade, é preciso que se diga, tem surgido por parte de alguns daqueles que professam a social-democracia (no quadro do PS, ou do PSD), mas também mais “à direita”, no CDS (basta constatar os “Jogos Africanos” de Jaime Nogueira Pinto).
 
Esses exemplos contrastam com a coerência histórica do Partido Comunista Português no seu relacionamento com o MPLA e por tabela com Angola.
 
Privilegiando o trabalho e os trabalhadores, o PCP contribui para consolidar bem no eixo as políticas de respeito mútuo e amizade entre os dois povos, completando a coerência antropológica.
 
É evidente que a ambiguidade está ao serviço também da NATO e, quando os dirigentes portugueses procuram ampliar as relações militares já existentes, parece que só alguns dos militares angolanos têm dificuldade em perceber isso: parece que não bastou o emprego massivo de material da NATO por parte de Portugal fascista e colonial, enquanto duraram as campanhas contra a luta pelas independências das ex-colónias portuguesas!
 
2 – As ambiguidades não se ficaram por aí e foram marcando seu percurso em muitos processos de relacionamento.
 
Durante o período decisivo da descolonização por exemplo, Mário Soares assumiu uma das primeiras ambiguidades: sem se importar que a orientação de Henry Kissinger levasse as operações militares da CIA para dentro de Angola nas disputas pela independência (“Operação Iafeature”, segundo seu comandante John Stockwell), ao fazer tábua rasa disso insistiu nos Acordos de Alvor, enquadrando por seu turno a orientação de Frank C. Carlucci e dos interesses que ele representava…
 
Isso influenciou a sua conduta durante a luta contra o “apartheid” e só houve alguma aproximação quando, com a volatilização do bloco socialista, se desencadearam na África Austral os processos elitistas característicos da globalização neo liberal!
 
Pelo meio ficou o apego a Savimbi e, dizem alguns, aos seus “diamantes de sangue”…
 
3 – Este 11 de Novembro, data em que se comemora o 38º aniversário da independência de Angola, os actos centrais vão ser assinalados em Benguela e por isso é justo recordar alguns factos do passado que se reportam já à história de Angola independente e de alguns episódios referentes aos seus relacionamentos externos envolvendo a África do Sul e Portugal.
 
Em Agosto de 1982 era Adido Militar da Embaixada do regime racista da África do Sul em Lisboa o oficial da Marinha de Guerra Sul-Africana, Jacobus Everhardus Louw.
 
Nessa altura e tendo essa personagem como figura de referência, os jornais portugueses deram a conhecer o desencadear da “Operação Cubango” por parte dos serviços de inteligência BOSS-NIS em Lisboa, operação essa que em primeira análise procurava semear a confusão em direcção a diversos organismos do estado angolano, através de processos deliberadamente forjados e publicamente manipulados.
 
Alguns dados da “Operação Cubango” tiveram de ser identificados pela inteligência angolana, tendo desempenhado um papel relevante em relação a isso, em Lisboa, o oficial angolano Caetano Francisco, já falecido, por que não houve outra forma de o fazer.
 
Por essa altura e sob essa “cortina de fumo”, Jacobus Everhardus Louw, tirando partido dos relacionamentos históricos entre o fascismo-colonialismo português e o regime de “apartheid” na África do Sul, procurou ainda recrutar cidadãos portugueses a fim de trabalharem em proveito da BOSS-NIS (serviços de inteligência do regime do “apartheid”) em Angola, em busca de informação de interesse de vária ordem, a começar pelo interesse militar.
 
Entre esses cidadãos acabariam por ser detectados em Angola, por parte dos serviços de inteligência angolanos, Amílcar Fernandes Freire, cidadão português na altura contabilista da África Têxtil (em Benguela), Francisco Alberto Albarran Barata, cidadão português, Despachante Oficial no porto do Lobito e o angolano Agatão Dongala Kamati, do Lubango.
 
O velho Amílcar chegou a treinar técnicas de comunicação e cripto em instalações da BOSS-NIS próximo de Pretória, aproveitando a cobertura duma das suas viagens a Portugal e o Albarran Barata acabou por ser recrutado “por terceira bandeira”, pois julgava que estava a prestar informações aos Estados Unidos.
 
A rede, entre as várias missões que recebeu, levou a cabo recolha de informação sobre o trânsito de cabotagem naval, incidindo sua atenção sobre os navios que transportavam material de guerra ao longo da costa angolana, entre eles o “Habana” que estava activo na logística militar comum Angola-Cuba.
 
A inteligência sul-africana e o 4º Recce sedeado em Saldanha Bay, seguiu a deslocação do “Habana” até Luanda e, na impossibilidade de o atacarem por via de homens-rãs, colocaram cargas explosivas no “Lundoge” (navio mercante angolano) e no “Arendsee” (navio mercante que navegava com pavilhão da República Democrática Alemã).
 
A rápida intervenção das autoridades portuárias de Luanda tendo o então director do porto à cabeça das operações, conseguiram amarrar o “Lundoge” a um dos molhes do porto, de modo a que não afundasse por completo e encalharam o “Arendsee” num areal da ilha de Luanda.
 
Entre os oficiais que deram o seu contributo para salvar os navios esteve o já falecido Pitagrós.
 
Entre os oficiais que participaram no processo contra a rede da BOSS/NIS instalada nas Províncias de Benguela e da Huila esteve José Vale, também já falecido, um dos oficiais que mais havia contribuído para desvendar as acções dos serviços de inteligência do “apartheid” para dentro do território angolano.
 
4 – Os três elementos da rede ao serviço da BOSS/NIS foram condenados pelo Tribunal Popular Revolucionário de Angola à pena de morte, mas a sentença foi comutada pelo Presidente da República de Angola, José Eduardo dos Santos em Agosto de 1986, pois sob sua direcção, na altura já se faziam esforços no país para a abolição da pena de morte.
 
Jacobus Everhardus Louw esteve a cumprir a sua missão de Adido da Embaixada Sul-Africana em Lisboa de 1980 a 1983, o ano em que Mário Soares iniciou suas obrigações de Primeiro-Ministro, no âmbito do IXº Governo Constitucional, sucedendo ao Primeiro Ministro Francisco Pinto Balsemão (VIIº e VIIIº governos constitucionais), que por sua vez, por morte de Francisco Sá Carneiro, foi sucessor do Primeiro Ministro Interino Diogo Freitas do Amaral (VIº governo constitucional)… quer dizer, enquanto Adido Militar na Embaixada da África do Sul em Lisboa, esteve sempre à vontade!...
 
5 – Mas se com Diogo Freitas do Amaral, Francisco Pinto Balsemão e Mário Soares foi assim no que toca a Jacobus Everhardus Louw em relação a Angola, com Cavaco Silva não seria melhor e, de acordo com notícia de “O Século” de Joanesburgo:
 
A 31 de Março de 2010 “na Embaixada de Portugal, em Pretória, foi o Contra-almirante Jacobus Everhardus Louw, da Armada Sul-Africana, actualmente a comandar a base naval de Simonstown, agraciado com a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique, condecoração que lhe foi entregue pelo embaixador dr. João Ramos Pinto.
 
Segundo ali soubémos, esta condecoração tem a ver com os serviços que o Contra-almirante Louw tem prestado ao Estado Português, nomeadamente na organização da visita à África do Sul da fragata Álvares Cabral, que aqui veio integrado nas Forças da Nato em 2007, da visita do navio-escola Sagres a Cape Town, Port Elizabeth e Simonstown em 2008, e mais recentemente na ajuda que nos concedeu na preparação da visita do Chefe da Armada, Melo Gomes, em 2009, para além de ter sido desde 1980 a 1983 adido militar da África do Sul em Portugal”…
 
Para quem tinha tão abonatória folha na PIDE/DGS, nada custou condecorar um servidor do regime do “apartheid” que, por obra e graça da nova onda de políticas elitistas introduzidas na África do Sul pelo tandem Nelson Mandela / Thabo M’Beki, continuou no activo até à idade da reforma, sem que alguma vez alguém se lembrasse de ressarcir Angola dos danos causados pela inteligência do regime do “apartheid” e seu cortejo de acções com recurso aos comandos do 4º Recce!...
 
6 – Parece evidente que para dirigentes como aqueles que têm assumido o poder ao longo dos últimos governos constitucionais portugueses, quer em função da NATO, quer em função de outros interesses, é muito difícil abandonar políticas de relacionamento para com Angola que recorram a e se sustentam de fórmulas ambíguas capazes de múltiplas interpretações.
 
Sem dúvida que, mesmo que se procurem estratégias comuns entre Portugal e Angola que conduzam a um patamar de parceria de nível elevado, tudo o que é assumido em nome dos governos constitucionais portugueses em relação a Angola é, no mínimo, imprevisível e a velha mentalidade colonial, sobranceira quando não arrogante, estará ainda por várias gerações à espreita de sua oportunidade, quantas vezes sem ser efectivamente em nome dos interesses de Portugal, muito menos do povo português!

Foto: Entrega da Comenda da Ordem do Infante Dom Henrique ao Contra-almirante Jacobus Eevrhardus Louw, por parte do embaixador de Portugal na África do Sul, dr João Ramos Pinto (31 de Março de 2010) – Portugal condecorou o Contra-almirante sul-africano Jacobus Everhardus Louw – http://www.oseculoonline.com/index.php?option=com_content&task=view&id=1682
 
A consultar:
. Mário Soares, Angola e o tráfico de diamantes – http://aventar.eu/2009/07/23/mario-soares-angola-e-o-trafico-de-diamantes/
. Contos proibidos de Rui Mateus – http://ferrao.org/documentos/Livro_Contos_Proibidos.pdf
. CIA operation IA feature – http://www.youtube.com/watch?v=F2l1qpUwkqM
. The Frank C. Carlucci page – http://www.smokershistory.com/Carlucci.htm
. Cavaco admite ter preenchido ficha da PIDE mas não se lembra – http://www.tsf.pt/paginainicial/Portugal/interior.aspx?content_id=1734665
. Amílcar Fernandes Freire consta no Roteiro de Benguela – http://www.cpires.com/docs/roteiro_benguela_1.pdf
A consultar ainda:
. Rapidinhas do Martinho – 14 – Lições para não esquecer – http://paginaglobal.blogspot.com/2011/05/rapidinhas-do-martinho-14.html
. Rapidinhas do Martinho – 53 – Reinventando Maquiavel: Os piores fins justificam os melhores meios – http://paginaglobal.blogspot.com/2011/10/rapidinhas-do-martinho-53.html
. Rapidinhas do Martinho – 65 – Um golpe de estado já com várias legislaturas de longevidade – http://paginaglobal.blogspot.com/2011/11/rapidinhas-do-martinho-65.html
 

Sem comentários: