domingo, 20 de outubro de 2019

REINTERPRETAR O MOVIMENTO DE LIBERTAÇÃO EM ÁFRICA - I



SUBSÍDIOS EM SAUDAÇÃO AO 11 DE NOVEMBRO DE 2019

Uma das maiores deficiências de que sofrem os africanos duma forma geral e os angolanos em particular, é a ausência de reflexão própria sobre os fenómenos antropológicos e históricos afectos ao seu espaço físico, geográfico e ambiental.

Essa falta de vontade e de perspectiva abre espaço ao conhecimento que chega de fora, em prejuízo do conhecimento que tem oportunidade de florescer dentro, ou seja: subvaloriza o campo experimental próprio, quantas vezes para sobrevalorizar as teorias injectadas do exterior!

Isso permite que outros não abram o jogo sobre essas interpretações dialéticas em função de seus interesses, manipulações e ingerências, aplicando a África, por tabela a Angola, as interpretações estruturalistas de feição, de conveniência e de assimilação!


Esta série pretende reabrir dossiers que do passado iluminam o longo caminho da libertação dos povos da América Latina e Caribe, de África e por tabela de Angola, sabendo que é apenas um pequeno contributo para o muito que nesse sentido há que digna e corajosamente fazer!

Abrir os links permite complementar com fundamentos, muitas das (re)interpretações do autor.




01- O movimento de libertação em África comporta lições essenciais que no presente e no futuro não se podem alguma vez perder de vista, pois a sua própria génese e trajectória, tem que ver com a lógica com sentido de vida hoje ainda mais indispensável, pois é já a espécie humana que está em perigo. (http://www.cuba.cu/gobierno/discursos/1992/esp/f120692e.html).

A vida no espaço sul da humanidade é precária e sujeita a todo o tipo de riscos, vicissitudes, obstáculos e desafios, por que um grau elevado de subdesenvolvimento está por vencer e as capacidades exponenciais de África determinam, até agora irremediavelmente, que o continente preencha a cauda dos Índices de Desenvolvimento Humano, conforme aos relatórios anuais da ONU! 


Uma parte dessa situação histórica e antropológica redunda das profundas alterações climático-ambientais em curso, provocadas essencialmente pelo homem desde os alvores da revolução industrial, que foi aliás fundamental para a formulação do expansionismo do império da hegemonia unipolar e seu esteio de aliados, num continente em que a dialética entre as vastidões dos maiores desertos quentes do globo em expansão, e as regiões tropicais ricas em água, obrigam à compressão dos espaços vitais! (https://frenteantiimperialista.org/blog/2019/01/07/africa-dilecto-alvo-neocolonial/).

As milenares culturas de nomadização deslocam-se e disputam espaços vitais nas áreas onde são dominantes as culturas de sedentarização vocacionadas para a recolecção e a autossubsistência, um fenómeno agravado hoje pelas desenfreadas disputas pela detenção das riquezas naturais e minerais num planeta cada vez mais esgotado, respondendo a estímulos multiplicados (em função das necessidades das novas tecnologias), desde fora do continente. (https://paginaglobal.blogspot.com/2019/05/africa-da-inercia-catastrofe-martinho.html).

De facto a luta pela água já se colocava há milhares de anos conforme à gestação e afirmação da civilização egípcia, que se estendia ao longo do fértil Nilo e era alvo de pressões a oeste, a sul e a leste, por parte de culturas nómadas ávidas de conquista de espaço vital. (https://pt.wikipedia.org/wiki/Antigo_Egito).

Os estímulos de hoje provenientes de fora do continente por seu turno, mantêm África numa ultraperiferia dependente, reduzindo-a à “inerte” impotência estritamente vinculada à indústria extractivista e pouco mais, desde um tabuleiro arquitectado pela poderosa mão colonial da Conferência de Berlim que sem remissão não teve em conta as legítimas aspirações dos povos africanos, (secularmente explorados e subjugados), à vida, à liberdade, à independência, ao exercício de sua própria soberania, ao desenvolvimento abrangente! (http://paginaglobal.blogspot.pt/2017/10/irracionalidade-humana.html).


02- A luta armada do movimento de libertação em África teve ética e moralmente que ocorrer por que o colonialismo foi renitente, retrógrado, repressivo e contra a vida dos povos africanos, mantendo a vontade de a todo o custo oprimir tal como aconteceu desde logo na afirmação da génese em Berlim, com reflexos nocivos até aos nossos dias! (https://www.dw.com/pt-002/confer%C3%AAncia-de-berlim-partilha-de-%C3%A1frica-decidiu-se-h%C3%A1-130-anos/a-18283420).

A escravatura dos africanos e afrodescendentes na América, arrancados à força do próprio berço da humanidade e transportados à força para o outro lado do Atlântico, deu azo apenas, a partir de Berlim, a métodos que aparentavam ser de refinamento, mas no fundo garantiram continuidade ao exercício do poder dominante sobre o próprio terreno-alvo desse exercício, instrumentalizando sobre o corpo inerte de África as motivações insaciáveis, inadiáveis e típicas das exigências da revolução industrial acrescida, de há algumas décadas a esta parte, pela revolução das novas tecnologias! (https://operamundi.uol.com.br/politica-e-economia/9977/hoje-na-historia-1885-conferencia-de-berlim-da-fim-aos-conflitos-coloniais-na-africa).

O colonialismo (e a sequência neocolonial) continuou a recrutar muito mais músculo humano, a preço de subespécie, na devassa de África, do que a utilizar o requinte das máquinas nessa perversa devassa e esse quadro em muito pouco foi alterado com as independências de bandeira! (http://paginaglobal.blogspot.pt/2017/06/vem-ai-mais-seculos-de-solidao.html).

A escravatura, o colonialismo e o “apartheid” não só reprimiam, mas ao não considerar os africanos como seres iguais, não lhes atribuía os mais elementares direitos, inclusive e desde logo o essencial direito à vida! (https://www.angop.ao/angola/pt_pt/noticias/sociedade/2019/1/5/Hoje-celebra-aniversario-Inicio-Luta-Armada,8e6dd86a-2469-44ff-8f0c-69cd7d1a7e32.html).

A “civilização judaico-cristã ocidental” reduziu o homem africano à bestialidade e com isso assumia-se, por mais que cinicamente desse a entender o contrário, como barbárie, incapaz de ver no outro um igual e aceitá-lo como tal, algo que até hoje comporta imensas sequelas! (http://paginaglobal.blogspot.pt/2018/05/os-punhais-sangrentos-de-trotta-e.html).

A Igreja Católica Apostólica Romana com sede no Vaticano, mentora da “dilatação da fé e do império” e por essa via cúmplice de escravatura e colonialismo, até hoje só timidamente, com o Papa João Paulo II, pediu perdão pelos pecadores dessa bárbara trilha sem levar a cabo uma suficiente reflexão própria, frontal e vertical, acerca da opressão e de suas sequelas, protelando sine die um pedido de desculpas sério, inequívoco, digno e de boa-fé, aos povos africanos, aos afrodescendentes espalhados pelo mundo e também aos indígenas da América! (https://www.folhadelondrina.com.br/geral/joao-paulo-ii-e-o-papa-que-mais-pediu-perdao-264746.html).

A “abertura” foi marcada pela Encíclica “Pacem in Terris”, de João XXIII, de 11 de Abril de 1963, quando a luta de libertação em África recorrendo às armas, já levava anos… (http://w2.vatican.va/content/john-xxiii/pt/encyclicals/documents/hf_j-xxiii_enc_11041963_pacem.html).

Para a Igreja Católica, a culpa é dos homens e, quanto à instituição, recorre-se à milenar e proverbial figura de Pilatus mesmo que, Europa fora, os lugares de culto estejam cobertos de riquezas extraídas da exploração a ferro e fogo de África e da América! (https://www.veritatis.com.br/sobre-os-pedidos-de-perdao-do-papa-joao-paulo-ii/).

O Papa Paulo VI recebeu a 1 de Julho de 1970, os dirigentes da luta de libertação em África, (https://www.dw.com/pt-002/o-papel-fundamental-do-papa-paulo-vi-nas-independ%C3%AAncias/a-18305399), vincando a Encíclica “Populorum progressio” (http://w2.vatican.va/content/paul-vi/pt/encyclicals/documents/hf_p-vi_enc_26031967_populorum.html), que enterrou a Concordata do “Estado Novo”, fascista e colonial, de 7 de Maio de 1940, com o Vaticano sob a égide do papa Pio XII (https://pt.wikipedia.org/wiki/Concordata_entre_a_Santa_S%C3%A9_e_Portugal_de_1940https://pt.wikisource.org/wiki/Concordata_de_1940).

Além de João Paulo II, o Vaticano fica-se por partes para melhor se inviabilizar a compreensão do todo! (https://www.dw.com/pt-br/papa-pede-perd%C3%A3o-por-papel-da-igreja-no-genoc%C3%ADdio-em-ruanda/a-38036515).

O Papa Francisco apenas se cingiu em pedido de desculpas até agora, aos indígenas da América!... (https://www.publico.pt/2016/05/26/mundo/noticia/cinco-pedidos-de-desculpa-que-ficaram-na-historia-1733136).

Por essa razão continua por via das mais diversas alienações, ilusões, hipocrisias e cinismos inculcados nos povos e sociedades europeias, americanas e africanas até hoje, a ser quantas vezes e ainda parte do bárbaro problema e não da solução civilizada pela libertação e pela vida! (http://jornaldeangola.sapo.ao/opiniao/artigos/um_holocausto_de_recordacao_permanente).

Paliativos como o reconhecimento do movimento de libertação em África a 1 de Julho de 1970 pelo Papa Paulo VI, não chegam face ao que hoje ainda em rescaldo continua a acontecer em África e na América em relação aos africanos, afrodescendentes e indígenas da América, pese o mérito dos líderes africanos da CONCP e da Fundação António Agostinho Neto! (http://jornaldeangola.sapo.ao/sociedade/recordada_audiencia_do_papa_paulo_vi).

Uma das sequelas dos exercícios hipócritas e meios envergonhados, é por exemplo, a batalha do isolamento e das compensações devidas às pequenas nações insulares do CARICOM, assim como a África, que está inteiramente por concretizar! (https://www.saberesafricanos.net/escuela/talleres-seminarios/3310-conferencia-internacional-sobre-reparaciones.html).

Assim a luta armada de libertação em África, sequência da revolução dos escravos na América e das lutas pela independência que então ocorreram no “novo continente”, reclamava esses direitos fundamentais, reclamava vida e barricava-se na vida para enfrentar os monstros redundantes da Conferência de Berlim e toda a barbaridade de sua presunção nas duas margens do Atlântico! (https://frenteantiimperialista.org/blog/2019/03/11/estado-do-mundo/http://paginaglobal.blogspot.com/2014/02/haiti-aposta-pela-vida.htmlhttp://paginaglobal.blogspot.pt/2014/02/haiti-um-pais-invisivel.htmlhttp://paginaglobal.blogspot.pt/2014/02/haiti-uma-contagiosa-revolucao.html).

Histórica e antropologicamente o movimento de libertação em África, na sua justa luta armada e tendo em conta seus antecedentes, era uma cultura que ao reclamar vida, barricava-se desde logo na vida que era negada e em muitos casos passou a ser uma luta pela própria sobrevivência, tal o grau de vulnerabilidade dos africanos oprimidos e subjugados que por via da luta procuravam alcançar o que a escravatura, o colonialismo e também o “apartheid” impediam: gerir o seu próprio destino em pé de igualdade com todos os povos do mundo! (http://paginaglobal.blogspot.com/2013/11/resgates-com-sentido-de-vida-i.htmlhttp://paginaglobal.blogspot.com/2013/11/resgates-com-sentido-de-vida-ii.html).


03- A lógica com sentido de vida tem essas raízes e foi fecundada na ética e na moral daqueles que, levantando-se do chão dos oprimidos, não tiveram outra alternativa senão pegar em armas e lutar pela sua própria existência e dignidade! (https://paginaglobal.blogspot.com/2019/07/a-transversal-de-paz-da-grande-rebeliao.html).

No caso angolano esse movimento explica a riqueza de sua própria mobilização: o MPLA logo em 1961, início da luta armada, conseguiu aglutinar e chamar a si muitos dos poucos médicos e enfermeiros angolanos de então, dispostos a lutar pela vida nas condições tão difíceis da luta armada, dos exilados, dos refugiados e da diáspora.

Em Kinshasa, a 21 de Agosto de 1961, o MPLA deu vida ao CVAAR, “Corpo Voluntário Angolano de Apoio aos Refugiados”, anos antes da chegada de António Agostinho Neto, ele próprio médico, à sua liderança! (http://www.buala.org/pt/a-ler/corpo-voluntario-angolano-de-assistencia-aos-refugiados).

Da fibra dos médicos que compunham do CVAAR, recordo o apontamento fundamentado e lúcido de Filipe Nzau, sobre Edmundo Vicente Melo Rocha (http://jornaldeangola.sapo.ao/opiniao/artigos/um-freedom-fighter-nas-brumas-do-esquecimento):

“Em 1961, organizou, em Marrocos, o Congresso Constitutivo da União Geral dos Estudantes dos Países sob Domínio Colonial Português (UGEAN).

Em Setembro de 1961, participou da instalação do MPLA em Leopoldville (hoje Kinshasa, capital da República Democrática do Congo) e exerceu medicina no Corpo Voluntário Angolano de Assistência aos Refugiados (CVAAR).

Após a expulsão do MPLA e do próprio CVAAR de Leopoldville, parte para a Argélia, tendo regressado a Angola, com a independência, em 1975.”

… 
Recorde-se a propósito a vida heroica de Deolinda Rodrigues Francisco de Almeida “Langidila”, insigne membro do CVAAR! (http://m.mpla.ao/oma/deolinda-rodrigues).

Recorde-se ainda o exemplo insigne do médico Américo Boavida, morto pelas armas da NATO, a 25 de Setembro de 1968… (https://paginaglobal.blogspot.com/2011/11/ha-50-anos-avioes-da-nato-bombardeavam_16.html).

No Iº Volume da História do MPLA (1940/1966), (http://livrosultramarguerracolonial.blogspot.com/2014/09/angola-mpla-historia-do-mpla-1940-1976.html) a páginas 199 sintetiza-se sobre o CVAAR:

“O início das hostilidades em Angola e o carácter extraordinariamente mortífero da represália colonial determinou o êxodo maciço das populações limítrofes para além da fronteira com o Congo Léopoldville, sem meios de subsistência nem possibilidade de tranalho, a maioria velhos camponeses, mulheres e crianças, tinham necessidade de tudo para manter a sua sobrevivência.

Preocupado com a sorte de seus compatriotas, em Junho de 1961, o Comité Director do MPLA decidiu mobilizar os seus quadros essencialmente médicos, para fundar o Corpo Voluntário Angolano de Apoio aos Refugiados (CVAAR).

O CVAAR não era apenas uma organização filantrópica. Era acima de tudo uma organização política de ajuda médico-social com sede em Léopoldville.

O CVAAR era um organismo autónomo ligado ao MPLA com liberdade de acção no âmbito de sua actividade; pelos seus estatutos possuía a liberdade para agir livremente no seu domínio.

Dedicava-se não só aos problemas médicos, mas também de outros decorrentes das condições precárias em que viviam as populações refugiadas.

Em Outubro de 1961 chegaram a Léopoldville vários médicos que constituíram mais tarde o Corpo Médico do CVAAR, dirigido por Américo Boavida, Hugo de Menezes e Eduardo Macedo dos Santos.

A 7 de Novembro de 1961, na presença de Mário Pinto de Andrade e do vice-presidente do Governo Provincial de Léopoldiville, Gaston Diomi, foi finalmente inaugurado o primeiro dispensário hospital do CVAAR.

O MPLA dispunha na altura de mais médicos que todo o estado congolês e a actividade do CVAAR era uma ajuda para o governo congolês.

Embora a acção social constituísse o objectivo principal, interessava ao MPLA a vocação política do CVAAR.”


04- A vocação do MPLA e do movimento de libertação em África em defesa da vida e da liberdade dos povos, inscrita desde logo na iniciativa e prática do CVAAR em 1961 e nos três anos seguintes (enquanto o império e o neocolonialismo não expulsaram o MPLA do Congo que viria a ser Zaíre), inspirou muitos doadores na Europa e de outros pontos espalhados pelo mundo, constituindo uma das razões da aproximação das vocações da revolução cubana em África, desde logo quando projectou o seu apoio médico à luta de libertação na Argélia, a 24 de Maio de 1963, menos de dois anos antes do encontro do Comandante Che Guevara com a direcção do MPLA em Brazzaville, a 2 de Fevereiro de 1965. (https://www.dw.com/pt-002/da-ilha-de-cuba-para-o-mundo-os-m%C3%A9dicos-cubanos-no-estrangeiro/a-46804295https://dialogosdosul.operamundi.uol.com.br/cuba/50275/a-medicina-cubana-na-argelia).

O Comandante Che Guevara, ele próprio médico, humanista e profundo conhecedor da miséria provocada pela opressão e pelo subdesenvolvimento dos povos na América e em África, trouxe a África não só um aporte imprescindível do diagnóstico da vida nas condições e conjunturas de então, mas também como a luta na barricada da vida, para se poder avançar na luta armada de libertação, para que fosse possível por fim a África, alcançar a plataforma mínima de vida e liberdade que jamais se havia alcançado! (http://pt.granma.cu/mundo/2019-06-20/o-que-fomos-procurar-os-cubanos-na-africa).

A luta de libertação em África e a luta da revolução cubana, solidária e internacionalista, têm tudo que ver com os resgates impostos por séculos de escravatura, de colonialismo e por fim de “apartheid”, bem como de suas sequelas, resgates sublimados de vida contra a morte, resgates autênticos de liberdade contra a opressão, resgates de inequívoca civilização contra a barbárie. (https://paginaglobal.blogspot.com/2015/08/50-anos-de-resgates-comuns.html).

Até hoje essa luta transparente sendo imprescindível em África e na América, aproxima os povos de todos os continentes, mas sobretudo desses dois, que mantêm viva essa vocação de lógica com sentido de vida, uma base incontornável de reinterpretação histórica e antropológica que se deve reflectir hoje e no futuro, em particular benefício das gerações vindouras! (https://paginaglobal.blogspot.com/2015/06/pedagogia-de-luta.html).

Nessa trilha, definir segurança vital é tão indispensável, ou ainda mais que antes!

Assim assumo, se me dão licença, modesta mas dignamente, essa inesgotável prova de vida e de amor por toda a humanidade!

Martinho Júnior -- Luanda, 15 de Outubro de 2019

As fotografias selecionadas do CVAAR, foram recolhidas aqui: http://www.buala.org/pt/a-ler/corpo-voluntario-angolano-de-assistencia-aos-refugiados

MEMÓRIA DA HEROICIDADE INTELECTUAL E HUMANA DE MÁRIO PINTO DE ANDRADE, FIGURA PIONEIRA DO MPLA E SEU PRIMEIRO PRESIDENTE (http://jornalcultura.sapo.ao/arte-poetica/poema-de-mario-pinto-de-andrade):

Monetu wa kasule Amutumisa ku S. Tomé Kexirie ni madukumentu Aiwe!

MÁRIO PINTO DE ANDRADE nasceu no Golungo Alto a 21 de Agosto de 1928, e faleceu a 26 de Agosto de 1990, em Londres. Estudou Filologia Clássica na Faculdade de Letras de Lisboa. Foi um incansável lutador pela independência de Angola, o que o levou a primeiro presidente do MPLA. Publicou Antologia da Poesia Negra de Expressão Portuguesa (1958), Amilcar Cabral: Essai de Biographie Politique (1980), As origens do Nacionalismo Africano (1997), entre outros. Foi ainda Ministro da Cultura na Guiné-Bissau.

Monetu wa kasule
Amutumisa ku S. Tomé
Kexirie ni madukumentu
Aiwe!
Monetu wadidile
Mama wasalukile
Aiwe!
Amutumisa ku S. Tomé
Monetu wayi kya
Wayi mu pura ya
Aiwe!
Amutumisa ku S. Tomé
Monetu amubutu
Katena kumukuta
Aiwe!
Amutumisa ku S. Tomé
Monetu wolobanza
Oxiye onzo ye
Amutuma kukalakala
Olomutala, olomutala
— Mama, mwene wondovutuka
Ah! Ngongo yetu yondobiluka
Aiwe!
Amutumisa ku S. Tomé
Monetu kavutuke
Kalunga wamudye
Aiwe!
Amutumisa ku S. Tomé.
(Versão em kimbundo actualizada por Mário Pereira)
Canção de Sabalu
Nosso filho caçula/ Mandaram-no p'ra S.Tomé/ Não tinha documentos/ Aiué!// Nosso filho chorou/ Mamã enlouqueceu/ Aiué!/ Mandaram-no p'ra S.Tomé// Nosso filho já partiu/ Partiu no porão deles/ Aiué!/ Mandaram-no p'ra S.Tomé// Cortaram-lhe os cabelos// Não puderam amarrá-lo/ Aiué!/ Mandaram-no p'ra S.Tomé.// Nosso filho está a pensar/ Na sua terra, na sua casa/ Mandam-no trabalhar/ Estão a mirá-lo, a mirá-lo/ - Mamã, ele há-de voltar/ Ah! A nossa sorte há-de virar/ Aiué!/ Mandaram-no p'ra S.Tomé// Nosso filho não voltou/ A morte levou-o/ Aiué!/ Mandaram-no p'ra S.Tomé.

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