segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Portugal | Tratados abaixo de cão


Manuel Molinos* | Jornal de Notícias | opinião

Já lá vai muito tempo em que expressões como "ser tratado como um cão" ou ser "tratado abaixo de cão" eram uma constatação óbvia e natural de uma sociedade pobre e desinformada.

E não. Ao contrário da mensagem que os aficionados querem passar, não há nenhuma tentativa de ligar os toureiros aos maus-tratos a animais alegadamente cometidos por João Moura. Nem há nenhuma crucificação em praça pública, nem confusão entre as atitudes pessoais do cavaleiro e a classe profissional a que pertence. O que há é um caso flagrante de maus-tratos a galgos e uma sucessão de desculpas tão arrepiantes como as fotos que mostraram o estado em que os animais se encontravam.

Após ter sido ouvido pela GNR, João Moura alegou: "Não tratei mal os meus cães, alguns estavam magros, mas não os tratei mal!". Dias depois, um empresário amigo do cavaleiro minimiza o caso e encontra um culpado pela subnutrição dos galgos: um trabalhador da quinta fugiu e deixou os cães à sua sorte enquanto João Moura estava em Espanha. E depois a estocada final, incrível e ridícula, na tentativa de defender o cavaleiro: "Alguns cães estavam de facto doentes e o João não os quis abater, como muita gente faz".



Percebe-se que a notícia foi o pior que podia ter acontecido ao meio taurino antes do festival tauromáquico que vai decorrer no sábado. Mas, em vez de oferecerem bilhetes a menores para o espetáculo do Campo Pequeno, era melhor que os líderes dos aficionados enveredassem por uma outra pedagogia. Suspender João Moura das atividades relacionadas com a tauromaquia, até o caso estar juridicamente esclarecido, era um bom começo. Que o caso sirva, pelo menos, para agravar o regime sancionatório dos crimes contra animais de companhia, como o PS e o PAN propõem.

Em resumo, não haverá dúvidas que imagens como as que vimos têm impacto suficiente para ser óbvio que qualquer pessoa que trata assim animais precisa de ser punida exemplarmente. A dignidade do homem deve medir-se pela capacidade que tem de ter empatia pela dor e pelo sofrimento de outros. E a indiferença só prova a falta de muita coisa... dignidade também.

*Diretor-adjunto

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