sábado, 21 de abril de 2012

AS ELEIÇÕES E A POLÍTICA REDISTRIBUTIVA DE SARKOZY




Flávio Aguiar, Berlim – Carta Maior, com foto

Nicolas Sarkozy seguiu uma política redistributiva de renda. Redistributiva? Sim, para os mais ricos. De 2007 a 2011, redistribuiu, sob a forma de cortes na arrecadação de impostos, 84 bilhões de euros. Destes, 50 bilhões foram para as empresas. 34 bi, para os proprietários de imóveis. Porém desses últimos 34 bi, 19 foram destinados a poupar impostos para os 10% de propriedades mais ricas; 15 bi destinaram-se aos 90 % de propriedades médias e menos valiosas. O artigo é de Flávio Aguiar, direto de Berlim.

Berlim - Tornou-se lugar comum atribuir a possibilidade de derrota de Nicolas Sarkozy nas eleições francesas – cujo primeiro turno se realiza neste domingo – ao cansaço do eleitorado com o estilo “pop star” do seu desempenho, inclusive na presente campanha. Nesta, Sarkozy lembra o título de uma comédia do dramaturgo gaúcho Jozè Joaqim de Qampos Leão Qorpo-Santo (sic), precursor oitocentista do Teatro do Absurdo: Hoje sou um; e amanhã, outro.

Derrotado nas prévias de intenções de voto, Sarkozy pula que nem boneco de mola, ontem criticando os bancos, hoje prometendo salválos da bancarrota, investindo à direita contra os imigrantes ante-ontem, depois de antes proclamar-se ‘o presidente de todos os franceses’, e assim por diante. Além disso o irrequieto presidente francês arroga-se um ar de Luís XV, apregoando algo parecido com a famosa frase atribuída ao monarca (segundo outras fontes à sua amante n* 1, Madame de Pompadour): après moi, le Déluge, depois de mim, o Dilúvio, referindo-se à possibilidade de seu rival François Hollande se eleger.

Esse cansaço existe de fato. Indício dele é até mesmo o conservador ex-presidente Jacques Chirac ter preferido apoiar Hollande a Sarzozy. Ele está presente também nas pesquisas que apontam estarem os eleitores do candidato de centro-direita François Bayrou divididos entre votar em Hollande ou em Sarkozy no segundo turno, com leve vantagem para o primeiro. Mesmo eleitores de Marine Le Pen (14% deles) anunciam preferir Hollande no turno decisivo.

Mas esse cansaço não explica tudo. Assombra a “mansão eleitoral” de Sarkozy o mesmo fantasma que derrubou governos à esquerda e à direita em outros países, mais à esquerda do que à direita: a decepção com as promessas não cumpridas, ou revertidas depois da eleição.

Exemplo: eleito, Sarkozy proclamou que a partir de seu governo os franceses “trabalhariam menos e ganhariam mais”. Sucedeu o contrário. Sarkozy aumentou o limite mínimo de idade para aposentadoria, o que penaliza os mais pobres, que começam a trabalhar mais cedo e têm condições de trabalho e vida mais insalubres. Sua política de contornar ou neutralizar o poder de barganha dos sindicatos contribuiu para abaixar os salários. Para completar esse quadro, o desemprego, que em 2007, quando assumiu o governo, era 7,9% e hoje é 10%: ou seja, quem trabalha menos, na verdade, são os desempregados.

Mas tem mais. Estudo conjunto do “Think-Tank Terra Nova” e do jornal Libération mostra que Nicolas Sarkozy seguiu uma política redistributiva de renda. Redistributiva? Sim, para os mais ricos.

De 2007 a 2011 Sarkozy (e seu primeiro ministro François Fillon, é bom não esquecer) redistribuiu, sob a forma de cortes na arrecadação de impostos, 84 bilhões de euros. Destes, 50 bilhões foram para as empresas. 34 bi, para os proprietários de imóveis. Porém desses últimos 34 bi, 19 foram destinados a poupar impostos para os 10% de propriedades mais ricas; 15 bi destinaram-se aos 90 % de propriedades médias e menos valiosas.

Como Sarkozy congelou em 50% a alíquota máxima de Imposto de Renda, sua amiga e apoiadora Liliane Bettencourt, da empresa de cosméticos L’Oréal, recebeu uma devolução retroativa avaliada em 30 milhões de euros. Além disso, a dona da L’Oréal envolveu-se numa série de escândalos denunciados na mídia francesa, com membros do governo de Sarkozy. Agora, Hollande promete elevar aquela alíquota para 75%. De passagem, observe-se que esse jogo de alíquotas, em qualquer dos casos, deve causar profundo mal-estar em nossos permanentes críticos do chamado “custo Brasil”, e que apregoam ter nosso país os impostos mais altos do mundo, etc.

No mesmo estudo do Terra Nova/Libé, demonstra-se que a relação dívida pública/PIB da França, hoje em 85%, seria menor do que a alemã (83,5%), caso não houvesse aquele corte na arrecadação de impostos.

Enfim, um dos problemas para a reeleição de Sarkozy é a de que ele, traduzindo os adjetivos para o nosso universo austral, não conseguiu livrar-se da pecha de ser apenas “a mãe dos ricos”.

Até porque “pai dos pobres”, a gente sabe, só houve um.

Guiné-Bissau: Apoiantes de Carlos Gomes Júnior "operacionalizam" frente anti-golpe



Lusa

Bissau, 21 abr (Lusa) - Partidos e organizações que apoiaram Carlos Gomes Júnior nas eleições presidenciais de março passado, entretanto detido na sequência do golpe de Estado do dia 12, anunciaram hoje que vão "operacionalizar" uma "frente anti-golpe de Estado".

O anúncio foi feito por Iancuba Injai, do Partido da Solidariedade e Trabalho, que disse que a estrutura (que já fora anunciada e que agora vai começar a trabalhar) junta políticos, sindicatos, religiosos e empresários, entre outros.

A "frente" vai lutar "para que o retorno à legalidade constitucional se concretize", disse o político em conferência de imprensa, frisando de novo que os partidos e organizações não reconhecem qualquer órgão imposto "ou saído de qualquer concertação que não seja de órgãos democraticamente eleitos pelo povo guineense".

Partidos ouvidos pelo presidente interino defendem "retorno à normalidade"

Lusa

Bissau, 21 abr (Lusa) - Todos os partidos hoje ouvidos pelo presidente interino da Assembleia Nacional da Guiné-Bissau condenaram o golpe de Estado e defenderam o "retorno à normalidade" constitucional, disse Serifo Nhamadjo.

Serifo Nhamadjo, presidente interino do parlamento guineense, convocou os partidos com assento parlamentar para uma reunião, seguida de outra com os partidos sem assento, dizendo no final que houve unanimidade na condenação do golpe militar de dia 12.

O PAIGC, maior partido e no poder até ao golpe de Estado, não compareceu. Ainda assim, Serifo Nhamadjo afirmou aos jornalistas que o encontro foi positivo e defendeu que é necessário "conversar com todos os atores políticos" para se chegar a uma solução para a crise. "O que estamos a fazer é entender e apontar caminhos para soluções", disse.

Liga dos Direitos Humanos e Movimento Sociedade Civil contra acordo militares/políticos

FP - Lusa

Bissau, 21 abr (Lusa) - A Liga dos Direitos Humanos e o Movimento da Sociedade Civil para a Paz condenaram hoje o acordo para a Estabilização e Manutenção da Ordem Constitucional, assinado entre militares e políticos guineenses na quarta-feira.

O Movimento marca também para segunda-feira uma manifestação.

Alguns partidos políticos e o Comando Militar que desencadeou um golpe de estado na Guiné-Bissau assinaram na quarta-feira passada um acordo que previa a criação de um Conselho de Transição e a realização de eleições dentro de dois anos. O Comando Militar disse no entanto depois que nada estava ainda decidido.

Ainda assim, a Liga dos Direitos Humanos disse, em comunicado, que o acordo foi assinado "por entidades desprovidas de qualquer legitimidade popular" e responsabilizou depois "o Estado maior General das Forças Armadas e todos os envolvidos no golpe de Estado" pela crise social no país, "sobretudo no interior, em virtude da deslocação massiva das populações, incluindo o naufrágio que ocorreu na ligação marítima entre Caio e Djeta".

A Liga repudia as "buscas ilegais" e "pilhagens" nas residências "dos responsáveis políticos e cidadãos comuns" e volta a exigir a libertação do Presidente interino e do primeiro-ministro, Raimundo Pereira e Carlos Gomes Júnior, detidos pelos militares.

Também em comunicado, o Movimento Nacional da Sociedade Civil "manifesta a sua estranheza face aos comportamentos ilegais e inaceitáveis de alguns dirigentes políticos e outras personalidades que ocuparam funções cimeiras na hierarquia do Estado guineense, cujas ações irresponsáveis deram corpo e alma" ao golpe de Estado.

Além de exigir a libertação do Presidente interino e do primeiro-ministro, o Movimento apela aos cidadãos para se mobilizarem em torno "de uma gigantesca marcha pacífica que terá lugar no próximo dia 22, com o objetivo de exigir a reposição da ordem constitucional e a libertação imediata dos detidos".

Guiné-Bissau: Manifestação reúne centenas em Lisboa e obriga a cortes no trânsito



SIC Notícias

Lisboa, 21 abr (Lusa) - Uma manifestação pela paz na Guiné-Bissau com centenas de pessoas está hoje à tarde a provocar cortes de trânsito no centro de Lisboa.

O acesso à praça do Rossio foi interditado pela PSP e na rua do Ouro, também na Baixa, não se circula devido à passagem dos manifestantes, que se dirigem a pé para a sede da embaixada da Guiné-Bissau na capital portuguesa, no Restelo, onde vão entregar um documento.

"Não queremos ser reféns dos militares, temos de ser donos do nosso destino - viva a liberdade, viva a Guiné-Bissau", lê-se num dos muitos cartazes empunhados pelos manifestantes em protesto contra o golpe militar de 12 de abril.

Cerca de 100 guineenses marcharam em Luanda pela paz e para agradecer solidariedade de Angola

EL - Lusa

Luanda, 21 abr (Lusa) - Cerca de uma centena de guineenses marcharam hoje, em Luanda, a favor da paz no seu país e da intervenção da comunidade internacional para pôr fim ao golpe de Estado e para agradecer a solidariedade de Angola.

A marcha iniciou-se no Largo das Heroínas, com passagem defronte da Escola Portuguesa de Luanda, e terminou no Largo das Escolas, nas proximidades da Praça 1º de Maio, e ao longo do trajeto a palavra de ordem mais ouvida foi "queremos paz".

No final, Adulai Djaló, da organização da iniciativa, leu um texto em que manifestou "a gratidão dos guineenses a todo o trabalho que o Governo angolano tem feito pela Guiné-Bissau".

"O vosso trabalho ficará na História, agrade ou não a outros", sublinhou.

Bandeiras da Guiné-Bissau e de Angola encabeçaram a marcha, e muitos empunhavam cartazes e panos onde se podiam ler desde agradecimentos à comunidade internacional, desde as Nações Unidas à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), passando por Portugal, União Europeia e Angola.

Logo atrás, um grande pano exigia a libertação do primeiro-ministro Carlos Gomes Júnior.

Mussa Buran, também da organização da marcha, disse à Lusa que no início da semana vão ser entregues cartas ao Governo angolano e à delegação da União Europeia a exigir a sua intervenção para impedir a continuação do "sequestro" do povo guineense pelos militares.

"Já perdemos a conta às vezes que os militares se meteram na política. Queremos que regressem aos quartéis e que o processo eleitoral, interrompido com o golpe de estado, seja finalizado, com a realização da segunda volta das presidenciais", salientou.

Mussa Buran defende o envio, "o mais rápido possível", de uma força internacional.

"Duas semanas é demais. Tem que ser já, porque senão é o povo que se vai levantar e fazer frente aos militares", garantiu.

A comunidade guineense residente em Angola, maioritariamente concentrada na capital, Luanda, é de cerca de 2 mil pessoas.

Ministro guineense: “Estamos há 14 anos reféns dos senhores das armas”

i online – Lusa

O ministro dos Negócios Estrangeiros da Guiné -Bissau disse hoje em Lisboa que o “país está refém dos senhores das armas” que ameaçam o poder judicial e a Constituição.

“Há mais de 14 anos que estamos perante os senhores das armas, são mais do que os anos que durou a luta pela independência”, disse Djaló Pires, num encontro na sede da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) em Lisboa com representantes da diáspora guineense que se manifestaram no centro da cidade pela paz no país africano, onde ocorreu um golpe militar no dia 12.

O ministro dos Negócios Estrangeiros, porta-voz do Governo legítimo da Guiné-Bissau, que esteve na sexta-feira na reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas em Nova Iorque, disse ao grupo de manifestantes que neste momento a situação no país é grave.

“A imprensa na Guiné-Bissau está amordaçada para que a população não seja mobilizada contra a barbárie que está a ser cometida. O nosso povo tem de se levantar para dizer não”, disse o ministro, sublinhando que o povo merece a liberdade.

Segundo Djaló Pires, “não há nenhum exército no mundo que possa vencer o povo”, que “merece a liberdade e viver em democracia” num Estado em que o poder tem de ser legitimado pelo voto popular: “É o povo que legitima os órgãos do Estado, não a violência”, disse.

“Nós todos estamos ameaçados. Os meus colegas continuam escondidos porque se saírem serão objeto de violência. Há juízes escondidos, as casas foram vandalizadas e ainda se fala em democracia? Eles permitem que as brigadas do mal vandalizem os dirigentes do poder judicial”, declarou o ministro, que se encontrava fora do país no dia do golpe e que denunciou hoje atos de perseguição em Bissau por parte dos golpistas.

O responsável disse que a Justiça na Guiné-Bissau está a ser perseguida e que os juízes estão escondidos, cenário que não pode escapar à comunidade internacional.

“É inaceitável e a comunidade internacional já demonstrou que não concorda com os senhores das armas. Apelo para que ponham em liberdade o primeiro-ministro e o Presidente da Republica”, disse.

Mortes no Médio Oriente e tensão entre Argentina e Espanha marcam actualidade noticiosa



Angola Press

Luanda - O cortejo de mortes em países do Médio Oriente, a guerra económica, entre Argentina e Espanha, e a campanha eleitoral na França foram, entre outros temas, os destaques da actualidade informativa internacional na semana que hoje termina.

Durante os últimos sete dias, no Médio Oriente morreram pelo menos 335 pessoas de forma violenta, devido principalmente, a conflitos armados no Iraque, Afeganistão e Síria.

Na Síria, mais de 120 civis morreram uma semana depois do cessar-fogo, constante da iniciativa do plano de paz do emissário internacional Koffi Annan, entretanto, violado diariamente.

No Iraque, pelo menos 35 pessoas morreram na quinta-feira, após uma série de atentados em Bagdad e no norte do país. Por mesmo método, mas no Afeganistão, ataques coordenados dos talibãs na capital Cabul e em outras partes do país deixaram 51 mortos, incluindo membros das forças de segurança, civis e 36 rebeldes.

Já no Paquistão, na sexta-feira, a queda de um avião matou as 126 pessoas que transportava.

Uma guerra económica entre Argentina e Espanha parece se ter despoletado, nesta semana, a sequência da nacionalização, por Buenos Aires, da petrolífera espanhola Repsol que opera no solo argentino.

A presidente argentina Cristina Kirchner decretou, segunda-feira, a expropriação da propriedade da YPF, subsidiária da Repsol na América Latina.

Segundo o governo, foi fixado o controlo para o Estado Federal de 51 por cento da empresa e para as províncias dos 49 por cento restantes, anunciou a Casa Rosada.

Madrid reagiu e prometeu "resposta completa" que, parece, ter já começado a materializar.

Na sexta-feira, o governo espanhol anunciou que limitará a importação de biodiesel argentino, justamente em sinal de protesto pelo projecto de expropriação de 51 por cento da YPF.

Nas eleições presidenciais francesas de domingo, o presidente em fim de mandato Nicolas Sarkozy e o candidato socialista François Hollande estão empatados com 27 por cento de intenções de voto na primeira volta, segundo pesquisa TNS Sofres publicada nesta sexta-feira.

Porém, na segunda volta, Hollande aparece como vencedor com 55 por cento das intenções de voto, contra 45 por cento para Sarkozy.

Em Timor-Leste, o general e antigo chefe das Forças Armadas do país, Taur Matan Ruak, foi eleito, segunda-feira, o novo presidente da República, derrotando por quase 100 mil votos o seu adversário Francisco Guterres Lu Olo.

Nesta semana, a nave espacial americano Discovery aterrou sem problemas nesta terça-feira no Aeropoerto Internacional Dulles (Virginia), perto de Washington, depois do seu último voo sobre um avião da NASA para ser levado para um museu, o seu destino final.

Na quarta-feira, foi noticiado que a extradição pela Grã-Bretanha do islamita jordaniano Abu Qatada para a Jordânia continuava bloqueada pela Corte Europeia de Direitos Humanos (CEDH), após o pedido de seu advogado para reconsiderar o caso.

Na Noruega, Anders Behring Breivik, julgado pela morte de 77 pessoas em dois atentados no ano passado, afirmou na quinta-feira que o objectivo de seus ataques era matar todo o governo norueguês e todas pessoas que se encontravam na ilha de Utoeya, não apenas as 69 vitimadas.

"O objectivo era matar todo mundo", afirmou o extremista de 33 anos, acrescentando que também pretendia capturar a ex-primeira-ministra Gro Harlem Brundtland e decapitá-la perante uma câmara para inserir o vídeo na Internet.

Também explicou que pretendia matar todo o governo norueguês, incluindo o primeiro-ministro, e não apenas as oito pessoas que morreram na explosão no centro de Oslo.

Na semana que termina, a Índia realizou o primeiro lançamento de teste de um novo míssil de longo alcance com capacidade nuclear que pode atingir o território chinês e países não asiáticos, e coloca o país no selecto grupo de países detentores de mísseis balísticos intercontinentais.

O míssil Agni V, de um alcance de 5.000 quilómetro (classe IRBM dos mísseis intermediários de menos de 6.400 quilómetros) foi lançado às 08H05 local (0H35 de Luanda) de uma base situada no mar, próximo do Estado de Odisha.

Apenas China, Rússia, França, Estados Unidos e Reino Unido possuem mísseis balísticos intercontinentais (ICBM), com um alcance de mais de 5.500 quilómetros.

Por sua vez, a Coreia do Norte advertiu na sexta-feira que lançará satélites "uns atrás dos outros", ignorando mais uma vez as condenações da comunidade internacional depois do lançamento frustrado de um foguete, considerado um teste de míssil balístico.

"Os dados obtidos sobre o fracasso deste lançamento constituem uma garantia fiável para um êxito maior no futuro", afirma a Comissão para a Tecnologia Espacial coreana.

Na quinta-feira, milhares de israelitas permaneceram em silêncio, enquanto sirenes soavam por dois minutos para lembrar os seis milhões de judeus que foram mortos durante o Holocausto nazista, durante a segunda guerra mundial.. Também correu mundo a notícia que dava a conhecer que 11 integrantes da polícia de elite que protege o presidente americano, Barack Obama, foram suspensos, após serem acusados de má conduta num caso de escândalo sexual em Cartagena, Colômbia, onde Obama participava da Cimeira.

"Os integrantes envolvidos foram levados para a sede do Serviço Secreto, em Washington, para serem interrogados hoje", informou o sub-director da força, Paul Morrissey. "Esses 11 funcionários foram suspensos."

Entretanto, a cimeira terminou com impasse sobre Cuba.

A falta de acordo sobre a participação de Cuba impediu uma declaração final de consenso dos líderes reunidos no domingo para a Cimeira das Américas, mas o encontro permitiu o início de um histórico debate sobre a adopção de novos enfoques no combate às drogas.
 
O médico norte-americano Jim Yong Kim, 52 anos, foi nomeado, segunda-feira, presidente do Banco Mundial, derrotando a ministra das Finanças nigeriana, Ngozi Okonjo-Iweala, e deve assumir as suas funções em 1 de Julho para um mandato de cinco anos.

Afonso Dhlakama nega estar a exigir dinheiro no diálogo com o chefe Estado



LYR - Lusa

Nampula, 21 abr (Lusa) - O presidente da Renamo, Afonso Dhlakama, principal partido da oposição moçambicana, negou hoje estar à procura de "dinheiro" no diálogo com o chefe de Estado, Armando Guebuza, afirmando que luta apenas por garantir a democracia no país.

Vários círculos de opinião em Moçambique afirmam que as pressões de Afonso Dhlakama para renegociar com o chefe de Estado moçambicano alegados aspetos pendentes do Acordo Geral de Paz (AGP), que pôs fim a 16 anos de guerra civil no país, são uma chantagem do líder da (Renamo) Resistência Nacional de Moçambique, para obter dinheiro do Estado.

Os dois líderes reuniram-se na semana passada, a segunda vez em 12 anos de presidência de Armando Guebuza, tendo discutido, segundo declarações de ambos à imprensa, aspetos relacionados com os confrontos de março entre a polícia e ex-guerrilheiros da Renamo em Nampula, norte de Moçambique, da despartidarização do exército e do alegado favorecimento de figuras do partido no poder, Frente de Libertação de Moçambique, nas oportunidades económicas geradas pelos grandes projetos de investimento estrangeiro.

"Quando eu me encontro com Guebuza não é para falarmos de negócio ou de dinheiro. Eu não sou familiar dele e nem sou membro da Frelimo. Dialogo com um ditador para ajudar o povo a alcançar a verdadeira democracia", afirmou Afonso Dhlakama, numa conferência provincial de quadros da Renamo em Nampula.

Segundo o líder da oposição moçambicana, a pressão que tem exercida obrigou o chefe de Estado e a Frelimo- Frente de Libertação de Moçambique a voltarem a encarar a Renamo um interlocutor incontornável do processo político moçambicano.

"Os comunistas sentem-se agora muito pressionados e por isso aceitaram negociar com a Renamo", enfatizou Afonso Dhlakama, numa referência à opção marxista-leninista adotada pela Frelimo, após a independência do país em 1975, mas depois abandonada com a abertura do país à democracia liberal.

Empresário assassinado à saída de uma mesquita

Lusa

Maputo, 21 abr (Lusa) - Um conhecido empresário moçambicano, Momade Ayob, foi assassinado a tiro na noite de sexta-feira na capital de Moçambique, à saída de uma mesquita, informou hoje a polícia.

O porta-voz do comando da polícia moçambicana em Maputo, Arnaldo Chefo, disse à imprensa que o empresário, dono de uma famosa loja da capital, foi mortalmente baleado por um homem que se fazia transportar numa mota.

"Já há agentes a trabalhar no caso, mas ainda é cedo para dar detalhes", disse Arnaldo Chefo.

Moçambique: EROSÃO NO CHIMOIO, NOVO TERMINAL NO AEROPORTO E QUERCUS




Erosão ameaça casas e cemitério tradicional num bairro de Chimoio

André Catueira, da Agência Lusa

Chimoio, 21 abr (Lusa) -- Herculano Possi esmaga pedaços de tabaco na mão e depois deita-os no chão enquanto medita, num ritual para espantar os espíritos, e de seguida desaparece no capim alto, num cemitério tradicional em Chimoio, Moçambique, para "avistar" os seus entes queridos.

"Sempre venho deixar um cigarro e ou uma bebida na campa dos meus falecidos, numa ação de respeito. Tive este ensinamento e estou cumprindo com a tradição. Não sei como será quando não existir mais este cemitério porque uma vala (cratera) está a avançar muito e já destruiu algumas campas", explicou à Lusa Herculano Possi, 38 anos,

Uma enorme cratera, provocada pela erosão, decorrente de chuvas, ameaça destruir este cemitério tradicional e casas num bairro de Chimoio, a capital de Manica, centro de Moçambique, e a população acusa o governo de "negligência".

Em tempos chuvoso, a corrente das águas arrasta tudo, incluindo campas do cemitério de Mudzingaze, deixando por vezes ossos humanos a flutuar no rio com o mesmo nome, situação que apoquenta os moradores que consideram a situação de "imoral".

"Esta cratera começou mais abaixo e tem vindo a alastrar passando nas bermas das campas até às casas. Houve intervenção na parte residencial, mas para proteger os restos mortais enterrados neste cemitério é preciso também fazer algo para que não se destruam campas", disse à Lusa Felimone Tsuro, um residente local.

O governo municipal retirou quatro famílias, que viviam a menos de 10 metros do cemitério, para um bairro de realojamento, cujas casas foram destruídas pela erosão, e outras três deverão também deixar a zona nos próximos dias devido ao avanço da cratera.

Em fevereiro passado, igualmente construiu uma barreira e fez aterros na cratera, mas a iniciativa ficou paralisada por falta de fundos.

A paragem das obras veio a piorar a situação da população, que tem visto as suas casas invadidas por água no tempo chuvoso.

"Começou a intervenção (para conter a erosão) da parte das casas e depois de um tempo as obras pararam, sem terminar. O aterro feito não estava concluído e isso tem criado inundações nas casas próximas do local. Uma outra cratera está a avançar noutro lugar, o que nos deixa mais preocupados", explicou à Lusa Vasco Almeida, secretário da célula do bairro Mudzingaze.

Ainda segundo Vasco Almeida, vários contactos tem vindo a ser mantidos com o governo municipal e da cidade para "corrigir a situação" para evitar maiores danos e perdas de infraestruturas no local, em prejuízo da população daquele bairro.

Em declarações à Lusa, Carlos Mualia, administrador da cidade de Chimoio, disse que um plano está em carteira para evitar a destruição do cemitério, de mais de 40 anos, em paralelo com a construção de barreiras na cratera.

"As obras serão terminadas e, para evitarmos que a fúria das águas destrua o cemitério, teremos que fazer um trabalho adicional para criar barreiras nas proximidades daquele lugar", assegurou à Lusa Carlos Manlia.

O bairro Mudzingaze foi o que mais sofreu danos, destruição inteira e parcial de casas, a maioria construídas de material precário, na fúria das últimas chuvas, tendo deixado muitas famílias alojadas de forma desumana, com paredes abertas e ou por debaixo das árvores.

Novo terminal doméstico do Aeroporto de Maputo estará pronto em outubro

PMA - Lusa

Maputo, 21 abr (Lusa) - O novo terminal doméstico do Aeroporto Internacional de Maputo, orçado em cerca de 24 milhões de euros, vai estar pronto em outubro, assegurou o responsável pelo projeto de modernização do empreendimento.

Uma vez em funcionamento, o novo terminal será dotado de duas pontes ligando a pista ao alpendre, amplos espaços para lojas de conveniência, restaurantes, sala de comunicações, sala de reuniões, escritórios, entre outras facilidades, ocupando 13.200 metros quadrados.

A nova estrutura está numa zona autónoma do terminal internacional, que foi recentemente inaugurado, marcando uma diferença com a anterior situação, em que os dois terminais funcionavam no mesmo edifício.

Em relação ao antigo terminal, "a diferença fundamental está no planeamento do espaço, pois no novo edifício há maior disponibilidade de espaço e uma margem de colocação de novos serviços, mais tarde", disse o diretor do Projeto de Modernização do Aeroporto Internacional de Maputo, Acácio Tuende, durante uma visita guiada aos jornalistas.

Ao nível da obra, assinalou Acácio Tuende, o terminal segue um padrão de material mais moderno, com uma cobertura de alumínio climatizada e em condições de proporcionar isolamento sonoro, pilares de betão armado e um chão de ladrilhos de granito.

As fachadas principais, bem como as paredes dos diversos compartimentos do terminal, serão de vidro, acrescentou Acácio Tuende.

Quando estiver aberto, o terminal doméstico vai aumentar em 40 por cento o volume de tráfego do Aeroporto Internacional de Maputo, passando este a movimentar por ano cerca de quatro milhões de passageiros.

"O terminal doméstico estará preparado para receber 300 partidas e 225 chegadas por dia", acrescentou o diretor do Projeto de Modernização do Aeroporto Internacional de Maputo.

Para se evitarem as infiltrações de água que se verificaram pouco tempo depois da inauguração do terminal internacional, o material usado nas curvas e nas ligações da nova estrutura está a ser reforçado e estão a ser construídas abas para depositar a água, disse Acácio Tuende.

Tal como o terminal internacional, a gare doméstica está a cargo da construtora chinesa AFECC, cujo país está a financiar o projeto de modernização do empreendimento, num valor global de mais de 90 milhões de euros.

Nas obras do terminal doméstico, trabalham 160 moçambicanos e 140 chineses.

O projeto de modernização do Aeroporto Internacional de Maputo inclui igualmente a repavimentação da pista e o aumento das bermas do caminho de circulação, para dar maior liberdade aos reatores dos aviões, informaram os técnicos responsáveis pelo projeto.

Quercus produz Minuto Verde em Maputo

MMT - Lusa

Maputo, 21 abr (Lusa) - Uma equipa da Quercus, associação ambiental portuguesa, está em Moçambique para produzir 22 episódios do programa Minuto Verde para a Rádio e Televisão Portuguesa (RTP).

A Quercus irá produzir nove programas do Minuto Verde e um documentário dedicado ao Parque Nacional da Gorongosa, um dos mais importantes de África, disse à Lusa o responsável da Quercus, Francisco Ferreira.

A iniciativa enquadra-se no vasto plano da Quercus de realizar o Minuto Verde em todos os Estados da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), apoiada pela Fundação Gulbenkian e empresas portuguesas, afirmou Francisco Ferreira.

Até ao dia 29 de abril, a equipa da Quercus irá filmar em algumas zonas urbanas e periurbanas da cidade de Maputo e da Matola, arredores da capital moçambicana, onde há sinais de más práticas de preservação ambiental, ou de danos causados pelas mudanças climáticas, como por exemplo o bairro da Costa do Sul, atingido pela erosão.

"O objetivo é dar conselhos para que as pessoas possam mudar de comportamento em relação à conservação ambiental. Vamos tocar nos valores naturais de modo a consciencializar as pessoas", disse o responsável da Quercus.

O programa Minuto Verde da Quercus é acompanhado pelos telespetadores da RTP, que tem sinal aberto em toda a CPLP, por isso Francisco Ferreira admite que "os conselhos dados têm tido um grande impacto nestes países".

"Enquanto andávamos pela cidade de Maputo fomos interpelados por pessoas que nos perguntavam se somos do Minuto Verde", exemplificou Francisco Ferreira, justificando o interesse com o facto de "os problemas ambientais que estão aqui [em Moçambique] em jogo serem comuns" aos diversos países.

De resto, o Minuto Verde "tem funcionado muito bem, porque é um programa com uma mensagem muito direta, curtinha e faz um alerta para um problema sério", afirmou o ambientalista.

Contudo, durante a produção dos programas em Moçambique, "teremos a preocupação de usar uma linguagem que todos percebam", afirmou.

Nesta viagem pelos países da CPLP, a Quercus pretende também estabelecer contactos com organizações não-governamentais pró-ambiente para renovar a ideia de criação de uma rede lusófona virada para esta área, assegurou.

A Quercus já produziu em Portugal mais de 1500 episódios do programa Minuto Verde e, em 2013, deverá fazer filmagens sobre ambiente em São Tomé e Príncipe, Angola ou Timor-Leste.

A AMPLA CIDADE



Rui Peralta

Os gatos e a vida de cão

Os gatos são entidades estranhas e não era por acaso que os antigos egípcios atribuíam-lhes poderes místicos. Todas as noites a infindável serpente do mal, Apopis, atacava a Barca do Sol quando esta empreendia a sua viagem nocturna. A barca, que os egípcios designavam por Mesektet, era comandada por Ré, o brilho do sol, que enfrentava diariamente o perigo da destruição que Apopis simbolizava. Ocasionalmente Apopis engolia a embarcação e provocava os eclipses solares.

Ré triunfava sempre mas Apopis era indestrutível e inúmeras vezes Set, irmão de Osíris e filho de Ré, feriu Apopis com o seu arpão. Com o tempo a memória dos Homens fragmentou-se e os teólogos mudaram Set de campo. Tornou-se aliado de Apopis e foi substituído por um gato que simbolizava o próprio Ré. O gato decapitava a serpente fazendo triunfar a luz sobre as trevas.

Vem esta conversa sobre os gatos e a mitologia egípcia a propósito de um spot transmitido pela SIC Noticias. Nesse spot podemos ver um deputado do Parlamento Português dizer ao Ministro das Finanças da Republica Portuguesa, Victor Gaspar, que tem um gato chamado Gaspar (mas não é Victor) e que gostaria de falar de economia e finanças com o gato mas o gato não responde (tipo aquela cantilena em que atiramos o pau ao gato mas o gato não morre). O Ministro das Finanças, com um ar charmoso pergunta ao deputado qual é a idade do gato e o deputado responde-lhe que o gato ainda é novo. O ministro fica ainda mais charmoso e esta burlesca conversa que ocorreu numa sessão de um comissão de inquérito no Parlamento Luso, foi transformada em spot publicitário da SIC.

Como não sou um homem de grandes conhecimentos financeiros, nem sequer financeiramente programado (o que ganho não dá para esses luxos e o único exercício financeiro em que sou especialista é a ginástica do estica, embora já tenha chegado á conclusão que o dinheiro é de pouca ou nenhuma elasticidade), fico perplexo ao verificar a forma como as elites processam os seus saneamentos financeiros, passando por cima dos mais elementares direitos civilizacionais que foram conquistados através das gerações. Num ápice a Europa Social passou a ser uma Europa esbanjadora e agora constrói-se a Europa da Poupança, mas que nesta fase é a Europa da Austeridade.

Por motivos académicos tenho, nos últimos tempos, parado em Turim e pasmo com o tratamento de choque a que a sociedade italiana é sujeita, dia após dia. Dos ecos que chegam de Lisboa, sei que em Portugal a coisa anda pela mesma bitola e nem quero imaginar a Grécia, o berço da velha Europa, agora mal-amada pelos líderes da Nova Europa que pretendem impor disciplina financeira e hábitos de poupança ao pobres gregos (uma cambada de filósofos e argonautas), aos indolentes italianos (que desde a queda do Imperio Romano só pensam em cinema e vida fácil) e aos gastadores portugueses (essa escumalha de poetas-marinheiros e fadistas-futebolistas). “Toca mas é a encher as Constituições com normas de poupança e organização e vejam lá se aprendem a serem pobrezinhos, que não é mal nenhum, pois assim podem passar com mais facilidade para o céu!” – Eis a mensagem dos austeros e programados líderes da Europa da Poupança. Nada de excessos! Nada de improvisos! Nada de gastar á toa! Esta é a Europa dos mansos e poupados. É a Europa dos programados…

Bom…Também gosto de programar as minhas actividades. Embora seja um amante do Jazz, considero a arte da improvisação como um clímax da organização e não um produto do caos. Um pouco como aquela frase do Proudhon sobre a anarquia ser a mais alta expressão de ordem. A ordem não é, necessariamente, o oposto do caos. O caos pode ser ordenado e pode representar uma forma de ordem. Por sua vez a ordem pode ser caótica… vejam-se os problemas que existem nas repartições de finanças, nos sistemas de justiça, no aparelho de estado ou na ordenação caótica dos mercados. Mas uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa e sobre esta coisa que se passa na Europa sempre que tenho pausas na minha actividade académica venho, em fuga, para Luanda.

Não que Angola seja um primor paradisíaco, nada disso! Nem porque Angola tem essas milagrosas taxas de crescimento económico (aliás as taxas crescem tanto que, se por infortúnio da má sorte, a população activa - (?) - de Angola ficasse toda doente ao mesmo tempo e não pudesse ir trabalhar, o PIB continuaria a aumentar e os indicadores a subir, a subir, como o balão do João que sobe, sobe, sem parar). Nada! É só mesmo porque quando a confusão reina na casa do outro nós preferimos a nossa confusão.

E a nossa confusão é trágica. Ainda no outro dia fui para a varanda. As traseiras do meu apartamento são o exemplo do caos característico da pobreza. Sempre que estou na minha casa, em Luanda, vou para a varanda das traseiras apreciar o movimento da miséria popular. O mais velho que predica uma bíblia oculta e fala sobre um Cristo africano; as mulheres que saem cedo das suas casas para irem trabalhar nas casas dos senhores; os mais velhos a arrastarem-se; os jovens que vão para a escola - eles de calção, elas de saia curta por debaixo das batas brancas - com as mochilas às costas; as donas de casa que ficam a lavar a roupa rota, a parca loiça suja e a varrer os quintais de areia…É um imenso caos ordenado, em que cada Ser ali residente movimenta-se, transportando sorrisos, risos, lágrimas, sonhos, amores, ausências, carências, bebedeiras, estômagos vazios, rostos carregados, adultério, poligamia, filhos alheios, doenças, maus cheiros, águas paradas, uma imensa irmandade de infortúnios ruidosamente aclamados aquando da perda de um filho, de um parente, de um pai ou de uma mãe, de um vizinho e não menos ruidosamente abafados quando as noites de sexta-feira chegam e a cerveja e o caporroto toldam os espíritos, espalhando uma falsa alegria, ritual e frenética.

E tal como na Europa, também nós temos problemas graves com a terceira idade, com as reformas, as pensões de velhice, a Segurança Social…Certo que os nossos líderes ainda não falam nos cortes das reformas, mas também para quê? Atendendo ao parco número dos que as recebem…Pelo menos aqui, nas Terras do Espirito Santo, não precisamos de criar fantasmas estatísticos, como acontece na Europa do Euro para justificar os cortes sociais nas reformas e aumentar o tempo de vida de trabalho. Aqui morremos antes. Pelo menos por enquanto. Não que a nossa vida vá melhorar substancialmente e passemos a durar mais anos (aqui só sobe a taxa de crescimento económico, a taxa de longevidade sobe mais devagarinho, a conta gotas), mas a vida dos europeus vai (se a correlação de forças na guerra de classes não mudar) piorar substancialmente, implicando uma vida mais curta.

Mas a velhice é sempre perturbadora. Torna-se mais perturbante quando, para além de todos os problemas de decadência física e mental que a acompanham, vivemos em países onde os sistemas de protecção social não funcionam, ou são inexistentes. O bom senso aconselha a uma vida austera, que nos permita poupar uns tostões para uma velhice minimamente condigna. Mas o bom senso, uma prerrogativa dos medianamente ricos, ou dos ricos cuidadosos, não entra nos preceitos culturais dos novos-ricos, dos sempre pobres, dos novos-pobres, dos aldrabões, dos camanguistas, das damas que procuram marido abastado e perdem-se com amantes tesos, dos que gostam de viver o presente, dos que não pensam no dia de amanhã, enfim, uma imensa lista que comporta os sectores maioritários da humanidade, que não pratica, por razões culturais, o bom senso. Quando a esse factor juntamos um sistema social criado e desenvolvido na cultura da vida fácil, na política do enriquecimento rápido, um sistema que funciona no entretanto e nas estimativas, a coisa torna-se trágica e o fim é triste. Viver numa sociedade em que o bom senso é quase crime ou ilusão eternamente adiada, é um suicídio lento, que ultrapassa em muito a indiferença objectiva do suicídio camusiano, ou do suicídio honrado e libertador do Zen, ou dos velhos comerciantes que ficavam sem dinheiro para cobrir as dívidas. É um suicídio inconsciente, apresentado como morte natural, suportado por um sadismo que domina no subconsciente dos que se podem tratar, dos que fazem tratamentos às verrugas e que dormem descansados e contentes pelo seu sucesso. É como se a sociedade comportasse uma cultura masochista, ciente do futuro incerto, consciente da tragédia final, que se esforça por permanentemente toldar os sentidos e viver na ilusão do momento presente. É o ficar agradecido por acordar vivo e a mexer todas as pontinhas do corpo. Com alguma sorte os miúdos vão cuidar de nós. A filha é boazuda e vai casar-se com um tipo bem posicionado, ou vai ser amante ou segunda, terceira, quarta esposa de uma figura. O rapaz até é esperto e vai tirar um canudo, ou vai cair no goto de uma qualquer matrona que sempre lhe dará a mão nos momentos cruciais, e se a coisa for bem-feita e o rapaz bem apetrechado, a matrona dá-lhe a mão de uma das filhas, para o ter sempre por perto.

É como vivêssemos todos num universo sem futuro. E sem futuro não há razão para haver esperança. Se calhar vai ser a próxima linha da frente. O combate pelo futuro…

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Campanha eleitoral francesa fica marcada por debates rasos e discursos populistas




El Yamine Soum, especial para o Opera Mundi - Paris

Candidatos não conseguiram realizar debate profundo sobre temas nacionais e internacionais

A percepção compartilhada por muitos franceses é de que os temas verdadeiramente importantes de discussão não foram abordados na atual campanha presidencial, em especial as questões sociais. Ao perceber-se parte dos candidatos se aventurando em discursos banais, repetindo fórmulas batidas ou ainda demonstrando agressividade, essa disputa deixa um grande sentimento de amargura.

Para outros eleitores, trata-se de uma campanha complicada que não foi capaz de abordar os projetos e as visões de cada sobre a sociedade.

Em 2007, na campanha anterior, foi o contrário. Ela realizou-se de forma passional, dominada pelo ideal de mudança nascido com o fim da desgastada era Jacques Chirac. Esse sentimento de ruptura não está mais presente.

Uma das razões é que, agora, com a utilização de novas mídias, em plena era da sociedade do espetáculo, não houve tempo viável para explicar as propostas. Ocorreu um caso emblemático, em que alguns jornalistas pediram a alguns candidatos para que relatassem suas estratégias na área de Relações Exteriores em apenas...dez segundos!

Além da questão da falta de sincronia entre o tempo político e o midiático, ainda pesou para esse quadro medíocre a falta de profundidade dos programas de governo apresentados pelos candidatos.

Bode-expiatório

Para a extrema-direita, assim como para a UMP (União por um Movimento Popular), partido de Nicolas Sarkozy, o eterno bode-expiatório continua sendo o “estrangeiro”, ou o muçulmano. A perseguição começou particularmente depois da forte repercussão de uma reportagem da televisão francesa sobre o rito do halal (modo de abate animal islâmico).

A candidata da extrema-direita, Marine Le Pen, da Frente Nacional, começou a dizer que os franceses comiam carne com abate halal sem saberem. O presidente- candidato quis aproveitar-se da polêmica chegando ao cúmulo de dizer que “o tema que mais preocupava os franceses era a carne halal”, sendo que dias depois, após ser duramente criticado pela comunidade islâmica no país, dizer que o assunto estava encerrado…

Mas Marine foi além. Em seus comícios afirmou em alto e bom som que “entre (as doutrinas) comunitaristas mais poderosas de hoje está o fundamentalismo islâmico, que é encorajado pelas elites. O objetivo dele é aplicar a sharia na França..Sob pressão dos islâmicos, os comerciantes acabam só oferecendo carne por abate halal aos seus clientes”.

A mesma Marine faz questão de lembrar constantemente “as origens cristãs da França”, esquecendo que a laicidade francesa consiste justamente na defesa da ideia pela qual a República não reconhece, financia nem subvenciona qualquer tipo de culto.

Um dos cartazes publicitários do partido de ultra-direita ainda na campanha regional de 2010 de seu pai (Jean-Marie, fundador do partido) tinha como slogan “Não ao Islamismo” e uma bandeira argelina colada ao mapa da França, demonstrando clara e explicitamente a vontade de atacar os muçulmanos e de lhes estigmatizar.

Medo x desesperança

Progressivamente, outros dois temas que ser viram de bodes-expiatórios na campanha foram a crise econômica e a União Europeia.

O presidente-candidato também continuou a abusar de sua retórica do medo – sobretudo depois que passou a chamar ainda mais atenção dos holofotes durante a conclusão dos atentados de Toulouse . Ele apostou pesadamente em sua pretensa imagem de protetor dos franceses face à crise econômica e tomou muito cuidado para interpretar esse papel.

Em relação à Europa, Sarkozy se declara favorável a uma revisão do acordo sobre a livre circulação de pessoas e o retorno às fronteiras nacionais. Por sua vez, Marine Le Pen defende a saída da zona euro.

Por fim, tanto à direita como à extrema-direita, a estratégia é continuar a estigmatizar os muçulmanos,mesmo que uma grande parte dos franceses saiba que isto não passa de uma estratégia de distração, muito comum de ser utilizada em períodos de crise econômica.

Mobilização popular à esquerda da esquerda

Na esquerda, o fenômeno mais importante e emblemático resulta da campanha de Jean-Luc Mélenchon, o candidato da Frente de Esquerda, coalizão entre comunistas e outros partidos da extrema-esquerda. No início de sua campanha, há poucos meses, o candidato apresentava índices de preferência baixos (em torno de 3 %), e que agora permeiam os 15%.

Mélenchon desafiou Marine Le Pen em um debate televisionado, mas ela se recusou a contra-argumentar. Resta aos dois candidatos, no entanto, a disputa pelo terceiro lugar. Ex-membro do PS, Mélenchon conseguiu seduzir não somente uma parcela do eleitorado jovem, mas também de muitos que pensavam em se abster. E o radicalismo proposto em termos de ruptura do atual modelo de sociedade ganhou a simpatia de muitos franceses.

Ao se declarar inimigo dos banqueiros e do sistema financeiro, esse candidato suscitou uma mobilização popular impressionante em diversos comícios ao ar livre, ressuscitando a memória de antigos líderes comunistas. Em Marselha, aproximadamente 100 mil pessoas se reuniram no último fim de semana. O que representa o equivalente aos comícios de Nicolas Sarkozy e François Hollande realizados em Paris.

Utilizando-se de slogans emprestados do presidente equatoriano Rafael Correa, como "Revolução Cidadã" ou "insurreição cívica", Mélenchon obrigou o candidato socialista François Hollande a se direcionar mais à esquerda. Ele se torna importante, afinal, não apenas por seu desempenho nas pesquisas, que pode evoluir ainda mais, mas também pela influência que ele poderá ter sobre Hollande no caso de vitória do Partido Socialista na eleição presidencial.

Já o terceiro colocado na disputa de 2007, o centrista François Bayrou (Movimento Democrata), tem encontrado dificuldades em emplacar algum discurso de destaque nesta campanha.

Por fim, a candidata ecologista, a franco-norueguesa Eva Joly (Europa Ecologia – Os Verdes), teve muitas dificuldades para colocar em pauta sua agenda ambiental. Além de sua clara falta de carisma, outro fato que contribuiu o fraco desempenho demonstrado até agora foi que os verdes concluíram acordos políticos para negociar as candidaturas à Câmara de Deputados. Isso desmobilizou uma parte da militância e tirou credibilidade da candidatura.

Abstenção e voto anti-Sarkozy

Pelo lado do Partido Socialista, é esperada uma vitória sem necessidade de fazer campanha. O candidato François Hollande, frequentemente atacado por sua postura tímida, não ousa ultrapassar as linhas do consenso e joga em uma posição de equilibrista.

Por um lado, ele defende uma série de propostas que aparecem, para uma parcela do eleitorado, mais voltadas a uma política centrista ou social-democrata. Como, por exemplo, se posicionar contrariamente à entrada da Turquia na União Europeia.

A mobilização do eleitorado para a candidatura de centro-esquerda parece ocorrer mais em razão de uma rejeição a Sarkozy do que por uma franca e sincera adesão às proposições do Partido Socialista.

Outro risco deste escrutínio é a abstenção. Segundo o CSA, “a França se caracteriza por um nível muito fraco de confiança interpessoal como também em torno das instituições, como, por exemplo, a justiça, o Parlamento ou ainda os sindicatos”.

Ora, ao fim do mandato de Sarkozy contamos com um milhão de desempregados a mais entre 2007 e 2012, ligada à perda da nota “Triplo A” pelas agências de risco, reforçando ainda mais o sentimento de pessimismo.

É por essas razões que esse pleito se arrisca a presenciar uma grande desmobilização dos eleitores. E, para alguns eleitores, uma grande tentação de não votar nos dois candidatos favoritos. Há a possibilidade de que cinco candidatos superem a margem dos 10% de votos.

El Yamine Soum é um sociólogo francês, especialista em temas como imigração e diversidade. Co-autor de livros como La France que nous voulons, Islamophobie au Monde Moderne e Discriminer pour miex régner.

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AS RAÍZES DA RUSSIFICAÇÃO




Hoje em dia existem diversos estudos sobre a perseguição histórica das línguas nacionais em África e Austrália, no Brasil e em Canadá. No entanto, a russificação estatal forçada dos povos no império russo, na época czarista e durante a era dos sovietes, quase sempre foi um assunto pouco estudado e documentado na historiografia soviética e ocidental.

O facto que permite o surgimento da teoria segundo qual ninguém na Rússia – URSS perseguia e proibia o belaruso e ucraniano, o letão e o tártaro. Alegadamente, a própria sociedade “preferia”esquecer as suas línguas nacionais para passar a utilizar a língua russa.

O Museu Nacional da História da Letónia tem no seu extenso leque de exposições e amostras uma exposição permanente,situada na “Sala escolar do museu” (Muzeja skolas klase), que conta a história da educação escolar da Letónia…

Após a anexação da Letónia pelo Império russo no início do século XVIII, as escolas do país passaram à dependência do Ministério da educação da Rússia. Após 1888 começou a implantação da política de russificação forçada da população – a língua letã foi proibida não apenas no ensino, mas como o instrumento de comunicação, os alunos eram estritamente proibidos de usa-la nas conversas no recinto escolar. 

“Eu hoje conversei em letão”, os quadros pejorativos deste tipo eram colocados nos pescoços das crianças nas escolas da Letônia na época do czar russo Alexandre III (o pai do último rei russo, Nicolau II), para desencorajar o uso da língua letã pelos letões...

Após a proclamação da Independência em 1918, a educação popular na Letónia se torna obrigatória e em língua nacional. Depois da perda de independência em 1940 e novamente em 1944,o ensino mais uma vez passa, maioritariamente, para a língua russa, baseando-senas ideias de marxismo – leninismo cuja meta era educação dos jovens no espírito da sociedade comunista…

Fonte:
http://www.history-museum.lv/pages/pamatekspozicija-un-izstades/muzeja-skolas-klase.php

A russificação da Ucrânia

Sensivelmente na mesma época no Império russo foi emitido o Decreto de Valuev (1863), que proibia a publicação de livros religiosos, científicos e educacionais em língua ucraniana, permitindo contudo a publicação de obras literárias, definitivamente proibidas pelo Decreto de Ems(1876). O novo decreto secreto proibia quase a totalidade das edições em língua ucraniana, nunca foi revogado, mas deixou de ser oficiosamente aplicado após1905.


CANIBALISMO NA LUNDA DOS ANOS DE MIL E OITOCENTOS




“AUTO DE DECLARAÇÃO PRESTADAS POR MONA-N’GUELLO, GRANDE E HERDEIRO DO ESTADO DE CAPENDA CAMULEMBA,CABANGUE SOBRINHO DO SOBA QUITUPO-CAHANDO E ZENGA SOBRINHO DO SOBA QUIZAZE”

Ao primeiro dia do mês de Junho do anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil oitocentos noventa e um na Estação Costa e Silva, sede da Delegação do governo Portuguez, na margem direita do rio Cuango, aonde se achava o delegado do governo Frederico César Trigo Teixeira, capitão do exercito da África Occidental, comigo António Augusto d’Araujo Palha de Carvalho ajudante da expedição, achando-se também presente o tenente Simão Candido Sarmento, delegado do governo Portuguez na região da LUNDA que a este veio em serviço publico e bem assim sua Exma Esposa D. Maria Felizarda de Amorim Sarmento, interprete Domingos Manoel da Silva, Manoel João Soares Braga, João Cunha Soares e Joaquim José Martins de Sant’Anna, 2.º cabo numero cincoenta e oito e quinhentos e oito da primeira companhia, Abel numero sessenta e duzentos e noventa da segunda companhia e Couro soldado numero cento e sete e seiscentos e quatorze da terceira companhia todos do batalhão de Caçadores numero três, destacados n’esta delegação;

Compareceram Mona N’guello, grande e herdeiro do Estado de Capenda Camulemba, Cabangue sobrinho do soba Quitupo-Cahando eZenga sobrinho do soba Quizaze, que declararam o seguinte;

Que em um dos dias do mês de Abril que não podem precisar passara em suas terras uma força de pretos ao serviço dos Estados Livres do Congo que se dirigiam para o Capenda Camulemba levando em sua companhia um preto que haviam comprado para os lados do Mussuco, o qual lhes consta fora morto no rio Lué, e comido pela mesma força, tendo-se encontrado uma mão da victima na banza do capenda.

Que desde princípio desconfiaram d’esta gente por costumarem metter agulhas no nariz para tirarem sangue que juntavam á comida, e tendo vivido sempre com os portuguezes de quem são subditos, nunca lhe viram praticar taes cousas.

Que achando-se aqui o delegado de Sua Majestade El-Rei de Portugal, único senhor de suas terras, vinham protestar contra tal crime, o primeiro d’este genero praticado em suas terras, e pedir para que fossem obrigados a retirar da banza do Capenda Camulemba e N’GuriA’cama, os Belgas que alli se acharem para evitarem digo evitar que se comettam outros crimes revoltantes como o que há pouco praticaram.

Que se não fora achar-se em suas terras o delegado de Sua Magestade Fidellissima El-Rei de Portugal, elles teriam feito justiça por suas mãos matando todos os belgas que se acham em Capenda Camulembae N’guri A’cama.

Pelo que se lavrou este auto que depois de lido por mim António Augusto de Araujo Palha de Carvalho e explicado pelo interprete na língua do paiz, vae assignado por todos e de cruz pelos que não sabem ler nem escrever e por mim António de Araujo Palha de Carvalho, escrivão nomeado para este auto.

(Ass.) Frederico Cesar Trigo Teixeira, cap.Do Deleg.º do Gov.º; Simão Candido Sarmento, Delegado do Governo na Lunda;Maria Felizarda d’Amorim Sarmento; Domingos Manoel da Silva; Manoel João SoaresBraga; + João da Cunha Soares; +Joaquim José Martins de Sant’Anna; +Abel;Couro; +Mona-N’guello grande herdeiro do Estado de Capenda Camulemba; +Calangue, sobrinho do soba Quitupo-Cahando; +Zenga, sobrinho do soba Quizaze.

O escrivão António Augusto de Araujo Palha deCarvalho, ajudante da expedição. Certifico serem dos proprios individuos asassignaturas feitas n’este auto. Eratut supra. O escrivão, António Augusto deAraujo Palha de Carvalho, Ajudante da expedição. 

Comissão do Manifesto Jurídico Sociológico do Protectorado da Lunda Tchokwe