sexta-feira, 20 de julho de 2012

Diminui o trabalho infantil, mas ainda atinge 4,2 milhões de crianças e adolescentes



Diário Liberdade

Ecodebate - De acordo com o relatório "Perfil do Trabalho Decente no Brasil – Um Olhar sobre as Unidades da Federação", divulgado ontem (19) pelo Escritório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) no Brasil, o número de crianças e adolescentes ocupados entre 5 e 17 anos de idade reduziu-se em 1,05 milhão entre 2004 e 2009, passando de 5,3 milhões para 4,2 milhões; em termos percentuais, a incidência do trabalho infantil e adolescente nesse grupo etário reduziu-se de 11,8% para 9,8%, passando a situar-se abaixo de dois dígitos a partir de 2009.

O trabalho infantil diminuiu em todos os grupos etários. Na faixa de 5 a 9 anos, a proporção de crianças ocupadas diminuiu de 1,4% para 0,8%. Apesar desse declínio, um contingente de 123 mil meninos e meninas ainda estava trabalhando no ano de 2009. A região Nordeste abrigava 46,3% desse contingente (o correspondente a 57 mil crianças), seguida pelas regiões Sudeste (24 mil ou 19,5% do total) e Norte (20 mil ou 16,2% do total). Vale ressaltar que em algumas UFs, o trabalho infantil nessa faixa etária, era tão reduzido, que nem sequer apresentava significância amostral: Roraima, Pará, Maranhão, Paraíba, Alagoas, Sergipe, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso desde 2004, e São Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal, Sergipe e Tocantins desde 2009. Em se mantendo esta tendência de insignificância estatística até 2015, essa situação seria uma evidência da existência de importantes zonas livres de trabalho infantil nessa faixa etária, desde que se intensifiquem em oferta e qualidade as políticas públicas destinadas à proteção integral e à geração de oportunidades de trabalho decente para homens e mulheres, aliadas à oferta adequada de serviços e equipamentos que facilitem a conciliação entre o trabalho e as responsabilidades familiares.

A proporção de crianças de 10 a 13 anos que trabalhavam reduziu-se de 8,4% para 5,7% no mesmo período. Na área rural, a redução foi extremamente significativa (quase de dez pontos percentuais) ao passar de 25,1% para 15,6%. Na área urbana, onde a incidência do trabalho nessa faixa etária é bem menor, também se registra um declínio, 4,2% para 3,4%.

Em 2009, o nível de ocupação das crianças e adolescentes de 10 a 17 anos de idade ainda era bastante elevado no Tocantins (24,2%), Rondônia (22,0%), Piauí (21,8%), Santa Catarina (21,6%) e Bahia (20,1%), situando-se inclusive bastante acima da média nacional (14,8%). No Piauí, também era bastante significativo o diferencial de incidência de trabalho infantil entre brancos (16,5%) e negros (23,4%).

Veja a versão resumida do relatório

Fonte: Organização Internacional do Trabalho (OIT) no Brasil

POVO ESPANHOL PEDE SACRIFÍCIO DE POLÍTICOS E BANQUEIROS




Protestos em mais de 80 cidades da Espanha levam centenas de milhares às ruas para contestar o corte de 65 bilhões de euros aprovado pelo governo. Políticos e banqueiros foram alvos das manifestações. “Há muitos gastos e cargos políticos a enxugar antes de tirar da educação, da saúde, de aposentados e de desempregados”, repetiam os madrilenhos que aderiram à marcha. A reportagem é de Guilherme Kolling, direto de Madri

Guilherme Kolling, de Madri – Carta Maior

Madri - “A joderlos!, ooéé! A joderlos, ooéé!”... O principal grito de guerra da torcida da Espanha na Eurocopa 2012 (o original é Por La Roja!, ooéé!) ganhou uma paródia malcriada que ecoou pelas principais vias do centro de Madri na noite desta quinta-feira. Quem cantava era o povo que saiu às ruas para protestar. O alvo eram políticos e banqueiros.

A inspiração veio da deputada Andrea Fabra, do conservador Partido Popular (PP), que foi flagrada dizendo 'que se jodan!', durante a apresentação no Congresso espanhol do corte de 65 bilhões de euros anunciado pelo governo na semana passada.

A população atingida pela medida reagiu com força, em 80 cidades. Em Madri, mais de 100 mil pessoas participaram da marcha pelo Paseo del Prado, Calle de Alcalá, até chegar na Puerta del Sol.

Um deles era Carlos Gaudencio, funcionário da prefeitura que exibia um cartaz parafraseando a deputada do PP, mas atacando os políticos. “Que se jodan, pero mira cómo roban!” Havia muitos outros estandartes nesse estilo, caso de uma bandeira da União Europeia contornada pelos dizeres “Bancos y políticos, que se jodan”.

Organizado pelos principais sindicatos do país ibérico, o ato tinha como título “Quieren arruinar com el país. Hay que impedirlo. Somo más”. Teve apoio maciço de centenas de entidades e de milhares de cidadãos que simplesmente desejavam manifestar seu descontentamento com as medidas do governo de direita comandado por Mariano Rajoy (PP).

O pacote aumenta impostos e sacrifica funcionários públicos, aposentados e desempregados. Nem educação nem saúde foram poupados. Rajoy declarou que não gostaria de ter adotado as medidas, mas justificou que não havia outra opção para a Espanha, que precisa reduzir seu déficit para receber o resgate de 100 bilhões de euros da União Europeia para salvar seus bancos.

A interpretação exibida nas ruas é outra. Seja no “Manos arriba! Eso es un asalto!”, uma das palavras de ordem da caminhada, ou no cartaz com os dizeres “Nos roban dinero para dar a los banqueros”.

Ao invés de cortes nos salários e em áreas sociais, os manifestantes defendem menos dinheiro às instituições financeiras, menos cargos políticos, redução dos altos salários e nas benesses de parlamentares.

“Nesses últimos três meses, tivemos perdas que superam 5 mil euros. São 5 mil euros a menos por ano no nosso salário!”, denunciava o bombeiro José Luis Garcia, integrante de uma das classes que esteve em peso na passeata de Madri. “Nos tiraram salário extra, pagamento de Natal, seguro médico, auxílio-alimentação. Antes de fazer isso, poderiam extinguir pelo menos uns 80% dos cargos políticos desse país”, sugeriu.

Julián Sánchez, também bombeiro, exemplificou os efeitos negativos dos sucessivos recortes na corporação com o aumento do número de plantões e a falta de pessoal e de material de trabalho. “E os carros oficiais que deixam a disposição dos políticos? E o dinheiro para Fórmula 1 em Valência? Enfim, não se pode dizer que a única saída era tomar essas medidas. Há muito para cortar”.

Além de bombeiros, profissionais do canal de televisão Telemadrid, enfermeiros, profissionais da educação e até mesmo policiais engrossaram a marcha. A classe cultural também se mobilizou, com direito a presença ilustre do ator Javier Barden. “Cultura no es lujo”, era um dos dizeres do grupo.

A tese do corte de benesses à classe política foi repetida por vários ativistas, que se referiam a uma pesquisa divulgada neste ano, que revelou que a Espanha tem mais de 400 mil cargos políticos, número muito superior aos pouco mais de 100 mil que existem na Alemanha.

Olga Rosa e Maite Méndez, funcionárias da Universidade Carlos III de Madri, criticaram o desconto no salário dos servidores que ficam doentes. E disseram que há muito desperdício com dinheiro público, como recursos destinados a touradas, incentivadas por serem consideradas um bem cultural.

Julia Ogaña, funcionária do Estado de Madri, observou que a suspensão do salário extra e do pagamento de Natal não atinge parlamentares, que recebem esse valor diluído nos vencimentos mensais.

A administradora de empresas Nieves Palomares, 50 anos, está desempregada e vai ser atingida pelos cortes. Ela compara a ajuda de algumas centenas de euros recebida por quem está sem trabalho com salários em cargos públicos que superam 100 mil euros. “Não seria mais justo diminuir um pouco o soldo deles?”, questiona.

Reduzir recursos da Família Real ou cortar os benefícios fiscais da Igreja foram outras sugestões dos manifestantes. No manifesto lido na Puerta del Sol ao final da caminhada, ficou a promessa de que, enquanto o povo não for ouvido, permanecerá protestando na rua.

Fotos: Guilherme Kolling

PR de Portugal cala-se quando deve falar e, é claro, fala quando deve estar calado




Orlando Castro*, jornalista – Alto Hama*

À semelhança do que acontece com o seu país, sobre a CPLP em geral e a Guiné-Bissau em particular, Cavaco Silva sabe o que diz mas não diz o que sabe. Melhor fora ficar calado.

Falando hoje em Maputo na IX Cimeira de Chefes de Estado e de Governo, o presidente português elogiou a actuação da Comunidade de Países de Língua Portuguesa dizendo que foi ela que conseguiu colocar na agenda internacional a “necessidade e urgência” da condenação do golpe de Estado de Abril na Guiné-Bissau.

“Foi atuando neste quadro de referência e de forma solidária que soubemos prestar auxílio ao país irmão da Guiné-Bissau, trazendo para a agenda internacional a necessidade e a urgência da condenação do golpe militar de 12 de Abril por parte dos nossos parceiros bilaterais, União Africana, da União Europeia e do Conselho de Segurança das Nações Unidas”, sublinhou o chefe de Estado português numa clara manifestação que visa branquear o que se passou na Guiné antes deste golpe.

Cavaco Silva assinalou que os estados da CPLP têm uma responsabilidade acrescida, no plano internacional, na defesa e difusão dos princípios fundadores da comunidade, nomeadamente a paz, o Estado de Direito democrático, os direitos humanos e o desenvolvimento económico-social.

Certamente ao falar de Estado de Direito democrático estaria a pensar em Angola, país cujo presidente está no poder há 33 anos sem nunca ter sido eleito.

“Não tenhamos dúvidas: a nossa união e coerência, no seio da CPLP, tem tornado cada um dos nossos países mais forte, tanto no contexto regional, como no plano internacional. A força da nossa comunidade reflecte-se assim, em cada estado-membro, sendo simultaneamente, ela própria uma força credível”, frisou o Presidente português.

Cavaco Silva não referiu, mas certamente ao falar de credibilidade estaria a pensar nos lautos jantares que a CPLP organiza nos principais areópagos da política lusófona, ou no facto de, no universos da CPLP, haver 28 milhões de pessoas desnutridas, ranking liderado por Angola (44%), Moçambique (37%), Guiné-Bissau (31%) e Timor-Leste (23%).

Cavaco Silva apontou Timor-Leste como exemplo de sucesso de consolidação de um estado pelo sentido cívico e maturidade eleitoral com que realizou em apenas um ano dois processos eleitorais.

“O sucesso do processo de consolidação do Estado timorense, que só este ano atravessou, com sentido cívico e elevada maturidade política, dois processos eleitorais, prestigia a CPLP e constitui um exemplo para o mundo”, realçou o chefe de Estado português.

Estaria Cavaco Silva a falar da violência pós-eleitoral em que foram destruídas 60 viaturas, e se registaram vários feridos e pelo menos um morto? Ou seria da corrupção que reina no governo de Xanana Gusmão?

Alguém na CPLP, a começar por Cavaco Silva, quer saber que em Angola 68% da população é afectada pela pobreza, que a taxa de mortalidade infantil é a terceira mais alta do mundo, com 250 mortes por cada 1.000 crianças?

Alguém na CPLP, a começar por Cavaco Silva, quer saber que apenas 38% da população angolana tem acesso a água potável e somente 44% dispõe de saneamento básico?

Alguém na CPLP, a começar por Cavaco Silva, quer saber que apenas um quarto da população angolana tem acesso a serviços de saúde, que, na maior parte dos casos, são de fraca qualidade?

Alguém na CPLP, a começar por Cavaco Silva, quer saber que em Angola 12% dos hospitais, 11% dos centros de saúde e 85% dos postos de saúde existentes no país apresentam problemas ao nível das instalações, da falta de pessoal e de carência de medicamentos?

Alguém na CPLP, a começar por Cavaco Silva, quer saber que 45% das crianças angolanas sofrerem de má nutrição crónica, sendo que uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos?

Alguém na CPLP, a começar por Cavaco Silva, quer saber que três países lusófonos - Guiné-Bissau, Angola e Moçambique - estão entre os que têm a pior taxa de mortalidade infantil, de acordo com o relatório sobre a Situação da População Mundial relativo a 2011?

Alguém na CPLP, a começar por Cavaco Silva, quer saber que, segundo o relatório do Fundo das Nações Unidas para a População (FNUAP), em cada 1.000 nascidos vivos, morrem 192,6 na Guiné-Bissau (só ultrapassada pelo Afeganistão e pelo Chade), 160,5 em Angola e 141,9 em Moçambique?

Alguém na CPLP, a começar por Cavaco Silva, quer saber que entre os países de língua portuguesa, seguem-se São Tomé e Príncipe, com 77,8 crianças, e Timor-Leste, com 56,4?

Alguém na CPLP, a começar por Cavaco Silva, quer saber que, ainda no capítulo da saúde materno-infantil, 1.000 em cada 100.000 mulheres na Guiné-Bissau morrem no parto (pior registo só no Afeganistão e no Chade)?

Alguém na CPLP, a começar por Cavaco Silva, quer saber que, no que diz respeito à taxa de partos entre adolescentes (15 a 19 anos), é Moçambique que lidera, com 185 (em cada 1.000), 170 na Guiné-Bissau, 165 em Angola, 92 em Cabo Verde, 91 em São Tomé e Príncipe, 59 em Timor-Leste?

* Orlando Castro, jornalista angolano-português - O poder das ideias acima das ideias de poder, porque não se é Jornalista (digo eu) seis ou sete horas por dia a uns tantos euros por mês, mas sim 24 horas por dia, mesmo estando (des)empregado.

Título anterior do autor, compilado em Página Global: REGIME ANGOLANO SOMA MAIS UM ÊXITO!

O AMOR, OS BANCOS E O RENDIMENTO MÍNIMO




José Manuel Pureza – Diário de Notícias, opinião

Gandhi ensinou-nos que a política tem de ser um gesto amoroso para com o povo. Em nome desse princípio, Gandhi animou o mais pujante movimento de resistência não violenta que a História regista, fez desabar um império arrogante e deu voz a milhões de homens e mulheres silenciados pela lei. Essa crucial experiência histórica ficou como testemunho inapagável de que o amor na política e na economia não é um vago princípio de cordialidade com todos indiferenciadamente, mas, sim, um dever de romper com costumes, comportamentos e estruturas de exploração e de infelicidade imposto por um imperativo de cuidado preferencial com os pobres. Esse dever ganha corpo quer em políticas de discriminação positiva quer na exigência de não discriminação negativa.

Vamos a um caso concreto. O Governo decidiu que os beneficiários do rendimento social de inserção (RSI) ficam obrigados a prestar 15 horas de atividade voluntária em instituições sociais ou autarquias. A medida abrange 50 mil pessoas. O secretário de Estado da Segurança Social invocou como justificação desta medida ser exigível que "as pessoas beneficiárias de uma prestação do Estado a possam retribuir à comunidade que as envolve." Soma-se a isto o anúncio entusiástico, pelo Governo, de novas regras de "maior controlo, maior combate à fraude, maior combate ao excesso" com uma perspetiva de poupança de 70 milhões de euros nesta prestação.

Há nestas decisões uma cultura que fica no avesso do cuidado preferencial dos mais pobres. Primeiro porque elas tornaram política pública a velha rábula de Raul Solnado ("quer queiras quer não queiras, vais para bombeiro voluntário"), com a diferença de que agora se chama eufemisticamente trabalho voluntário àquilo que é, na verdade, trabalho forçado e gratuito. Segundo, porque lhes subjaz uma estratégia da suspeição, apesar de o RSI ser a prestação social objeto de controlo mais rigoroso em Portugal, incluindo a admissão de violação do sigilo bancário dos seus beneficiários. Ser beneficiário do RSI dá direito, por definição, a ser-se suspeito de fraude e de preguiça. Até prova em contrário que cabe ao próprio evidenciar.

Terceiro, e mais que tudo, porque se impõe aos pobres aquilo que se dispensa os ricos de fazer. É exigível que quem beneficia de um apoio do Estado o retribua à comunidade? Pois bem, vai o Governo aplicar essa lógica aos bancos privados que beneficiaram de injeções de capital de mais de cinco mil milhões de euros e exigir-lhes que retribuam esse apoio através de uma política de crédito à economia que teimam em se recusar a adotar? Antecipo a crítica: o Estado não pode mandar nos bancos privados porque são privados. E respondo com três perguntas: Não pode mandar, só pode apoiar? Os beneficiários do RSI não são também privados? Os apoios públicos devem ser retribuídos à comunidade ou só os apoios públicos aos pobres o devem ser? Quanto à fraude, sou eu que tenho mau feitio ou a taxa de fraude perpetrada pelos bancos privados é muito, mas muito superior à dos beneficiários do RSI (estou a lembrar-me de BPN, Barclays, HSBC, ...)? Vai então o Governo adotar regras de "maior controlo, maior combate à fraude, maior combate ao excesso" na atividade bancária, incluindo a admissão de fim do sigilo bancário dos seus administradores?

Estou absolutamente convencido de que os defensores do amor como critério da gestão, da economia e da política me darão razão. Porque o amor é assim mesmo: não discrimina os pobres. Ama-os apenas. E isso pode ser ameaçador.

Portugal - Freeport. Tribunal do Barreiro manda investigar José Sócrates



Solange Sousa Mendes – i online

Advogado do ex-primeiro-ministro considera lamentável que tribunal retome suspeitas

O tribunal do Barreiro mandou investigar os actos de José Sócrates e eventuais pagamentos ilegais que se lhe tenham sido feitos, na altura em que era ministro do Ambiente. Para isso, já mandou extrair uma certidão com o objectivo de apurar todo o seu envolvimento no caso Freeport.

Apesar de o mesmo tribunal ter absolvido Charles Smith e Manuel Pedro do crime de tentativa de extorsão, considera que há “fortes indícios” de que foram feitos pagamentos a alguém do Ministério do Ambiente e da administração pública.

O colectivo de juízes decidiu pela extracção da certidão, porque considerou credíveis os depoimentos três testemunhas, sem ligação entre si, que afirmaram o mesmo: que Manuel Pedro lhes disse que tinham sido feitos pagamentos ao ex-primeiro-ministro.

No fim da leitura do acórdão, que durou mais de três horas, o juíz lembrou que José Sócrates poderá defender o seu nome, depois de nunca ter sido ouvido em qualquer momento.

A advogada dos dois arguidos, Paula Lourenço, afirmou estar "satisfeita" com a sentença, porque "a abolição era uma certeza desde o primeiro dia". Além disso, disse que o tribunal passou um atestado de incompetência ao Ministério Público, que investigou o caso, durante seis anos.


A AMPLA CIDADE



Rui Peralta

Israel

45 anos depois da Guerra dos 6 dias, 30 anos após a primeira Invasão ao Líbano e 25 anos passados desde a primeira Intifada, o silêncio da imprensa israelita sobre estes assuntos é ensurdecedor. Aliás o silêncio da imprensa israelita sobre qualquer assunto referente aos palestinianos é um comportamento algo esquizofrénico, como se estivesse em curso um “limpar de memória” em relação á História recente, assim como aquela pancado do Estaline em relação às fotografias dos eus ex-camaradas, que iam “desaparecendo” dos registos fotográficos á medida que fossem acusados de “inimigos do socialismo” e “agentes do capitalismo”.

Os palestinianos não são o único povo do mundo que carece de um estado independente. Existem muitos outros como, por exemplo, os tibetanos, os bascos, os curdos…Mas existe uma diferença entre a ocupação israelita na Palestina em relação á Espanha nas Terras Bascas, á Turquia e outros estados com os Curdos, ou á China com o Tibete: Em todos estes casos – e nos outros que não mencionei – o país ocupante anexou o território e converteu a população desses territórios em cidadãos seus. Israel nunca fez isso. Entregou os territórios ocupados á administração militar. Também em relação á ocupação dos USA no Iraque ou no Afeganistão existe uma diferença fundamental: É que Israel considera como seus os territórios ocupados. A particularidade da ocupação sionista é considera que os territórios que ocupou são seus, mas as populações que habitavam nesses territórios não passaram a ser seus cidadãos. As terras são suas mas as pessoas não.

Neste sentido a ocupação israelita é um fenómeno único. Metade da população sob controlo de Israel não goza dos direitos civis mais básicos nem tem representação politica alguma. Israel é uma democracia para os cidadãos judaicos mas uma ditadura brutal para os palestinianos, que nem são cidadãos. A vida de cada palestiniano da Cisjordânia ou de Gaza, está á mercê da decisão de qualquer soldado israelita. São milhões de pessoas que não têm as mais elementares garantias que qualquer população civil tem noutras partes do mundo. Os palestinianos são julgados por tribunais militares, onde fiscais e juízes vestem o mesmo uniforme do exército israelita. Não têm permissão para sair da Cisjordânia ou de Gaza sem um visto dos militares israelitas, são submetidos a longas esperas nos checkpoints e a revistas constantes, sempre que se cruzam com um militar. Os soldados entram nas suas casas a qualquer hora do dia ou da noite sem ordem judicial. Quando são maltratados pelas autoridades militares sionistas não têm a quem apresentar queixa. Os palestinianos não são israelitas com menos direitos. São prisioneiros dos israelitas.

Em cima de tudo isto ainda há os colonatos. Depois da Guerra dos 6 dias tiveram a bênção da esquerda sionista, então a força politica israelita dominante (o Bloco Trabalhista governou Israel de 1948 até aos finais da década de 70). Nunca existiu uma discussão séria, na sociedade israelita, sobre os colonatos, excepto sobre a localização, tipo e tamanho. Colonizar Jerusalém oriental, Cisjordânia e Gaza era – e é – justo, na maioria das mentes israelitas. Como resultado: Hoje mais de meio milhão de israelitas vive a Este da “Linha Verde”.

O Knesset – parlamento israelita - participou em todas estas decisões, abrangendo a maioria do espectro politico israelita: Trabalhistas, Likud, extrema-direita…Nos finais dos anos 70 Israel decidiu que toda a terra estatal nos territórios ocupados estava disponível para seu uso. As agencias governamentais facilitaram a construção para habitação de israelitas na Cisjordânia e o

Supremo Tribunal aprovou o confisco de terras e o uso maciço dos recursos palestinianos. Após os Acordos de Oslo a Cisjordânia ficou dividida em 3 áreas, ficando a maior delas – a Área C – sob controlo israelita. A ideia era, num prazo de 6 anos, obter um mútuo acordo definitivo que colocaria um ponto final na ocupação. Mas isso nunca ocorreu. Em lugar de deixar que o Acordo de Oslo expirasse, Israel começou a actuar como se houvesse tomado oficialmente a Área C. Hoje Israel constrói estradas e autoestradas, novos bairros, espaços comerciais e centros culturais para a sua população na Cisjordânia, ao mesmo tempo que empurra a população palestina para fora da Área C. Centenas de casas consideradas “ilegais”, dos palestinianos, são demolidas por ano e não são concedidas licenças para construção de novas casas.

Nos últimos anos a ocupação alcançou o seu nível mais sofisticado. Nela participam a indústria de alta tecnologia, com novas ferramentas e métodos de controlo e supervisão da população ocupada (Israel esporta o conhecimento que o seu exército adquiriu na Cisjordânia e em Gaza, para outras forças armadas de países ocupantes e tecnologia de luta antiterrorista), juristas e académicos de Direito idealizam e ensaiam legislação e normas para permitirem uma base legal de apropriação de bens e privação de direitos e o corpo diplomático participa numa guerra de propaganda cujo fim é convencer o mundo de que os palestinianos são os culpados da ocupação.

Todos os esforços para “juntar” israelitas e palestinianos, num assomo de “boa vontade” ou de “construção de pontes”, “de vasos comunicantes”, está condenada ao fracasso. Por uma razão muito simples que até os mais esforçados pacifistas e “homens de bom coração” conseguem entender: a única relação possível, na actual situação, é a de carcereiro e prisioneiro. E com essa relação ninguém espere resultados. A não ser que queiram prisioneiros adestrados e bem comportados e carcereiros bem-educados e melhor intencionados…

Ausência

A alma dorida dos teus rascunhos dedicados, mudos, sussurrados em novos versos de velhas melodias cantadas. Os teus silêncios já não são a tua alma perdida nas savanas. O teu silencio é a minha masmorra onde morro em cada segundo da tua ausência.

A cidade das sombras

O totalitarismo global do século XXI não tem rosto. Não porque use uma burka ou um véu a tapar-lhe o rosto. Não! É que pura e simplesmente não tem rosto. Varia segundo cada continente e modifica-se de acordo com a História e os antropemas e é de uma circularidade sem igual. Caracteriza-se por um fosso abismal e incontornável entre pobres e ricos, mas onde os pobres podem ser divididos em círculos concêntricos, de forma a criar uma pobreza que evolui na pobreza, mas que são pobres menos pobres que os pobres do século passado, ou da ultima década e os pobres do centro são menos pobres – por muito pobres que sejam – do que os pobres dos círculos periféricos. E os ricos são sempre mais ricos, também em círculos concêntricos e periféricos.

Outra das suas características é o consumismo acéfalo que consome o questionamento, ou seja, a capacidade critica. Os indivíduos deixam de o ser, na sua plenitude e passam a identidades individuais e colectivas. Vivem para ter e perdem a noção do gozo de ter para viver. Os pobres são os inimigos, o resto são os amigos, os concorrentes e os ídolos. A Historia passa á Historia e torna-se num imenso cesto de papéis, porque tem tão pouco significado que nem vale a pena substitui-la por uma daquelas máquinas de triturar papel.

O totalitarismo global produz pobreza em grandes quantidades, famílias sem tectos e promove a exclusão. Já lá vai o tempo das reservas keinesianas de mão-de-obra. Agora geram-se pobres, exactamente para demonstrar que os ricos são ricos. Só por isso, sem qualquer matemática keinesiana ou sem qualquer sentido tipo: “Temos muitos pobres vamos praticar muita caridade”. Hoje geram-se pobres. Uns mais, outros menos, mas pobres. E mede-se os rendimentos da pobreza, para que, hipocritamente, possa-se apregoar aos ventos todos que os pobres de hoje são em maior número mas são menos pobres que os pobres de ontem. E os que não são pobres de facto mas são pobres de espirito abanam as cabecitas e batem palmas, contentes por manterem os empregos, as reformas, os rendimentos…que o resto não interessa o que interessa é o interesse. Próprio. Mesmo que esse seja o interesse dos que são mais ricos do que os menos ricos, que não são ricos, mas também não são pobres.

Que fizemos com a vida? Em quê que a convertemos? Que fazer com uma vida desgastada, vazia de conteúdo, oca? Será que ainda vivemos ou somos apenas vermes num organismo tóxico, num predador, que passa o tempo em busca da maximização dos lucros? Que fazer? E se nada fizermos? Ou se fizermos, apenas, um doce nada fazer, um laissez-faire radical? E se a vida tornar-se um grito, o individuo um selvagem, as multidões fundirem-se num murmúrio urbano? Que aconteceria se os pobres destruíssem o gueto do capital e quebrassem o gelo dos Gulags construídos em seu nome?

Ausência

Ouvias-me, na alma, em adágio de saudade. No meu olhar vias calma, na minha voz serenidade. E proclamavas a saudade, alimentando de pura água, o meu mar de tranquilidade.

Hoje resta a mágoa.

Colômbia

Apesar da estratégia da oligarquia para impedir a plenitude da liberdade politica e a transformação do regime numa sociedade democrática, comandada pela soberania popular, o povo colombiano cria formas de organização e processos de luta que articulam as aspirações comunitárias, sindicais e politicas. A Marcha Patriótica é um recente exemplo da criatividade organizativa popular. A sua organização e funcionamento inclui os esquemas clássicos da tradição operária com formas alternativas de agrupamento e de acçäo, desde as assembleias populares às redes informáticas alternativas, criando centros de deliberação e de mobilização.

Uma das ferramentas essenciais á sua força transformadora são as paralisações e greves locais, municipais, sectoriais, regionais e nacionais. Estas paralisações cívicas expressam as reclamações das populações em todos os departamentos do país, num vastíssimo leque de problemáticas, levantadas e discutidas. A exigência de Paz, a denúncia dos abusos e da violência policial e militar, as denúncias de corrupção e das negociatas dos políticos da oligarquia, as exigências sindicais pelos direitos dos trabalhadores, as reclamações das associações camponesas, a voz das comunidades indígenas, dos estudantes, dos funcionários públicos, dos desempregados, são motes de discussão e mobilização e ensaios de uma democracia participativa.

É uma nova Colômbia a tomar forma com as experiencias e saberes de todas as lutas: da greve á guerrilha. É uma nova Colômbia que renasce sobre o que serão os escombros da oligarquia.

Ausência

Roubei mais uma rosa vermelha e guardei-a na tua ausência.

India

Um dos meios mais utilizados para manter largas camadas da população afastadas da controvérsia da luta armada ou das simples reivindicações laborais, sociais ou as mais elementares reivindicações do género, é a TV. Primeiro que tudo as cadeias de TV são um excelente negócio. Não só atraem investidores e seus capitais, como são geradoras de lucros tão grandes que elas próprias acabam por adquirir companhias e diversificar os seus investimentos, havendo assim cadeias televisivas que são proprietárias de jornais, rádios, agências publicitarias, minas, empresas de segurança, projectos de alto risco de novas tecnologias, agronegócios e até participações em bancos e seguradoras. E claro, não esqueci, produções cinematográficas. Bollywood é para o capitalismo indiano, aquilo que Hollywood nunca conseguiu ser para o capitalismo norte-americano, ou a Globo e a Record para o capitalismo brasileiro. Aquilo näo é uma fábrica de ilusões. Aquilo é a Ilusäo!

As cadeias de TV da India apanharam bem a mensagem de Bolywood. Documentários, ou pequenos comentários que sejam, sobre a insurreição Adivasi é coisa que não existe. Mostrar a pobreza, a exploração, a destruição da cintura florestal, a corrupção e a violência policial ou as operações militares nem pensar! Isso estraga o negócio e é necessário vender, para o consumo interno e externo, a imagem da India “progressista” em “progresso”. Nada de soldados em Manipur a executarem suspeitos, nem de dezenas de milhares de aldeões de centenas de aldeias reunidas em Koodankulam para protestarem contra a construção de mais uma central nuclear, ou os milhares de manifestantes que fizeram frente á polícia e às mafias mineiras em Jagatsinghpur ou Kalinganagar, ou Niyamgiri, ou Bastar, ou Jaitapur.

Mas em contrapartida, para além das imagens cor-de-rosa da India cor-de-rosa do capitalismo brics, podemos seguir o “modelo de desenvolvimento” proposto por um tenebroso personagem que dirigiu os pogrom contra os muçulmanos em 2002 e que apresenta em diversos canais de TV a sua “visão” para uma India mais pura, isenta de muçulmanos, maoistas e adivasi, visão que é partilhada não só pela extrema-direita nacionalista hindu, como também por largos sectores do Partido do Congresso. E podemos também seguir as luxuosas campanhas pela privatização, que já ninguém sabe de quê, porque já tudo está privatizado e o que não está é administrado por fantoches que representam os interesses dos seus patrões (Policia, Exercito, administração do Estado, governos estaduais e outras instituições).

Talvez as castas superiores ainda criem uma Holding para tomar, definitivamente, a vez do Estado e a India seja governada por um imenso conselho de administração e que em vez de tero um presidente e um primeiro-ministro tenha um CEO. Talvez seja esse o último passo…para uma India Corporated cujo slogan seja, cinicamente, “A Gandhi Dream”.

Fontes
Noam Sheizaf; No end in sight occupation marks 45th anniversary; http://972mag.com
John Berger; Para salvar el momento presente; http://www.jornada.unam.mx
Horacio Duque Giraldo; La Marcha Patriótica teje un Paro Cívico/Político Nacional; http://www.rebelion.org

SAIBA COMO A LUSA ADULTERA E SONEGA NOTÍCIAS SOBRE TIMOR-LESTE




A FALTA DE INFORMAÇÃO TEM NOME: AGÊNCIA LUSA

A cobertura noticiosa dos incidentes de violência em Timor-Leste têm sido uma mostra flagrante do mau trabalho que a Agência Lusa vem desempenhando no novel país do sol nascente. Página Global vai abordar o tema dentro de algumas horas.

AGÊNCIA LUSA

INFORMAÇÃO AUTISTA E MANIPULADA ACERCA DE TIMOR-LESTE


Leia em Página Global o número 1 do título AGÊNCIA LUSA, A VOZ DE QUE DONOS? (1)