segunda-feira, 23 de Abril de 2012

MPLA PÕE A IGREJA CATÓLICA DE JOELHOS




Orlando Castro*, jornalista – Alto Hama*

Embora de vez em quando surjam revoltas dentro da própria Igreja Católica, certo é que a sua hierarquia em Angola continua a fazer o jogo do regime, sobretudo no que à sua colónia de Cabinda respeita.

Contrariando os seus mais basilares princípios, a Igreja Católica está claramente “vendida”ao regime angolano, sendo conivente nas acções de dominação, de prepotência, de desrespeito pelos direitos humanos. Aliás, a tese da libertação foi há muito –mas sobretudo nos últimos anos – manda às malvas pela hierarquia católica.

Por muitas vezes sejam as vezes em que os responsáveis católicos comunguem, certo é que o ano passado foi celebrado um acordo entre o MPLA e a Igreja Católica para que esta o apoie na campanha eleitoral de 2012.

“Da parte do partido no poder agenciou o acordo Manuel Vicente, na condição de PCA da Sonangol a mando de Eduardo dos Santos, ao passo que da parte da Igreja estiveram alguns bispos do regime, Dom Damião Franklim e a Filomeno Vieira Dias de Cabinda, com orientações do militante cardeal Alexandre do Nascimento, escreveu na altura o Club K.

Que a hierarquia da Igreja Católica de Angola continua a querer agradar a Deus (José Eduardo dos Santos) e ao Diabo (José Eduardo dos Santos), aviltando os seus mais sublimes fundamentos de luta pela verdade e do espírito de missão, que deveria ser o de dar voz a quem a não tem, não é novidade.

Ao que parece, a enorme violação dos direitos humanos em Cabinda, a forma execrável como as autoridades coloniais de Angola tratam impolutos cidadãos de Cabinda, pouco interessar à Igreja Católica. Isto porque, de facto, o regime colonial compra a sua cobardia dando-lhe as mordomias que a leva a estar de joelhos perante o MPLA.

“Nós, como Diocese, contactamos a Procuradoria-Geral da República e esperamos que o assunto se resolva da forma mais célere e se esclareça quanto antes, embora notamos com preocupação que o tempo da prisão cautelar já se tenha excedido”,dizia em tempos o vice-presidente da CEAST e Bispo da diocese de Cabinda, Dom Filomeno Vieira Dias, dando uma no cravo e outra na ferradura.

Dom Filomeno Vieira Dias sabe que em Cabinda, como em Angola, há cada vez mais gente a ser tratada de forma ignóbil pelo regime do MPLA. No entanto, desde que a Igreja não perca os seus privilégios vai fazendo o jogo dos poucos que têm milhões, estando-se nas tintas para os milhões que têm pouco ou nada.

Não deixa de ser elucidativo da posição subserviente da Igreja Católica o facto de Dom Filomeno Vieira Dias quase resumir os atentados aos direitos humanos em Cabinda ao caso que então correu mundo, e que foi obviamente muito grave, do padre Raul Tati.

“Eu, pessoalmente, visitei este sacerdote. Tive encontro com ele. O nosso vigário geral, também, há poucos dias, visitou-o e teve encontro com ele”, acrescentou o prelado, que rematou, indicando que “é quanto temos a dizer sobre esta matéria.”

Recorde-se que, entre outros, Raul Tati foi humilhado física e psicologicamente e, apesar disso, a Igreja Católica fez de conta que ele até estava bem, recusando-se a denunciar – como era e é seu dever – as abomináveis condições em que o padre e todos os outros detidos tentavam sobreviver.

Apesar de ter pedido a demissão, o Padre Tati não deixa de ser um cidadão. Cidadão cabinda cuja nobreza de espírito o levou a não pactuar com uma Igreja que esquece e até conspurca os seus mais elementares mandamentos.

No final de 2011, D. José Manuel Imbamba, arcebispo de Saurimo e porta-voz da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé, disse que os padres que teimam em defender os interesses dos cabindas não foram afastados por razões políticas, mas por questões disciplinares, nomeadamente por não manterem uma boa relação pastoral com o bispo D. Filomeno Vieira Dias.

D. José Manuel Imbamba sabia e sabe que está a mentir. É grave. Ou estava calado ou, se para tanto tivesse coragem, falaria das pressões do regime angolano sobre os prelados que - tal como aprendeu o arcebispo de Saurimo – apenas querem dar voz a quem a não tem, nomeadamente na colónia angolana de Cabinda.

Aliás, o mesmo se passa com D. Filomeno Vieira Dias que só de vez em quando, raramente, quase nunca, se vai lembrando do “rebanho” que tem a seu cargo como bispo da colónia angolana de Cabinda.

Quando instado a comentar as detenções no estrangeiro de activistas dos direitos humanos de Cabinda, a mando do regime de Luanda ou – quem sabe? – de qualquer força extra-terrestre, o prelado católico não quis (pudera!) desagradar aos donos do poder em Angola e refugiou-se no argumento de que não comentava um caso que tinha ocorrido fora do país.

Consta, contudo, que D. Filomeno Viera Dias mostrou-se preocupado com aquilo que chamou de incapacidade de diálogo entre as pessoas. Pois é. Que em Cabinda todos que ousem pensar de forma diferente do MPLA sejam culpados até prova em contrário, isso não é preocupante para o bispo.

Preocupante é a falta de diálogo… num regime colonialista que só permite o seu próprio monólogo, que se julga dono da verdade, que põe a razão da força acima da força da razão.

“Para nós é sempre preocupante quando não há capacidade de diálogo e conversação entre as pessoas. Portanto ele (Agostinho Chicaia) foi detido fora de Angola, eu não posso pronunciar-me sobre um facto que ocorreu num outro país, não tenho elementos, é algo que procuramos aprofundar, procuramos saber quais são os motivos, mas não temos elementos sobre isto,” disse no seu estilo angélico D. Filomeno Vieira Dias.

Ao contrário do que, supostamente, aprendeu durante a sua formação religiosa, D. Filomeno Vieira Dias só raramente se lembra que deve dar voz a quem a não tem. Recordo-me, por exemplo, que o bispo levou muito tempo a descobrir os excessos do regime colonial angolano em relação aos cidadãos supostamente envolvidos em acções de apoio aos militares da FLEC.

Embora, no caso do ataque à escolta militar e policial angolana à equipa do Togo, tudo tenha acontecido em Janeiro de 2010, só em Junho D. Filomeno Vieira Dias enviou uma carta ao Procurador-Geral da República colonial, João Maria de Sousa, para mostrar preocupação em relação ao excesso de prisão preventiva de activistas e deplorar o adiamento indefinido do julgamento dos acusados.

Antes, a 3 de Maio de 2010, D. Filomeno Vieira Dias dissera que a liberdade de informar e de ser informado é um direito fundamental que não deve ser subalternizado.

Ser o Bispo de Cabinda, recorde-se, a falar de liberdade de informar quando, exactamente em Cabinda (colónia de Angola) se é detido por ter ideias diferentes, sendo que em muitos casos se é preso só porque as autoridades coloniais angolanas pensam que alguém tem ideias diferentes, é algo macabro.

D. Filomeno Vieira Dias disse então que a informação joga um papel fundamental na vida da sociedade, por isso os comunicadores devem fazê-lo com responsabilidade.

Será a responsabilidade a que alude D. Filomeno Vieira Dias, dizer apenas a verdade oficial do regime? Será ser-se livre para ter apenas a liberdade de concordar com as arbitrariedades do regime colonial?

“A liberdade de imprensa é um direito ligado às liberdades fundamentais do homem”, sublinhou na altura o prelado, falando a propósito do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, proclamado pela UNESCO em 1993.

É um direito mas, note-se, apenas nos Estados de Direito, coisa que Angola não é de facto, embora de jure o queira parecer. Aliás, nenhum Estado de Direito viola os direitos humanos de forma tão soez e execrável como faz o regime angolano na sua colónia de Cabinda.

“Quando celebramos esse dia, devemos olhar para o seguinte: que é uma grande responsabilidade informar e informar sempre com verdade,” destacou D. Filomeno Vieira Dias, certamente pedindo de imediato perdão a Deus por ele próprio não contar a verdade toda.

D. Filomeno Vieira Dias deverá, creio, também pedir perdão por se pôr de joelhos perante os donos do poder em Angola, contrariando os ensinamentos, como recordou em Bruxelas o Padre Jorge Casimiro Congo, de que perante os homens deve estar sempre de pé, e de joelhos apenas perante Deus.

E se uma das principais tarefas dos Jornalistas é dar voz a quem a não tem, também a Igreja Católica tem a mesma missão devendo, aliás, ser ela a dar o exemplo. O que não acontece.

Frei João Domingos, por exemplo, afirmou numa homilia em Setembro de 2009, em Angola, que Jesus viveu ao lado do seu povo, encarnando todo o seu sofrimento e dor. E acrescentou que os nossos políticos e governantes só estão preocupados com os seus interesses, das suas famílias e dos seus mais próximos.

Como os angolanos e os cabindas gostariam que tivesse sido D. Filomeno Vieira Dias a dizer estas verdades.

"Não nos podemos calar mesmo que nos custe a vida", disse Frei João Domingos, acrescentando "que muitos governantes que têm grandes carros, numerosas amantes, muita riqueza roubada ao povo, são aparentemente reluzentes mas estão podres por dentro".

Como os angolanos e os cabindas gostariam que tivesse sido D. Filomeno Vieira Dias a dizer estas verdades. Por tudo isso, João Domingos chamou a atenção dos angolanos para não se calarem, para "que continuem a falar e a denunciar as injustiças, para que este país seja diferente".

* Orlando Castro, jornalista angolano-português - O poder das ideias acima das ideias de poder, porque não se é Jornalista (digo eu) seis ou sete horas por dia a uns tantos euros por mês, mas sim 24 horas por dia, mesmo estando (des)empregado.

Título anterior do autor, compilado em Página Global: COMO ELES SÃO FORTES… COM OS FRACOS!

Militares anunciam criação de "fórum de concertação" para procurar soluções para a crise



MB - Lusa

Bissau, 23 abr (Lusa) - Os militares que tomaram o poder na Guiné-Bissau no passado dia 12 anunciaram hoje a criação de um "fórum de concertação" para tentar encontrar soluções para a crise e para o qual convidam partidos, igrejas e pessoas singulares.

Em comunicado, a que agência Lusa teve acesso, o Estado-Maior General das Forças Armadas diz ter criado um fórum de concertação "que funciona 24 horas, todos os dias" para o qual convida partidos com assento e sem assento no Parlamento, todas as confissões religiosas, sociedade civil e pessoas singulares "para uma análise e confrontação de ideias suscetíveis de conduzir o país a uma rápida saída da presente crise".

No mesmo comunicado, o Estado-Maior das Forças Armadas avisa que são proibidas quaisquer manifestações de rua, seja a favor ou de condenação ao golpe de Estado, alegando que essas iniciativas poderão dificultar a procura de soluções para retomar a normalidade no país.

Partidos e movimentos de cidadãos que condenam o golpe de Estado militar estavam a anunciar para hoje a realização de manifestações de repúdio pelas ruas de Bissau.

Num outro comunicado, assinado pelo gabinete de imprensa do Estado-Maior das Forças Armadas, o Comando Militar informa estar em conversações com uma equipa técnica da CEDEAO (Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental) para a busca de uma solução para a crise através da "via do diálogo e da paz" e convida os jornalistas a assistirem a esse encontro.

Os ministros dos Negócios Estrangeiros europeus, reunidos hoje no Luxemburgo, advertiram que a União Europeia está "pronta" a aplicar sanções contra os responsáveis pela instabilidade na Guiné-Bissau, reiterando que não reconhecem o autoproclamado "conselho de transição".

No sábado passado, numa declaração divulgada em Nova Iorque, o Conselho de Segurança das Nações Unidas ameaçou adotar sanções contra a Guiné-Bissau e admitiu apoio ao envio de uma força para o país, o que o ministro dos Negócios Estrangeiros português, Paulo Portas, classificou como uma "posição muito clara" e "um sério aviso aos que insistem na violência na Guiné-Bissau".

PAIGC retira confiança política a Serifo Nhamadjo, primeiro vice-presidente da AR



FP - Lusa

Bissau, 23 abr (Lusa) - O PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde) retirou a confiança política a Serifo Nhamadjo, primeiro vice-presidente da Assembleia Nacional Popular da Guiné-Bissau e do mesmo partido, diz um comunicado hoje divulgado.

No comunicado, datado de domingo, o maior partido da Guiné-Bissau acusa Serifo Nhamadjo de atitude "traidora e irresponsável" e "indigna de um dirigente do partido e de membro da mesa" da Assembleia Nacional, sendo suposto defender a Constituição "e que se transformou em golpista e fora da lei".

Serifo Nhamadjo entrou em rota de colisão com o partido ao candidatar-se a Presidente da República nas eleições de março, contrariamente às indicações do PAIGC, que escolheu como candidato Carlos Gomes Júnior.

Num golpe de Estado no dia 12, um Comando Militar prendeu o Presidente interino, Raimundo Pereira, e o primeiro-ministro eleito em 2008, Carlos Gomes Júnior. O Comando Militar tem estado a discutir com Serifo Nhamadjo uma saída para a crise.

No comunicado, assinado pela Comissão Permanente do Bureau Político do PAIGC, repudia-se também "o ambiente de ameaças e perseguições de que são vítimas os membros do Governo, deputados e responsáveis políticos do partido no poder".

Segundo o PAIGC, "prosseguem" as "perseguições e detenções" de personalidades do Estado, "sendo a última a do secretário de Estado dos Combatentes da Liberdade da Pátria, brigadeiro-general Fodé Cassamá".

No comunicado apela-se também a todos os deputados, em especial aos do PAIGC, para que não tomem parte "em nenhuma farsa democrática" da Assembleia Nacional Popular até à reposição da ordem democrática e constitucional.

BANCOS REABRIRAM NA GUINÉ-BISSAU



FP - Lusa

Bissau, 23 abr (Lusa) - Os bancos que operam em Bissau reabriram hoje, depois de uma semana encerrados na sequência do golpe de Estado de dia 12.

Na manhã de hoje regista-se grande afluência aos bancos, como no balcão central do BAO - Banco da África Ocidental, com as instalações cheias e cerca de duas dezenas de pessoas a aguardar a vez, mas do lado de fora do edifício.

Adalberto Bamba, informático do banco, disse à agência Lusa que o banco está a funcionar normalmente e que todas as operações estão a ser autorizadas.

Também no centro de Bissau o Banco da União regista grande afluência. Samora Vieira da Silva, administrador do banco, disse à Lusa que também todas as operações estão a ser efetuadas, como levantamentos ou depósitos ou pedidos de empréstimo.

De acordo com o responsável, a única diferença é que o período de funcionamento será encurtado até que o país volte à normalidade, estando aberto apenas até às 12:00 e não até às 16:00.

A cidade de Bissau, onde no passado dia 12 os militares tomaram o poder, continua hoje calma e a presença militar nas ruas é quase nula.

NÓS E A ARGENTINA




Paulo Kliass – Correio do Brasil, opinião

A divulgação da decisão da presidenta Cristina Kirchner, a respeito da nacionalização da empresa petroleira YPF, reacendeu ódios e paixões sobre um tema bastante sensível. As famosas relações entre o setor público e o setor privado, as supostas vocações naturais de um e de outro ente para atuar em áreas estratégicas. E, de quebra, ainda contribuiu para acirrar a polarização das posições no debate sobre desenvolvimento nacional e economia.

Antes de mais nada, é importante registrar o papel decisivo que tem sido desempenhado pelos últimos governos da Argentina em termos de opções de políticas públicas. Entre outros aspectos, destaca-se o elemento pedagógico das decisões adotadas, em geral recebidas com desconfiança e surpresa pela grande imprensa, por estarem justamente indo na contracorrente de tudo aquilo que recomendaria a “boa norma” ditada pelas elites locais e internacionais.

Moratória por lá e nada por aqui

Logo no início do mandato do presidente Nestor Kirchner (2003 a 2007), aquele país estava com suas atividades econômicas bastante comprometidas e uma das razões era o enorme peso representado pelas obrigações financeiras de sua dívida externa. Muito antes de tombarem por terra os pressupostos do neoliberalismo, Kirchner aprofundou a postura mais rigorosa no processo de negociação em curso com os credores e decretou a moratória. Como solução conciliadora, apresentou uma proposta de redução de 70% no valor total devido.

Mas do lado de cá do Rio Paraná, o comando da política econômica estava nas mãos da dupla dinâmica Antonio Palocci e Henrique Meirelles, legítimos representantes dos interesses da banca internacional. Assim, foram eles que se encarregaram, à época, de persuadir o Presidente Lula a permanecer calado e não oferecer nenhuma solidariedade àquele gesto, considerado como “populista e irresponsável”, do homólogo de Mercosul.

Esse difícil momento foi superado e a Argentina ofereceu aos países em desenvolvimento e ao mundo em geral uma verdadeira lição de como a economia e a política podem e devem andar juntas. E de como, em alguns momentos, é necessário ao Chefe de Estado ousar para implementar mudanças efetivas. O clima de catastrofismo reinante na imprensa local e internacional era pautado, como sempre, pelos interesses do capital financeiro internacional. Decisão jurássica, postura inconseqüente, calote irresponsável e outros qualificativos asseguravam que a Argentina sairia isolada no cenário internacional, caso insistisse na estratégia da renegociação mais dura, que era apresentada como um verdadeiro suicídio econômico, político e diplomático.

Kirchner dizia que “toda negociação pressupõe um grau de transgressão das regras”. Aliás, nada mais do que uma grande verdade. E assim o país vizinho não desistiu, alegando possuir a legitimidade necessária para tomar a decisão. Chegou até a vencer em todas as instâncias jurídicas internacionais, ao argumentar que as altas taxas de juros presentes nos contratos firmados com os credores eram a contraface do alto risco das operações especulativas. E que, infelizmente, havia chegado o momento do não pagamento. Quem quisesse continuar credor, portanto, deveria aceitar as condições do chamado “canje” – a troca oficial de papéis, com o desconto de 70% sobre o valor de face de cada título da dívida externa.

A grande lição foi que a negociação terminou finalmente por ser aceita pelo mundo financeiro, depois – é claro ! – de muita gritaria, chantagem e ameaça. E, ao contrário do clima artificialmente construído pelos cavaleiros do apocalipse, os investimentos estrangeiros continuaram a fluir para a Argentina ao longo dos anos. Afinal, a economia saía de anos de recessão, o emprego crescia, a produção e atividade em geral foram retomadas. E, como bem sabemos, o capital está sempre à procura de alternativas de rentabilidade. Acusado o golpe e registrada a perda eventual, vamos em frente que os negócios continuam.

No nosso caso, as promessas históricas de auditoria da dívida pública brasileira ficaram como mais uma irresponsável omissão e esquecimento. Ao contrário de Kirchner, nossos dirigentes recém chegados ao poder optaram por seguir a cartilha de adesão ao establishment neoliberal, em que “toda negociação pressupõe um grau completo de submissão”. Reinava o fetichismo de respeito às regras e aos contratos. A dívida externa foi transformada em dívida interna, mas a drenagem bilionária de recursos para pagamento de juros e serviços da mesma manteve-se inalterada. Manteve-se a continuidade do reinado das finanças sobre as demais atividades produtivas.

As relações com os meios de comunicação

Na relação com os poderosos meios de comunicação, deu-se algo semelhante. O governo da Argentina percebeu a necessidade primordial de democratizar esse que é conhecido como o quarto poder na sociedade contemporânea. Ao invés de seguir empurrando com a barriga essa relação de submissão aos interesses de um setor altamente concentrado e umbilicalmente ligado aos interesses econômicos, encaminhou um projeto ao Congresso, que ficou conhecido como “Ley de los Médios”. Enfrentou os interesses contrariados e teve a ousadia de sair para a disputa no interior da sociedade. Mais uma vez saiu vencedor e o futuro mostrará os acertos de tal opção política pública na área de comunicações.

Por aqui, todos sabemos que o setor de comunicações continua firme e forte, recebendo todas as benesses dos sucessivos governos. E, o pior, fazendo todo tipo de chantagem política contra o próprio governo, sempre que lhes for interessante. O grau de oligopolização avança a cada dia, os cruzamentos de oligarquias regionais e grupos familiares não foram tocados. Acuado pela pressão dos interesses dos meios de comunicação, o governo se restringe a tocar o barco e se esquece da importância política de um projeto democrático e nacional para o setor. Ao invés da ousadia para mudar, o que fica é a marca da submissão pelo receio.

Agronegócios e criminosos das ditaduras: lá e cá

Outro momento marcante na política argentina, foi o enfrentamento dos setores ligados à agricultura, pecuária e o agronegócio de forma geral. Como resposta a uma medida de aumento da tributação sobre suas atividades exportadoras, os representantes da agropecuária deram início a um movimento de contestação aberta e de enfrentamento ao governo. Mais uma vez, Cristina Kirchner manteve-se firme na defesa de seu projeto durante o ano de 2008, mas acabou terminando com a derrota do governo no Senado e a necessidade de recuar em sua intenção inicial. De qualquer forma, marca também uma diferença de postura em relação aos nossos dirigentes. Por aqui, a avaliação da importância do agronegócio para o desempenho da pauta exportadora tem levado os sucessivos governos a uma conduta de sujeição aos interesses desse setor, que tende a representar práticas e relações sociais atrasadas e de profunda injustiça social e econômica. A ponto de Lula ter declarado que os usineiros de cana eram os “verdadeiros heróis nacionais” e de empresas denunciadas por trabalho escravo continuarem a receber as benesses de crédito do BNDES e de outras fontes públicas de recursos. Ou então, basta ver a líder ruralista, Senadora Kátia Abreu, agora integrante da base aliada e dando a linha para o governo na votação do Código Florestal.

O julgamento e a condenação dos assassinos e torturadores do período da ditadura militar também marcam uma brutal diferença, a respeito da forma como as sociedades argentina e brasileira optaram por restabelecer a verdade. Ali, o caminho adotado não foi pautado pelo medo de enfrentar os algozes e apurar os crimes cometidos. Muito pelo contrário! Ao invés da impunidade e de homenagens sob a forma de pontes, estradas e viadutos, a Justiça foi acionada e os responsáveis estão presos ou cumpriram as penas devidas. Por aqui, em nossas terras, os sucessivos governos conformam-se com a interpretação restritiva da “anistia recíproca” de 1979, quando a própria Constituição soberana de 1988 abriu espaço para refazer a história desse período. Nem mesmo a nossa Comissão da Verdade foi ainda implantada e sua eficácia jurídica é quase nula, pois não tem poder de fazer justiça.

YPF e a Vale

E para fechar, a comparação que não quer calar é entre a YPF e a Vale. Antes dos gritinhos histéricos do “mas não dá prá comparar!”, já adianto que também acho que são processos bastante distintos. Mas a observação das semelhanças e das diferenças serve também para ilustrar as distintas posturas que os dois países adotaram para tema semelhante e crucial. Cristina optou por voltar ao processo de privatização da empresa estatal argentina, levada a cabo pelo governo Menem em 1993 – contemporâneo de nosso Collor. A avaliação foi que o setor é estratégico para a economia do país vizinho e que a empresa, controlada pela Repsol espanhola, não estaria cumprindo a contento com as necessidades da Argentina, em termos de investimento e de produção. A gritaria local e internacional também foi a mesma, como se poderia imaginar. Os interesses afetados tentam criar o clima generalizado do pré-catástrofe, com todo o apoio dos órgãos de comunicação, inclusive os do nosso lado da fronteira.

Já a nossa Vale foi privatizada, a preço de banana, sob a época de FHC. Leiloada em 1997, o seu valor da compra foi de US$ 3 bilhões, com a possibilidade de utilização de moedas podres e outras facilidades concedidas aos futuros proprietários. Uma verdadeira negociata, em nome da comemoração do “fim da era Vargas” e da supremacia da eficiência do privado sobre o público. Afinal, tudo valia pois Francis Fukuyama, um dos ideólogos do conservadorismo da época do neoliberalismo, já havia decretado o fim da História. Mas, como dizia o vizinho da minha tia, nada como um dia após o outro. As receitas liberalóides não se mostraram assim tão perenes, a crise de 2008 derrubou os alicerces daquele mundo artificial e o novo modelo ainda está por se moldar. Mas nem por isso, desse lado do continente sulamericano, o governo resolveu tomar alguma iniciativa. As antigas propostas do PT e o plebiscito a respeito da venda da Vale foram condenados ao esquecimento.

Apenas para se ter uma idéia, desde a posse de Lula até o final de 2011, a empresa privatizada já acumulou e distribuiu entre seus acionistas lucros no valor de US$ 70 bilhões! Isso sem falar do modelo espoliador das nossas reservas minerais e de exportação de renda e emprego para os países, onde a mão-de-obra e outros custos baixos justificam a ação de lesa pátria. Basta lembrarmos a política de exportação de minério de ferro bruto e a importação de manufaturados para o grupo, a exemplo dos trilhos para as ferrovias e a encomenda dos supercargueiros junto aos estaleiros chineses. E não se fique com a impressão de que tal eficiência no desempenho da empresa se deva ao gênio empreendedor de figuras como Agnelli e outros. Basta ver o caso da Petrobrás, ainda pública e batendo todos os recordes de desempenho, para se ter a noção de que se a Vale voltar a ser pública, não deverá ficar muito atrás em sua performance.

Como sempre, basta vontade política. A decisão de reestatizá-la, em termos de eficiência econômica e empresarial, só faria aumentar a auto-estima de nosso povo e poderia, eventualmente, contribuir para um modelo futuro de desenvolvimento nacional menos desigual e mais sustentável. A Argentina deu o pontapé inicial.

Paulo Kliass é Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal e doutor em Economia pela Universidade de Paris 10.

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DILMA ALCANÇA NOVO RECORDE DE POPULARIDADE E LULA, IDEM




Correio do Brasil, São Paulo

A presidente Dilma Rousseff segue em ascenção junto à Opinião Pública e volta a bater um novo recorde de popularidade, mas seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, é o preferido dos brasileiros para ser o candidato do PT ao Planalto em 2014.

O recorde ocorre tanto na mais alta taxa obtida por Dilma desde a sua posse, em 1º de janeiro de 2011, como na maior aprovação presidencial com um ano e três meses de mandato, em todas as pesquisas até hoje feitas pelo Instituto Datafolha, autor do estudo divulgado na edição deste domingo do diário conservador paulistano Folha de S. Paulo. O governo da presidenta Dilma é avaliado como ótimo ou bom por 64% dos brasileiros, contra 59% em janeiro.

Para 29%, Dilma faz um governo regular. Outros 5% consideram que a atual administração é ruim ou péssima. Em janeiro, essas taxas eram de 33% e 6%, respectivamente. As informações são da FSP.

Lula outra vez

De acordo com a pesquisa, Lula é o predileto de 57% dos brasileiros para disputar novamente o Planalto daqui a dois anos e meio, com um nível também recorde de popularidade para um ex-presidente da República. Outros 32% citam Dilma. Para 6%, nenhum dos dois deve concorrer. E 5% não souberam responder.

Esse é o resultado principal da pesquisa Datafolha realizada nos dias 18 e 19 deste mês com 2.588 pessoas em todos os Estados e no Distrito Federal. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.

Moçambique: Primeiro-ministro considera projeto PROSAVANA prioritário



MMT - Lusa

Maputo, 23 (Lusa) - O primeiro-ministro moçambicano, Aires Ali, considerou hoje "prioritário" o projeto PROSAVANA, que está a ser desenvolvido por agricultores brasileiros e japoneses em 12 distritos das províncias de Nampula, Cabo Delgado e Zambézia, no norte e centro de Moçambique.

O projeto, que abrange cerca de 700 mil hectares de terra, visa promover uma agricultura empresarial, com uma forte componente de transferência de tecnologia.

Falando aos jornalistas, após receber uma missão empresarial que na semana passada visitou Moçambique, Aires Ali assegurou que o Governo moçambicano "tudo fará" para providenciar o necessário acompanhamento do projeto PROSAVANA.

O chefe da delegação brasileira, Luíz Nishimori, reconheceu haver alguns constrangimentos que precisam de ser resolvidos para que o programa produza resultados imediatos.

Luíz Nishimori apontou a necessidade do estabelecimento da cadeia de valor, de desenvolvimento da tecnologia agrícola, do fortalecimento do sistema de extensão agrária e a consulta comunitária por causa das terras, como alguns entraves para o arranque do projeto.

"Outras dificuldades prendem-se com o deficiente acesso aos fertilizantes e crédito, segurança pública e fraca consciência ambiental a nível local", disse Luíz Nishimori, citado pelo jornal Notícias de Maputo.

No ano passado, a organização moçambicana Justiça Ambiental de Moçambique considerou "preocupante e perigoso" a atribuição pelo Governo, "de uma só vez", de 60 mil quilómetros quadrados de terra a agricultores brasileiros, alertando para o risco de violação dos direitos da população.

O executivo de Maputo anunciou a oferta de uma área de 60 mil quilómetros quadrados no norte do país para agricultores brasileiros plantarem cereais e algodão por terem "experiência acumulada".

Citado pelo jornal Folha de São Paulo, o ministro moçambicano da Agricultura, José Pacheco, referiu que as autoridades moçambicanas condicionaram a atribuição do lote de terras à criação de emprego a "90 por cento de mão-de-obra moçambicana".

Moçambique: Governo anuncia elaboração de roteiro para a economia verde



PMA - Lusa

Maputo, 23 abr (Lusa) - O Ministério para a Coordenação da Ação Ambiental de Moçambique anunciou hoje a elaboração de um roteiro para a aplicação de uma economia verde no país, que irá impor diretrizes nos setores da agricultura, energia e urbanismo.

Falando na Conferência Sub-Regional sobre Economia Verde em Moçambique, a ministra para a Coordenação da Ação Ambiental, disse que o roteiro vai presidir ao processo de planificação e tomada de decisão nos diversos setores de atividade no país, de modo a que Moçambique se desenvolva de forma ambientalmente sustentável.

"A escolha da agricultura surge pelo facto de este sector ser o que dinamiza o desenvolvimento nacional. Energia, porque o país tem um potencial de fontes renováveis de energia que, exploradas, poderão contribuir para a captação de divisas. Cidades, porque a maioria da população vive nas zonas rurais, mas tende a migrar para as zonas urbanas", afirmou Alcinda Abreu.

A ministra moçambicana assinalou que a conferência é uma oportunidade para o estabelecimento de parcerias no domínio do ambiente ao nível da região da África Austral, tendo em conta que a questão ambiental esbate os limites físicos das fronteiras nacionais.

Alcinda Abreu considerou que o desenvolvimento sustentável do leste africano, região onde se situa o país, estará condicionado pela melhor gestão dos recursos naturais, atendendo a que as economias da região são muito dependentes dos recursos naturais.

Moçambique, defendeu a ministra, tem alcançado progressos no cumprimento das decisões tomadas nas cimeiras internacionais sobre o ambiente, tendo implementado diversas iniciativas ligadas ao setor.

Aeroportos de Moçambique negoceia crédito com banco brasileiro para expansão...



… do aeroporto de Nacala

PMA - Lusa

Maputo, 23 abr (Lusa) - A empresa Aeroportos de Moçambique (ADM) está a negociar um crédito adicional com o Banco Nacional de Desenvolvimento Económico e Social do Brasil (BNDES) para o alargamento da pista do aeroporto de Nacala, norte do país.

Segundo o diretor da ADM, Manuel Veterano, o fundo será usado no aumento da pista para 900 metros, para permitir a aterragem de aviões de grande porte, como o Airbus A340.

A verba que está a ser negociada com o BNDES será um complemento a um fundo de cerca de 61 milhões de euros já disponibilizados pelo banco brasileiro, para obras de modernização do aeroporto de Nacala.

As obras em curso estão a cargo da construtora brasileira Odebrecht e visam a construção de novos terminais de passageiros e de carga, uma nova torre de controlo, uma estação de bombeiros e parque de estacionamento.

O dinheiro saiu de uma linha de crédito de pouco mais de 228 milhões de euros aberta pela instituição financeira brasileira a favor de Moçambique.

A companhia moçambicana de bandeira Linhas Aéreas de Moçambique (LAM) pondera recorrer a essa verba para a compra de mais aviões, provavelmente de fabrico brasileiro.

HOLLANDE RESSUSCITA PS FRANCÊS, E SARKOZY A EXTREMA-DIREITA




Eduardo Febbro, Paris – Carta Maior

Neste domingo, François Hollande conquistou uma das maiores votações conseguidas até hoje por um candidato socialista no primeiro turno das eleições na França. A partir de agora, as chaves da vitória estão, para Sarkozy, nas mãos da extrema-direita, e, para Hollande, nas de Jean-Luc Mélenchon e sua Frente de Esquerda, além dos votos de centro. Os 20% de Marine Le Pen representam quase um terremoto político. Esse resultado deve muito a Sarkozy e ao racismo de Estado que o próprio presidente encarnou. O artigo é de Eduardo Febbro, direto de Paris.

Paris - “As pétalas da rosa de abril são mais numerosas que os cravos azuis de maio”. As redes sociais repercutiram essa mensagem para burlar a proibição de difundir resultados antes das 8 horas da noite e anunciar assim a vitória do candidato socialista François Hollande no primeiro turno das eleições presidenciais francesas. Mas a celebração não levou em conta a flor negra, o terremoto político que representa o resultado da extrema direita da Frente nacional, cuja candidata, Marine Le Pen, obteve um resultado histórico de 20%. Nicolas Sarkozy perdeu sua aposta e François Hollande ganhou a sua. Com 28,5% dos votos, o candidato do PS supera o presidente francês (26,6%) do primeiro posto e o impede de cumprir o objetivo que ele mesmo fixou: sair deste domingo na liderança da consulta, “ainda que seja por um fio de cabelo”, para, a partir daí, redinamizar a direita e ganhar o segundo turno no próximo dia 6 de maio.

A sanção para Sarkozy é indiscutível: o presidente obteve 5 pontos menos que na eleição de 2007. Ao contrário, François Hollande entrou na história não só porque se converteu em uma carta sólida para a socialdemocracia europeia, mas também porque conquistou uma das maiores votações conseguidas até hoje por um candidato socialista no primeiro turno da eleição. Só é superado por François Miterrand, que obteve 34% em 1988.

No entanto, o poderoso percentual da extrema-direita e o baixo volume de votos obtido pelo candidato da esquerda radical, Jean-Luc Mélenchon (11,5%), convidam à moderação. Hoje começa uma nova campanha e como já demonstrou ao longo de seus cinco anos de mandato, Nicolas Sarkozy não terá nenhuma dúvida em sair a tentar conquistar os votos dessa França que vê na xenofobia, no ódio ao próximo e à imigração, na segurança máxima, no rechaço à Europa e no desprezo aos franceses filhos de pais estrangeiros uma alternativa política.

Essa eleição representa um marco em muitas coisas: é a primeira vez que um presidente que concorre à reeleição não sai na frente no primeiro turno; Marine Le Pen pulverizou o recorde de votos que seu pai e fundador da Frente Nacional, Jean Marie Le Pen, havia obtido em 2002, mais de 16,9%. Ao mesmo tempo, quase duplicou o volume de eleitores que seu pai obteve em 2007 (10,44%).

Neste domingo, os eleitores deram à social democracia francesa um forte respaldo que permite aos seus partidários sonhar sim que o pesadelo se afaste por completo das regiões do sonho. A partir de agora, as chaves da vitória estão, para Sarkozy, nas mãos da extrema-direita, e, para Hollande, nas de Jean-Luc Mélenchon e sua Frente de Esquerda. A guerra para o segundo turno entre Sarkozy e Hollande começou apenas algumas horas depois ao anúncio dos primeiros prognósticos sobre o segundo turno. Estes, mais uma vez, colocaram Hollande quase nove pontos acima de Sarkozy. Este propôs que sejam realizados três debates de hoje até o dia 6 de maio. Hollande respondeu: “não é porque um candidato tenha tido um mal resultado que vamos mudar as regras”. Em seu discurso á noite, Sarkozy disse: “o momento crucial chegou, o da confrontação de projetos e o da escolha das personalidades”. Em sua aparição ante os militantes, Hollande pronunciou um discurso equilibrado e otimista. “Temos todas as condições de obter uma vitória. Esta noite, com o voto dos franceses, converto-me no candidato de quem quer abrir uma nova página”.

Com um centro que diminuiu em relação a 2007 (caiu de 18,57% para os 8,9% atuais), uma candidata ecologista sem peso (2,3%), e uma extrema-esquerda periférica, a reserva de votos está na dupla Marie Le Pen-Mélenchon. Sarkozy perdeu a equação eleitoral que havia fixado para sua campanha: sair em primeiro para relançar uma “dinâmica” e mudar a correlação de forças para o segundo turno. No entanto, nem por isso, já perdeu a eleição. Somados, os votos da extrema-direita e os de Sarkozy chegam quase a 47%. Resta a ambiguidade do centro e as consignas para o seis de maio de cada candidatura.

A candidata ecologista Eva Joly já chamou ou voto para Hollande. Fim a seus compromissos e sem enrolações, Jean-Luc Mélenchon fez o mesmo em um aceso discurso no qual pediu a seus militantes para não se fixarem em comentários e detalhes: “convido-os a nos reencontrarmos no dia 6 de maio sem pedir nada em troca para derrotar Sarkozy”, disse Mélenchon. O candidato centrista François Bayrou não fez declarações de apoio e Marine Le Pen disse que só fará isso no dia 1º de maio.

“A batalha da França acaba de começar (...) Nada será como antes. Contra o que se esperava, os franceses se convidaram para sentar na mesa das elites”, disse neste domingo à noite a líder da FN. Esses resultados constituem uma indiscutível vitória da linha política que adotou e que consistiu em tirar o manto do diabo com o qual seu pai havia envolvido a Frente Nacional. A extrema direita é hoje uma corrente política totalmente normalizada, massivamente aceita e cuja pujança eleitoral influenciará na definição do destino político do país.

Nicolas Sarkozy saiu derrotado, mas com um salva-vidas ao alcance. O resultado da Frente Nacional deve muito a sua política, ao racismo de Estado que o próprio presidente encarnou, aos incontáveis ataques contra os estrangeiros e aos muçulmanos, à permanente raiva com que tratou aos homens e mulheres que vieram para a França, por uma ou outra razão, de todos os cantos do planeta. Não foi ele quem tirou proveito disso por enquanto, mas sim Marine Le Pen. A estratégia sarkozista foi derrotada duas vezes: ele ficou em segundo e não obteve o respaldo dos votos da Frente nacional. Em 2007, Sarkozy recuperou os votos da extrema-direita e com eles e suas promessas garantiu sua vitória. Cinco anos mais tarde, esses eleitores voltaram à fonte original.

O presidente candidato tem uma dupla missão para ser reeleito: seduzir o centro e voltar à pesca de votos na extrema-direita. A tarefa do Partido Socialista será trabalhosa de hoje até o dia 6 de maio. François Hollande obteve um dos resultados mais amplos de um candidato socialista no primeiro turno. O total de votos das listas de esquerda no primeiro turno de 2007 chegou a 36,4%, bem menos do que os quase 44% deste domingo. A perspectiva é alentadora. A meta do PS são os eleitores do centro e alguns votos da extrema-direita. Estes, mais do que um voto de adesão às teses de Marine Le Pen, constituem uma manifestação de rechaço ao sistema político e de medo frente à crise.

A Frente Nacional conta entre seus eleitores com operários que foram da CGT e até mesmo do Partido Comunista. A crise acentuou o fenômeno da “transfrontalização” entre os partidos, o que beneficiou amplamente a extrema-direita. As pesquisas assinalam hoje que cerca de 48% dos eleitores frentistas votariam em Hollande no próximo dia seis de maio. Os socialistas franceses renasceram com um candidato pelo qual ninguém apostava um centavo. Milagre rosa. A direção do partido já colocou em marcha a estratégia discursiva para as próximas duas semanas. Repetir, como fez o ex-ministro socialista da Cultura, Jacques Lang: “Sarkozy contribuiu para legitimar as ideias da Frente nacional e não fez mais do que aumentar a xenofobia e a divisão”.

O domingo teve um momento de sublime revelação na rua Solferino, onde está a sede do PS, um desses instantes no qual se pressente que o destino passa com corpo e alma. Quando Jean-Luc Mélenchon apareceu nas telas das televisões, os militantes socialistas ficaram mudos. O futuro dependia do que ele iria dizer. A televisão pública transmitiu o discurso e dividiu a tela em duas partes: à direita estava Mélanchon, à esquerda, o porta-voz de François Hollande, Manuel Vals, e a candidata de 2007 e ex-companheira de Hollande, Ségolène Royal. Estavam pálidos e tensos enquanto escutavam Mélenchon lançar seus dardos. Um silêncio sepulcral envolveu a sede do PS, onde os militantes escutavam o discurso, hipnotizados pelo temor. Até que chegou a frase liberadora, os gritos e os aplausos quando o candidato da Frente de Esquerda convocou a todos, sem ambiguidade e com uma enorme nobreza, a derrotar Sarkozy.

Outra campanha começa. Outro país pode surgir dentro de duas semanas. É preciso atravessar ainda um campo semeado de medo, de populismo e de um liberalismo cheio de ajustes recessivos. Este domingo deixa duas lições: François Hollande ressuscitou o socialismo, e Sarkozy a extrema-direita.

Tradução: Katarina Peixoto

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EX-PRIMEIRO-MINISTRO É CULPADO, MAS LIVRA-SE DA PRISÃO



Jornal de Notícias

A Justiça islandesa considerou que o antigo primeiro-ministro Geir Haarde é culpado pelo crime de negligência que levou o país à bancarrota, mas optou por não puni-lo com pena de prisão, que poderia ir até dois anos.

Geir Haarde estava acusado de quatro crimes, incluindo o de ter conduzido a Islândia ao colapso financeiro, em 2008, algo que o réu sempre negou em tribunal, alegando que o Governo não tinha forma de saber que os bancos estavam descapitalizados.

Dos quatro crimes dos quais estava acusado, a Justiça islandesa apenas consideou Haarde culpado por não ter convocado reuniões com o Conselho de Ministros para analisar a grave situação financeira do país.

Assim, esta segunda-feira, o tribunal especial de Landsdomur condenou Haarde por negligência, mas não decretou qualquer sentença. Além de ter evitado a prisão e até uma multa, o réu não terá que pagar os custos do processo, determinou o tribunal.

Haarde é o primeiro político levado à barra do tribunal por motivos relacionados com a crise económica mundial.

Político conservador de 61 anos, Haarde foi chefe do Governo islandês entre 2006 e 2009.

Recorde-se que a crise financeira de 2008, levou o Governo islandês a nacionalizar os principais bancos do país. A pressão popular acabaria por derrubar o Executivo em janeiro de 2009. Desde então que o país é governado por uma aliança entre social-democratas e verdes.

GNR FAZ BUSCAS EM DEPARTAMENTO DO GOVERNO REGIONAL DA MADEIRA



Jornal de Notícias

O Departamento Central de Investigação e Ação Penal e a GNR estão a proceder a buscas no edifício da ex-secretaria do Equipamento Social da Madeira. Na origem da diligência está a dívida oculta da região. O acesso ao edifício está interditado.

De acordo com o "Diário de Notícias da Madeira", as buscas realizadas esta segunda-feira de manhã, no Funchal, acontecem no âmbito da investigação ao 'buraco' das contas públicas da Madeira.

A alegada ocultação de informações por parte da Região Autónoma da Madeira ao Instituto Nacional de Estatística (INE) e a outras autoridades nacionais (dívida oculta da Região) é o motivo das buscas.

Já no passado mês de fevereiro houve diligências na Madeira, com mandados de busca em empresas de construção civil para obter documentação.

Procuradoria confirma investigação

Segundo um comunicado da Procuradoria-Geral da Repúblcia emitido ao final da manhã desta segunda-feira, o Departamento Central de Ação e Investigação Penal (DCIAP) instaurou em 28 de setembro de 2011 um inquérito às denominadas "contas da Madeira".

"Após diversas diligências de investigação, mostrou-se necessária a realização de outras a levar a cabo na cidade do Funchal", adianta o DCIAP, explicando que para a sua execução este departamento "nomeou órgão de polícia criminal o Comando Territorial da GNR na Madeira".

Segundo o DCIAP, esta segunda-feira decorrem "diligências de busca e apreensão e durante toda a semana decorrerão outras diligências complementares de investigação".

"As diligências realizar-se-ão com a maior discrição possível, procurando evitar alarme social", informa ainda o DCIAP.

Acesso interditado

De acordo com o comandante da GNR, Paulo Saraiva Soares, citado pelo DN da Madeira, a operação iniciada esta segunda-feira irá decorrer durante toda a semana. Na operação estão envolvidos 25 militares da GNR.

O acesso ao edifício da antiga secretária regional do Equipamento Social está interditado na sequência das diligências da GNR solicitadas pela Direção Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP).

Neste imóvel funcionam diversos serviços e organismos tutelados pelo Governo da Madeira, entre os quais a Investimentos Habitacionais da Madeira (IHM), a empresa Estradas da Madeira e as direções regionais dos Edifícios Públicos, Infraestruturas e Equipamentos e o Ambiente.

Der acordo com a Lusa, desde o início da manhã os funcionários e restante público foram informados pelos elementos da GNR que "não podiam sair do edifício" e aqueles que quisessem entrar "não tinham garantia da hora para sair", relataram várias pessoas.

Esta situação manteve-se até cerca das 11.30 horas, altura em que um dos funcionários da IHM disse à saída aos jornalistas que "tiveram ordens para não sair, nem telefonar", adiantando "desconhecer o motivo da operação".

Os telemóveis de todos os responsáveis dos serviços que funcionam naquele edifício estão desligados e fonte da vice-presidência contatada pela agência Lusa garantiu também "desconhecer o que se passa".

Opinião Página Global

Mas que bem! Até parece que a Justiça funciona convenientemente em Portugal. Uma trabalheira, despesas pagas pelos contribuintes… e depois acontece mais do mesmo: a culpa morre solteira e ficamos a saber que assistimos a mais uma “cegada”. (Redação PG - AV)

DA LIBERDADE VIRTUAL




Manuel António Pina – Jornal de Notícias, opinião

O Ministério da Educação despachou que, a partir do próximo ano lectivo, os pais terão "liberdade de escolha" (bonita expressão) da escola dos filhos, independentemente do seu lugar de residência. Só que não terão nada para escolher...

Com efeito, as vagas existentes nas escolas não são, descobriu com surpresa o Ministério, infinitamente elásticas e já hoje, nos centros urbanos, as mais procuradas não conseguem sequer satisfazer os pedidos de matrícula preenchendo as condições preferenciais previstas na lei, entre elas a da área de residência. Como tais condições se mantêm, bem poderão os pais "escolher" essas escolas para matricular os rebentos, que a sua "liberdade de escolha" se ficará por aí e não terá resultado prático algum.

O próprio Ministério teve que reconhecer, uma escassa semana depois de ter tão despachadamente despachado, que a medida "pode acabar por não ser tão eficaz quanto se desejaria em zonas de maior concentração populacional", isto é, nos centros urbanos. Restam as zonas rurais, de menor "concentração populacional". Mas aí haverá, quando muito, uma escola e a "liberdade de escolha" dos pais será a de... escolher essa escola, ou então as que eventualmente existam a dezenas e dezenas de quilómetros de distância, nos... centros urbanos de "maior concentração populacional".

Há, claro, uma solução (Nuno Crato já deve estar a fazer as contas): turmas, não com 30, mas com 3000 alunos.

Pagar para andar: Caminheiros protestam contra taxa de 152 euros em Parques Naturais



TSF

Os montanhistas e pedrestianistas preparam protestos contra as portagens nos Parques Naturais. O Estado cobra 150 euros por passeios a pé.

Para o dia 25 de Abril estão a ser organizadas pelos montanhistas e pedestrianistas marchas de protesto no Gerês e também na Serra de Aires e Candeeiros. O jornal Público conta, esta manhã, que se têm multiplicado os casos de tentativas de cobrança de uma portagem a quem organiza passeios, mesmo sem objetivos comerciais.

Os montanhistas e pedestrianistas não aceitam que o Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade cobre 152 euros a quem pretenda ter autorização para visitar ou realizar atividades nos parques naturais do Estado. Valor pago mesmo que o pedido seja recusado.

A polémica é antiga, já em 2009, quando foi aprovada a portaria que estabeleceu as taxas a pagar pelos serviços do Instituto de Conservação da Natureza e que impunha o pagamento de 200 euros por declarações, pareceres, informações ou autorizações para visitas, houve muita contestação.

O Governo de José Sócrates recuou e publicou uma nova versão da portaria, onde era excluído o acesso e a visita aos parques.

No entanto, e de acordo com as denúncias de 200 montanhistas do Parque Nacional da Peneda-Gerês (que enviaram uma carta à ministra do Ambiente), os serviços do Instituto de Conservação da Natureza continuam a exigir o pagamento da taxa.

Na missiva os pedestrianistas contam que no mês passado um grupo que caminhava nas Serras de Aire e Candeeiros foi abordado pelas autoridades do parque e notificado pelo facto de não ter qualquer autorização para caminhar.

Sem resposta à carta enviada em Março à ministra Assunção Cristas, estes montanhistas foram recebidos por deputados dos vários grupos parlamentares que se mostraram incrédulos e marcaram um protesto para o dia 25 de Abril.

Eles vão agora concentrar-se nas áreas protegidas da Peneda-Gerês e das Serras de Aire e Candeeiros, onde pretendem realizar uma marcha que dizem ser pela liberdade de usufruírem dos parques naturais.

Os montanhistas sublinham que não contestam a necessidade de pedir autorização para visitar as áreas mais sensíveis dos parques, não aceitam é que pelo pedido sejam cobrados 152 euros. Um valor que é dez vezes superior ao que os automóveis pagam no Verão para atravessar a mata da Albergaria, uma das áreas de proteção integral da Peneda-Gerês.

Rute Fonseca


-Título alterado por PG