quinta-feira, 28 de junho de 2012

“É IMPROVÁVEL QUE O EURO SOBREVIVA EM SUA FORMA ATUAL”




Marcelo Justo, de Londres – Carta Maior

Em entrevista à Carta Maior, o professor alemão Gunnar Beck, especialista em direito e política europeia da Escola de Estudos Orientais e Africanos (SOAS), da Universidade de Londres, fala da cúpula europeia que inicia nesta quinta (28) e afirma que não há nenhuma iniciativa para tirar o euro do atual limbo. "Sou contra falar de prazos, mas me parece improvável que o euro sobreviva em sua forma atual. Parece-me que haverá uma eurozona muito mais reduzida, formada por Alemanha, França e países do norte da Europa".

Londres - Ninguém sabe quanto tempo resta à zona do euro. Desde o início da crise da dívida em 2010, ocorreram quatro resgates em nível nacional (Grécia, Portugal, República da Irlanda e Chipre) e um em marcha em nível bancário (Espanha). A chanceler alemã Angela Merkel assegurou que “enquanto viver” não haverá “eurobônus”. O primeiro ministro da Itália, Mario Monti, ameaçou renunciar se não houver um acordo em torno destes bônus para baixar a exorbitante taxa de juro paga pelos PIGS (Portugal, Itália, Grécia e Espanha). Com os mercados funcionando sob o sinal vermelho máximo, não causa estranheza que a cúpula europeia que começa nesta quinta-feira seja vista por muitos como a mais importante em muito tempo. É uma expectativa perigosa.

Em entrevista à Carta Maior, o professor alemão Gunnar Beck, especialista em direito e política europeia da Escola de Estudos Orientais e Africanos (SOAS), da Universidade de Londres, afirma que não há nenhuma iniciativa para tirar o euro do atual limbo.

A crise piora a cada dia. A Alemanha é a única nação que poderia atuar de maneira decisiva e não parece disposta a fazê-lo. Desde 2010, a chanceler alemã Angela Merkel vem intervindo tarde, a contragosto e de maneira insuficiente.

A Alemanha é a nação mais forte da Europa, mas não quer dizer que isso seja suficiente para salvar o euro. É possível que se Merkel tivesse atuado decisivamente no início pudesse ter detido a incerteza posterior dos mercados, mas, por outro lado, os problemas do euro não se devem pura e exclusivamente à especulação. Em todo caso, não interveio decisivamente e hoje o custo de um resgate é tal que a Alemanha pode perfeitamente considerar que é melhor perder o que pôs sobre a mesa do que arriscar o que ainda tem.

Se houver uma moratória na Grécia, por exemplo, o Bundesbank terá que assumir os bilhões que lhe deve o Banco Central grego. Esse problema se multiplica se outros países se somarem à Grécia. E se toda a eurozona se desintegrar, as perdas serão colossais. Por um lado, a Alemanha não poderá cobrar o que emprestou. Por outro, deverá honrar as garantias que deu aos credores. Tudo isso sem contar que terá que resgatar os bancos que ficarem pelo caminho.

Precisamente, o custo é tão alto para a própria Alemanha que não se entende por que ela não faz algo mais para evitar a debacle.

A Alemanha não é os Estados Unidos. Ela tem 80 milhões de habitantes, economicamente tem andado melhor que os países do sul europeu nos últimos quatro ou cinco anos, mas se tomarmos o período de 1998 a 2011 em seu conjunto, a Alemanha cresceu 1,4%, menos que a França, Holanda, o conjunto da Eurozona, a União Europeia e os Estados Unidos. Neste período só Japão, Itália, Portugal e Grécia andaram pior. Pode-se perfeitamente contemplar esse cenário de pesadelo: que a Alemanha sustente o euro continuamente sem resolver a crise. O certo é que não há garantias de que sua intervenção vá funcionar. Isso explica a extrema cautela de Merkel. Se o problema não pode ser solucionado, quando menos fizer, menos ficará exposta às consequências do fracasso.

O problema tem sido a receita. A austeridade não tem dado resultado, mas os programas de resgate insistem nas mesmas fórmulas.

É certo que em meio de uma contração econômica é muito difícil, muito duro e, provavelmente, contraproducente, levar adiante uma política de austeridade, mas é muito difícil ver que injeção fiscal pode ser oferecer agora para romper com este círculo vicioso. É muito duvidoso que o “pacote de crescimento” proposto pela França tenha o resultado esperado. Por outro lado está o problema político. Não podemos esperar que uma eleição após outra o eleitorado vote por um ajuste. Neste sentido a austeridade é politicamente insustentável. Tudo isso fecha ainda mais as vias de saída para a crise atual.

Fala-se muito de gasto fiscal, mas a Itália, por exemplo, tem superávit fiscal primário (antes de pagar os juros da dívida). O problema é que está pagando juros entre 6 e 6,5%. Aí a coisa se torna insustentável. É o que se passa com outros países também.

A possível solução para isso seriam os famosos eurobônus com garantia alemã para baixar drasticamente a taxa de juro. Mas Merkel foi muito clara a respeito. É preciso levar em contra que a dívida alemã é de 82% de seu Produto Interno Bruto (PIB), excluindo todos os empréstimos e garantias já dadas. Até pouco tempo eu pensava que, em última instância, adotaria os eurobônus. Era o que me diziam os membros do governo alemão no final do ano passado, o que dizia nos Estados Unidos o ex-primeiro ministro britânico Tony Blair. Mas, ultimamente, Merkel tem sido categórica. Não haverá eurobônus. E eu não sei se o Banco Central Europeu tem mecanismos sob a manga para substituir os eurobônus.

Esta oposição de Merkel é ideológica – sua fé cega na austeridade –, mas há também fatores constitucionais. Se a crise chegar a um ponto de tudo ou nada, Merkel poderá superar estes limites constitucionais?

Pode fazê-lo. A Corte Constitucional advertiu-a sobre a transferência de soberania ao resto da Europa desde o início dos anos 90. Mas se o governo tem suficiente vontade política é muito difícil que a Corte possa fazer algo. Em suas negociações com Barack Obama ou com os outros países da Europa, Merkel pode dizer que não pode adotar os eurobônus porque constitucionalmente é impossível. Isso pode acontecer.

Se não há um pacote de crescimento suficiente nem eurobônus sobre a mesa, o euro fica nas mãos de Deus? O que pode ser esperar desta cúpula e do euro?

Esta deve ser a 19ª ou 20ª Cúpula para lidar com a crise. Não vai resolver nada. Sou contra falar de prazos, mas me parece improvável que o euro sobreviva em sua forma atual. Não creio, porém, que a Alemanha volte ao marco e a França ao franco, ou seja, que tudo retorne ao seu estado prévio. Parece-me que haverá uma eurozona muito mais reduzida, formada por Alemanha, França e países do norte da Europa.

Tradução: Katarina Peixoto

OS BRASIGUAIOS E A MÍDIA NO GOLPE DO PARAGUAI




Mário Augusto Jakobskind* – Direto da Redação

No encerramento da Conferência da ONU de Sustentabilidade e Desenvolvimento, a Rio + 20, ocorreu também um retrocesso político de graves consequências no Paraguai com o golpe parlamentar que derrubou o Presidente constitucional Fernando Lugo, assumindo o vice Federico Franco, do Partido Liberal.

Não era de hoje que a elite paraguaia se sentia incomodada com Lugo no governo. O tempo passou e aproveitaram a oportunidade de um grave incidente que pode ter sido armado pelos próprios ruralistas para desencadear a ofensiva que culminou com a derrubada de Lugo. Um retrocesso ao estilo Honduras, cujo governo de Franco não deve ser reconhecido, porque a derrubada de Lugo foi totalmente ilegal.

O Prêmio Nobel da Paz Adolfo Perez Esquivel comentou que o golpe de estado no Paraguai estava sendo preparado há tempos e faz parte da poítica continental imposta pelos EUA contra governos democráticos, com a cumplicidade dos poderes econômicos e políticos e ainda mais a traição do vice-presidente Federico Franco.

O golpe teve apoio também dos brasiguaios, os brasileiros donos de terras no Paraguai e segundo Martin Almada, o descobridor dos arquivos da Operação Condor, um dos principais integrantes do setor é um tal deTranquilo Favero, brasileiro, natural de Santa Catarina, que fez fortuna graças a doação de terras proporcionadas pelo falecido ditador Alfredo Stroessner, que assim retribuiu o apoio do empresário.

Não é à toa que Merval Pereira apoiou o golpe no Paraguai e o comparou com o democrático impeachment de Collor em 1992. Um equívoco, na ocasião o então presidente teve todo o tempo do mundo para se defender e a opinião pública estava contra ele. Já Lugo conta com o apoio popular e nem tempo adequado lhe foi dado pelos congressistas para ele se defender.

Merval, como sempre a serviço da direita, jamais tocaria na questão da mídia de mercado, linha auxiliar da oligarquia paraguaia para desfechar o golpe de estado parlamentar. O jornal ABC Color teve papel destacado nos acontecimentos. Possivelmente similares paraguaios de Merval Pereira foram acionados.

Ainda estamos nos rescaldos da Rio + 20. A Cúpula dos Povos, além da série de debates, exposições e tomadas de posição produziu um fato político relevante aqui no Rio de Janeiro. Depois da passeata dos 100 mil de 1968 a cidade na semana passada foi palco de uma outra que reuniu cerca de 70 mil pessoas.

Quanto à reunião das Nações Unidas realizada no Rio Centro, a pergunta que não quer calar remete à pergunta: "e agora?". Qual o avanço verificado?

A semana que passou produziu também uma grande contradição. Enquanto na reunião do G-20, realizada no México, foi aprovado um pacote de cerca de 70 bilhões de euros para o FMI, na verdade para salvar os bancos, na Rio + 20 os países ricos não aceitaram dar pelo menos 30 bilhões para um fundo de preservação do meio ambiente.

Cabe mais uma pergunta: o Planeta continuará convivendo com os violadores do meio ambiente que se escondem na retórica de defensores da ecologia desde craincinha?

Eike Batista, por exemplo, deu palestra no projeto Humanidade no Forte Copacabana defendendo o meio ambiente, enquanto Israel Klabin escreveu artigo no caderno especial de O Globo sobre a Rio + 20. Quer dizer: mais uma vez os predadores do meio ambiente se colocam exatamente ao contrário do que são.

A presença do Presidente do Irã Mahmoud Ahmadinejad no Rio de Janeiro vale um capítulo a parte. Provocou polêmicas das mais variadas.

Ao contrário do que é apresentado diariamente pela midia de mercado, Ahmadinejad mostrou um discurso conciliador, sem deixar de lado os princípios, reafirmando que o seu país não quer ter bomba atômica. O islamismo não permite, segundo Ahmadinejad

No encontro que teve com intelectuais, políticos e alguns formadores de opinião, onde ouviu mais do que falou, o presidente iraniano enfatizou a importância da Justiça para o mundo e reafirmou suas críticas a uma ordem mundial injusta que precisa ser modificada.

Na entrevista coletiva , Ahmadinejad destacou, entre outras coisas, a hipocrisia dos Estados Unidos que tinha seis acordos nucleares na época do Xá Pahlevi, quando o Irã vivia uma ditadura, e os suspendeu logo após o triunfo da revolução E agora pressiona o Irã, segundo Ahmadinejad, exatamente para evitar o desenvolvimento da energia nuclear para fins pacíficos.

Mas a presença de Ahmnadinejad na Rio + 20, como não poderia deixar de ser, provocou polêmicas e manipulação da informação.

O maior exemplo nesse sentido ficou mais uma vez com O Globo. No suplemento especial sobre o Rio + 20, da quinta-feira (21), na página 4, a única matéria não assinada era sobre Ahmadinejad ("Ahmadinejad discursa contra a desigualdade") editada de forma totalmente manipulada.

No final da matéria, o jornal dos Marinhos informava que "um forte esquema de segurança impede a circulação de repórteres e curiosos". Referia-se o "informe" ao hotel Royal Tulip, em São Conrado.

Os que circularam por lá naqueles dias puderam confirmar que a notícia divulgada não correspondia a realidade. Foi colocada com o objetivo de reforçar a imagem negativa do presidente iraniano.

Os jornalistas independentes que participaram da entrevista coletiva com Ahmadinejad chegaram a comentar como no local estava sendo discreta a segurança do dirigente iraniano que está na bola sete.

Teve jornalista que chegou ao local de carro e nem teve problema para estacionar no pátio do hotel, o que geralmente não é comum nos locais onde circulam autoridades, sobretudo chefes de Estado ou de Governo.

Fica o registro que pode servir de subsídio para os interessados em analisar como os jornais cobriram a intensa movimentação ocorrida no Rio de Janeiro nestes dias.

* É correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE

Brasil: ATIVISTAS PODEM SER PRESOS POR PROTESTO CONTRA BELO MONTE




Correio do Brasil, com Brasil de Fato – do Pará

A polícia civil do Pará pediu à Justiça a prisão preventiva de 11 pessoas acusadas de participar dos protestos contra a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte entre os dias 13 e 17 de junho, durante a realização do evento Xingu +23 na Vila de Santo Antônio, a 50km de Altamira, oeste do Pará. O pedido de prisão preventiva aguarda o parecer do Ministério Público Estadual (MPE).

Entre os acusados no inquérito estão integrantes e assessores do Movimento Xingu Vivo para Sempre, um padre que rezou uma missa e abençoou o encontro, uma freira, um pescador que teve sua casa destruída pelo Consórcio poucos dias antes, missionários indigenistas e um documentarista de São Paulo.

A polícia acusa essas pessoas de terem planejado uma ação no escritório do Consórcio Norte Energia, “apesar de não existir nos autos uma única imagem comprovando isso”, diz Marco Apolo Leão, advogado e presidente da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos, que atua na defesa dos militantes. Também há acusações de danos, roubo, incêndio, desobediência, esbulho possessório, perturbação da ordem pública e formação de quadrilha.

Diante das ameaças de prisão da polícia divulgadas na imprensa, advogados do movimento entraram com um pedido de habeas corpus preventivo para garantir a liberdade dos perseguidos. Protocolado pela defesa na sexta-feira, o pedido de Hábeas Corpus recebeu parecer favorável do Ministério Público, mas foi negado pela justiça na segunda-feira. “Vamos recorrer dessa decisão e manter a posição de que ninguém falará na polícia, pois não conseguimos ter acesso a todas as peças do inquérito”, afirma o advogado. O depoimento de oito dos 11 acusados está marcado para esta quarta-feira, em Altamira.

Defesa

Além da dificuldade de acessar todas as peças do processo, a defesa dos integrantes do movimento Xingu Vivo alega que as investigações sobre o caso carecem de legitimidade e imparcialidade, já que as polícias civil e militar, em Altamira, são, em grande parte, “patrocinadas e financiadas pelas próprias empresas que constroem Belo Monte”, por conta de um termo de cooperação assinado com o governo estadual.

A defesa também diz que este é mais um caso de criminalização das lideranças de movimentos sociais e, por isso, uma grande rede de solidariedade e manifestações está sendo construída para apoiar os integrantes do movimento Xingu Vivo e as outras pessoas vítimas das acusações do Consórcio Norte Energia e da polícia. Uma nota de apoio aos militantes já conta com assinatura de 146 instituições da sociedade civil de todo o Brasil, entre eles a Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH) e o Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH).

Ainda esta semana, a frente jurídica do movimento irá encaminhar um informe denunciando a criminalização dos ativistas para a ONU e a OEA.

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“SOMOS GOVERNADOS PELA POLÍTICA DE FASCISMO ECONÓMICO”



Agostinho Lopes [*]

1. Como caracterizar a política económica em curso? Não temos dúvidas em afirmá-lo: uma versão de "fascismo económico" conduzindo o País para o desastre total.

De facto, estamos perante uma cruzada em marcha forçada de concentração e centralização de capitais à custa de uma reforçada exploração do trabalho e a espoliação dos pequenos capitais (micro, pequenas e médias empresas) por recurso ao poder e potência do Estado. Pela total promiscuidade do poder económico com o poder político. (Por outros ver caso recente da CIMPOR).

Uma política de salvação dos Grupos Económicos Monopolistas e do capital financeiro. Uma política que faz sr. 1º Ministro pagar aos trabalhadores, às pequenas empresas, às despesas sociais e ao investimento público, a factura dos desmandos, da especulação, dos jogos de casino, o lixo tóxico do capital financeiro nacional (BPN, BPP, BCP, etc) e estrangeiro, o enriquecimento sem limites e despudorado de grandes capitalistas e banqueiros, que tiveram total cobertura política do PSD, CDS e PS!

Políticas que não só ameaçam o futuro como mergulham o presente na agonia económica, pondo em causa qualquer recuperação no curto e médio prazos. E nem as contas públicas, que dizem fundamentar estas políticas, endireitam.
Há quem pense que esta "destruição" que alguns dizem "criadora" é o ponto de partida necessário para uma recuperação económica! Naturalmente, são as respostas dos responsáveis pela crise, que outras respostas não têm para a crise, senão as das políticas que aqui nos conduziram.

2. E para os que podem considerar exagerada a nossa classificação de "fascismo económico" a política económica em curso, faria um breve registo histórico.

No próximo sábado, 1 de Julho, perfazem-se 84 anos sobre a entrada em vigor do Orçamento Geral do Estado para 1929/1930 do ministro das Finanças Oliveira Salazar. Um orçamento com um excedente, com "saldo positivo". Um orçamento que cumpria com antecipação os critérios de convergência de Maastricht e do Pacto de Estabilidade.

Orçamento que foi recordado no ano de 1999, quando fez 70 anos, nas páginas do Diário de Notícias, os comentários económicos elogiosos de ex-ministros e economistas de governos PSD, PS e CDS. Escreviam então (e cito para os que gostam de anacronismos): "Salazar (…) é um ministro das Finanças moderno." (Braga de Macedo). "eu não gostaria de sugerir que os meus amigos do FMI são salazaristas, mas fazem as contas da forma como Salazar refere (…) " (Miguel Beleza). "se dermos números às medidas (…) (de Salazar) acabamos por anunciar em termos teóricos, os critérios de Maastricht." (Ernâni Lopes). "Salazar tinha "toda a razão quando afirmava que a consolidação (orçamental) era absolutamente indispensável para o País ganhar condições de progresso económico"" (Silva Lopes)

Anacrónicos, sr. Deputado Luís Montenegro, srs. deputados, são os que adoptam, passados mais de 80 anos, os critérios de Salazar na gestão orçamental e económica!

E foi pena que os ex-ministros não tirassem conclusões sobre aonde conduziu o País essa política de "equilíbrio orçamental", porque teriam de afirmar: conduziu ao país mais atrasado da Europa e a uma negra ditadura necessária para impor aquela "ditadura financeira" aos trabalhadores e ao povo português!

Regressemos ao presente. A semana passada, deputados do Grupo de Trabalho da Grande Distribuição/Comissão de Economia e Obras Públicas, tiveram a oportunidade, na Audição da CONFAGRI , de ouvir o seu Presidente referir que o poder económico dos Grupos da Grande Distribuição não era já e apenas uma questão de economia, mas que punha a democracia em causa. E puderam ouvir, na mesma Audição, o Presidente da Federação Portuguesa das Associações de Suinicultores falar de "ditadura económica" desses Grupos.

3. É, assim, risível, ouvir o Governo falar da mudança de paradigma, a propósito das ditas "reformas estruturais" do governo.

Risível, porque faz "reformas" como a da concorrência, em que deixa intacto e sem qualquer alteração significativa o poder de mercado dos grupos monopolistas e oligopolistas, ao não assumir o conceito de "posição económica dominante colectiva", ao não desenvolver e tipificar o conceito de abuso de dependência económica, e o mesmo com o conceito de "dumping".

Risível, porque propagandeando o corte de lucros/rendas excessivas dos, monopólios da energia, com a EDP à cabeça e anuncia um ligeiro aparar desses lucros inaceitáveis (a EDP é afectada em 1% dos seus resultados), não os faz devolver o que cobraram a mais nos últimos anos, em profunda contradição de que faz com os trabalhadores e beneficiários da segurança social a quem, ilegal e retroactivamente, corta e recupera verbas. E em menos de um ano, aumentaram a electricidade 3 vezes!

Risível, porque prossegue uma política de afundamento das micro, pequenas e médias empresas e do sector produtivo, pela sobrecarga fiscal (caso do IVA), encarecimento dos custos dos factores de produção (energia) e secagem total do crédito. Que era também a agenda do Governo PS.

Risível, porque através das privatizações, feitas e anunciadas, completa a espoliação do património do povo português de empresas estratégicas, num grave ataque à soberania nacional, pela sua entrega ao capital estrangeiro, e mesmo a desindustrialização do País, como foi o abrir caminho ao desmembramento da CIMPOR. Que era também a agenda do Governo PS.

Risível, porque é a política de continuidade absoluta de um modelo económico centrado na pseudo produtividade e falsa competitividade, pelos custos salariais, assente na mão-de-obra barata e de baixo valor acrescentado, com toda a focagem na exportação e completa desvalorização do mercado interno. Que era também a agenda do PS.

Não, não há qualquer mudança de paradigma, de modelo económico, de estratégia para as políticas nacionais. É a continuidade absoluta das políticas económicas dos últimos 35 anos de PSD, CDS e PS. Políticas de classe, centradas na exploração dos trabalhadores e do povo, da ruína das pequenas empresas e destruição da produção nacional, de empobrecimento do País.

Disse.

[*] Intervenção na Assembleia de República em 25/Junho/2012, dia apresentação da Moção de Censura ao governo.

O original encontra-se em http://www.pcp.pt/node/257474

Este discurso encontra-se em http://resistir.info/ .

ALGUÉM QUER DESCALÇAR O BOTA?




Orlando Castro*, jornalista – Alto Hama*

O presidente da Comissão Parlamentar para a Ética, a Cidadania e a Comunicação de Portugal entende, espanto dos espantos, que a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (filial do PSD conhecida pela sigla ERC) "não é independente na sua génese" e "isso merece um debate sério e aprofundado", no "momento adequado".

"Enquanto presidente da Comissão de Ética, acho que o tema é actual e que a comissão é o local para fazermos essa discussão", afirmou à Lusa o deputado social-democrata José Mendes Bota.

Depois de dar uma no cravo, o deputado resolveu dar outra na ferradura e, lembrando-se do país em que está, corrigiu o tiro. Ou seja, Mendes Bota considera que "o momento da discussão talvez não seja o mais adequado".

Traduzindo: "Precisamos de ter algum espaço de reflexão. Acho que é um debate actual, necessário mesmo, mas tenho dúvidas sobre o ambiente de serenidade para debater a questão sob pressão do caso Relvas-Público", acrescentou.

A independência da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) voltou a ser posta em causa pelos partidos políticos da oposição parlamentar e por vários quadrantes da comunicação social e sociedade civil, depois de, na passada quarta-feira, ter divulgado um relatório em que ilibou o seu patrão, o ministro-adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, que tutela a comunicação social, de alegadas "pressões ilícitas" sobre o jornal Público e a jornalista Maria José Oliveira.

O documento, aprovado por três votos a favor e dois contra, realçou o "tom exaltado" de Miguel Relvas e a ameaça de deixar de falar com o Público, considerando que tal comportamento "poderá ser objecto de um juízo negativo no plano ético e institucional", ainda que a ERC tenha entendido que não lhe compete "pronunciar-se sobre esse juízo".

O presidente da comissão parlamentar para a Ética, a Cidadania e a Comunicação fez questão de sublinhar que a sua opinião é independente do relatório da ERC sobre o caso.

"Não é por causa deste relatório, mas porque a própria existência da ERC está condenada à controvérsia desde a nascença, desde o pecado original", que é o da forma de nomeação do seu organismo dirigente, o conselho regulador, explicou Mendes Bota.

"Estou aberto e vejo com interesse uma possibilidade dessas [de discutir uma eventual alteração do modelo de nomeação dos órgãos dirigentes da ERC]. Mas também acho, até por causa deste relatório, que este não é o momento indicado para o fazer. Até porque, se não houvesse o caso Relvas-Público, talvez ninguém se lembrasse de propor a discussão", rematou.

Rematou… mas ao lado. Muito boa gente põe, desde há muito, em discussão a validade da ERC, um organismo em que os seus cinco elementos são escolhidos por via partidária: três pelo PSD e dois pelo PS.

* Orlando Castro, jornalista angolano-português - O poder das ideias acima das ideias de poder, porque não se é Jornalista (digo eu) seis ou sete horas por dia a uns tantos euros por mês, mas sim 24 horas por dia, mesmo estando (des)empregado.

Título anterior do autor, compilado em Página Global: SIPAIO IMBECIL E CRIMINOSO

“ZONA DE CONFORTO”




Manuel António Pina – Jornal de Notícias, opinião

A crer na OCDE, os portugueses, sobretudo os mais jovens e qualificados, estão-se nas tintas para o apelo feito por Cavaco Silva em Sydney: "Fiquem em Portugal". E é a debandada geral: todos os anos 70 000 de nós, a maior parte com menos de 29 anos, abandonam o país que os abandonou.

Muitos são engenheiros, arquitectos, professores, cientistas, que levam na bagagem conhecimento técnico, doutoramentos, mestrados, licenciaturas, e a frustração por terem nascido num país que os enjeita, castigando-os por terem perdido anos a estudar e qualificar-se em vez de, como outros, se arrebanharem numa "jota" a colar cartazes e a aprender as florentinas artes da intriga, do servilismo e da ausência de pensamento próprio. E, por cima de tudo isto, são ainda alguns destes últimos, "emigrados" hoje nos cadeirões da AR ou do Governo e amanhã nos de alguma empresa pública, quem lhes aponta a porta de saída: "Deixem a vossa 'zona de conforto' e ponham-se a andar".

O "conforto" de que falam governantes e deputados da maioria é a humilhação diária do desemprego ou de empregos precários (mais ou menos como o de Eduardo Catroga) como aquele que recentemente oferecia o IEFP do ministro Álvaro a arquitectos com, no mínimo, mestrado, domínio do inglês e francês e conhecimentos de design de interiores, desenho 3d e autoCad: um horário de trabalho das 9.30 às 19.30 e salário mensal de 500 euros.

EURO 2012: PORTUGAL - ESPANHA




“Caímos como deve cair uma grande equipa, com honra e orgulho”, vincou Paulo Bento

Tiago Pimentel - Público

Caras fechadas e muita tristeza do lado da selecção portuguesa na reacção ao resultado da meia-final frente à Espanha: a equipa nacional perdeu no desempate por grandes penalidades (2-4) após 120 minutos de futebol em que o 0-0 resistiu no marcador.

 “Fizemos as coisas de maneira a poder alcançar a final”, lamentou o seleccionador Paulo Bento. “Tivemos um rendimento extraordinário em praticamente os 90 minutos do jogo. Mas por algum desgaste da nossa parte, fomos cometendo erros no prolongamento quando saíamos para o ataque, e acabámos por permitir que a Espanha fosse mais dominadora nesse período”, analisou o técnico.

“Caímos como deve cair uma grande equipa, com honra e orgulho”, sublinhou o seleccionador nacional: “Tínhamos prometido que dividiríamos o jogo. O factor sorte, sem tirar mérito nenhum à Espanha, tem alguma influência e nós não o tivemos do nosso lado durante esta competição.”

A SELEÇÃO DE PORTUGAL PERDEU... MAS MORREU EM PÉ!




António Veríssimo

NOITES DE SAXOGENÁRIO

Espanha - Portugal ou Portugal - Espanha... Foi uma grande e boa derrota mas os rapazes deram o máximo. Morremos em pé. A Espanha também mereceu. Uma e outra seleção foram grandes atores e qualquer delas merecia vencer.

Nunca pensei que o tema de abertura desta fase de inicio do Saxogenário abordase o futebol. A realidade mostra que aconteceu o contrário do habitual aqui no Página Global. Assumamos que o futebol mexe com todos e ainda mais quando uma seleção representa um país.

Para já fiquem com o som. Para já não esperem nada de excepcional desta escrita da noite, como ontem aqui foi anunciado por uma companheira minha - cujo texto eliminei porque achei exegerado e até violador da privacidade e sossego que prezo.

Vamos ter sons e imagens aqui. E saxfone também, assim como o que der na republicana gana à mistura. Vejam se aprendem a ser ecléticos. A primeira vez é sempre a mais "dolorosa". Lubrifiquem-se e sosseguem.

Até amanhã. Fiquem com mais estes sons. E com a derrota da "redondinha". Amanhã queremos fazer melhor.