sábado, 7 de novembro de 2020

O novo 11 de Setembro do Imperador

Os 11/Set invisíveis:   Só a CIA pode ver os EUA atacados pelos países que ela mira

Caitlin Johnstone [*]

Gostava de lhe contar uma fábula. Chama-se "O novo 11/Set do imperador".

Era uma vez um Imperador que gostava da guerra e do expansionismo militar. Ele estava sempre à procura de novos meios para instigar conflitos militares sem perder o apoio da comunidade internacional ou despertar o populacho para o facto de que eram apenas dentes na engrenagem de propaganda de um Império de âmbito global que utiliza infindável violência militar e económica para manter sua hegemonia unipolar.

Um dia dois homens que se consideravam Peritos em Inteligência chegaram à cidade e afirmaram que haviam inventado um assombroso novo tipo de ameaça inimiga que é invisível para as pessoas comuns.

"Será tão bom quanto o 11/Set?", perguntou o Imperador entusiasmado. "Oh, como adorei que aquilo me permitisse iniciar uma nova era de expansionismo militar sob o pretexto do combate ao terrorismo global!"

"É ainda melhor!" explicaram os Peritos em Inteligência. "Esta mágica ameaça inimiga é composta por ataques cibernéticos que são completamente invisíveis ao escrutínio público e vossa majestade tem controlo total sobre onde e quando acontecem. Basta nomear um governo estrangeiro de que não goste e nós dizemos que eles atacaram a democracia do Império!"

"Refere-se à pretensa democracia que lhes menti ao dizer que têm?" perguntou o Imperador.

"Claro que sim", disseram os Peritos em Inteligência. "Portanto, basta nomear o governo desobediente com que quer combater e nós lhe damos o seu novo 11 de Setembro".

"Hmm, bem eu não gosto muito dos russos", disse o Imperador. "Eles têm actuado descaradamente contra os nossos interesses na cena mundial e continuam a ficar cada vez mais amigos da China. Vamos começar a trabalhar neles em primeiro lugar".

De modo que os Peritos em Inteligência começaram a tecer a sua narrativa acerca de ataques cibernéticos russos. O Imperador pôs os seus mass media a trabalhar a tricotarem juntos o novo e maravilhoso 11 de Setembro do Imperador, simultaneamente invisíveis para os plebeus mas ultrajantes e necessitando de uma resposta agressiva.

O orçamento militar do Império foi inflacionado, tratados terminaram e uma nova corrida à armas começou. Foram aplicadas sanções contra o governo russo, a Revisão da Postura Nuclear do Império foi reajustada com uma postura muito mais hostil em relação a Moscovo, foram destacadas tropas e a NATO foi expandida. Qualquer um que objectasse a algumas destas medidas seria rotulado pelo Império como propagandista russo.

"Oh, isto é maravilhoso!" exclamou o Imperador. "Vamos ao Irão agora! Ah! E à China também!"

"O Irão e a China têm atacado a democracia do Império!" anunciaram os Peritos da Inteligência. "É como outro 11 de Setembro!"

Tudo corria bem, até que um dia o Imperador estava a exibir o seu novo 11 de Setembro pela cidade para que os plebeus a admirassem.

"Oh, este 11 de Setembro é ainda mais impressionante do que o anterior!" exclamou o povo. "Eu por ele de bom grado lançaria meu corpo para dentro das engrenagens da máquina de guerra! Louvado seja o nosso poderoso Imperador!"

Então uma vozinha ecoou por cima dos restantes.

"Mas o Imperador não tem um 11 de Setembro!" disse uma criancinha. "Não há nada ali!"

A criança foi imediatamente marcada como propagandista russa e banida do Facebook e do Twitter.

Não é coincidência que todos estes alegados ataques à democracia americana estejam a acontecer de formas que só o cartel dos serviços secretos norte-americanos pode ver. Não é uma coincidência que a máquina de propaganda dos EUA esteja constantemente a anunciar novos ataques invisíveis contra a nação por parte de governos que há muito são alvos desse mesmo cartel da inteligência. Não é uma coincidência que sempre que estes alegados ataques acontecem, as provas concretas de que aconteceram sejam sempre classificadas.

Há toda a espécie de formas de um país poder ser atacado, mas as únicas formas de o país que está literalmente sempre em guerra ser atacado é são aquelas que ninguém consegue ver e só temos de acreditar na palavra das mesmas agências governamentais que são responsáveis pelas guerras que realmente ocorreram. Isto não é uma coincidência.

"Interferência eleitoral" estrangeira é o 11 de Setembro menos o 11 de Setembro. Recebe a mesma cobertura mediática urgente do 11/Set, a mesma indignação e a mesma exigência de retaliação enérgica; só que não tem os edifícios caídos que as pessoas podem ver ou os membros de famílias enlutadas com quem se pode falar. É um 11/Set que é completamente invisível para toda a gente, por isso temos de tomar a palavra das agências de inteligência com um extenso historial de mentiras de que elas realmente aconteceram.

Entretanto, como os EUA estão a ser vitimizados por estes ataques que só a CIA e a NSA podem ver, o governo estado-unidense está a prejudicar o povo americano num grau infinitamente maior do que a Rússia, a China e o Irão. O governo dos EUA está a destruir milhões incontáveis de vidas no país e no estrangeiro, mas diz-se aos americanos que se preocupem com ataques invisíveis de países estrangeiros que literalmente nunca lhes fizeram nada.

Não seja tolo. Seja a criança na parada do Imperador.

27/Outubro/2020

Outro 11/Set invisível:

  US Intelligence Alleges Iranian Hackers Behind Intimidation Emails Accessed Voter Data (Inteligência dos EUA alega que há hackers iranianos por trás de emails de intimidação [enviados] com dados acessados de eleitores)

[*] Jornalista maldita, poeta e sobrevivalista da utopia. Publica regularmente em Medium. É autora de Woke: A Field Guide for Utopia Preppers e Rogue Nation: Psychonautical Adventures With Caitlin Johnstone

O original encontra-se em consortiumnews.com/...

Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ 

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