domingo, 18 de dezembro de 2022

Angola | A CAPA DO ASSALTO E OS VAMPIROS – Artur Queiroz

Artur Queiroz*, Luanda

Já perceberam a onda de assaltos à sede do Sindicato dos Jornalistas Angolanos? Serviu para o Presidente João Lourenço dizer em Washington, à Voz da América, que o seu governo defende os jornalistas e a liberdade de Imprensa. Manifestem-se! A vossa manifestação é bem-vinda. Manifestem-se contra os assaltantes da sede do sindicato, ainda que ainda não se saiba quem assaltou. Estou convosco na manifestação! O depósito do Teixeira Cândido está atestado.

Eu não sou estúpido nem romancista russo. Por isso, sem pedir licença ao reumático, corri para a sede assaltada, tirei as impressões digitais deixadas por todo o lado e concluí que os assaltantes do feudo do Teixeira Cândido foram os marimbondos. Só pode. Sempre prejudicando Angola. Sempre arrombando cofres e portas sindicais. Sempre estrangulando a Liberdade de Imprensa. Se não fosse o Presidente João Lourenço os marimbondos até nos chupavam o sangue. Mais um bicho para a colecção: Marimbondos, caranguejos, caranbondos, marimguejos e agora os simpáticos vampiros. 

O condecorado Rafael Marques participou no fórum da sociedade civil, em Washington. E nas barbas do chefe disse que o Poder Judicial é uma desgraça. O epicentro da corrupção em Angola. Ninho de ladrões. Promotores da ladroeira. Logo, em Angola não há Justiça. Quando disse isto, já tinham atestado o depósito ao artista. Estou a delirar? Nem pensar. 

Rafael Marques, depois desta operação de descrédito contra os magistrados judiciais e agentes do Ministério Público, ficou com o depósito atestado e mais uma casa de luxo. Assim fica com uma mansão em Luanda, outra em Lisboa e a última nos EUA. Eles adoram Miami. O condecorado “activista” prestou que serviços? A resposta vem nos próximos dias. Vamos ver quem é substituído, reconduzido e mesmo saneado dos altos cargos no Poder Judicial. O condecorado lançou a suspeita sobre todos e agora o chefe enxota quem quiser.

A opinião pública vai ser bombardeada com “notícias” e “comentários” favoráveis ao Presidente João Lourenço porque teve a coragem de afastar estes e estas, aqueles e aquelas que fizeram do Poder Judicial, o epicentro da corrupção e da ladroagem. Claro que vai deixar uma parte de fora, para tudo parecer ao natural.

Por trás de uma grande fortuna está sempre um qualquer conluio com o Estado. Ninguém enriquece a trabalhar. O dinheiro nas mãos dos pobres desaparece a uma velocidade estonteante, quando existe. Nas mãos dos ricos engorda as contas bancárias até transbordarem. O sistema é assim. Como é público e universal tem milhões de defensores, sendo que a esmagadora maioria é pobre de pedir. É deserdado. Quando muito tem apenas as correntes de escravos.

Angola tem bastantes exemplos desta verdade insofismável. Em 1992, foi extinto o socialismo e avançou, triunfante, o capitalismo. O caminho percorrido foi longo, sinuoso e doloroso. Mas deve estar a chegar ao fim. O presidente do estado terrorista mais perigoso do mundo (EUA) anunciou que vem a África em passo de corrida e as vezes que for preciso. Estão mesmo falidos e o chefe do gangue já tem que sujar as mãos no terreno.

Mas enquanto Biden não vem, o que estão a fazer os lobos? A Gemcorp vai reabilitar e expandir a rede da Angola Telecom. A empreitada custa aos cofres do Estado a módica quantia de 188,8 milhões de dólares. Ajuste directo. A mesma empresa, até ao final de 2018, assinou com o Ministério das Finanças e o Banco Nacional de Angola acordos de financiamento no valor de cinco mil milhões de dólares. 

A Gemcorp é a maior gestora dos fundos externos do Banco Nacional de Angola e um dos seus maiores credores. Está ligada à refinaria de Cabinda, projecto avaliado em quase mil milhões de dólares. Atentem neste pormenor delicioso. A Gemcorp é ao mesmo tempo financiadora e proprietária da refinaria de Cabinda, Coitados dos marimbondos, nem roubar sabiam!

Querem mais? Tomem lá disto: A Gemcorp é parceira do Grupo Carrinho na Reserva Estratégica Alimentar. Petróleo e comida é com eles. Estão a perguntar-me se acho mal? Nem mal nem bem. Sou contra o sistema. Mas se o Povo Angolano em 1992 escolheu o capitalismo, quem sou eu para contrariar? MPLA quis o capitalismo. Fez campanha pelo capitalismo. UNITA quis o capitalismo. Fez campanha pelo capitalismo. FNLA kimoxi ou emoxi. Todos os outros, sem excepção, fizeram campanha pelo capitalismo e a democracia representativa. Aí está o resultado. Colossais fortunas em conluio com o Estado.

No capitalismo existem os “self made men”. Gente fina. Por exemplo, o Grupo Carrinho. Aquilo começou com um roboteiro que subiu a corda a pulso e em homenagem à sua profissão pôs à empresa o nome do seu instrumento de trabalho. Quem sabe que Carrinho era um senhor que andava a labutar entre a Ganda e o Cubal, que me desculpe os delírios de imaginação. Já agora fiquem sabendo que a guerra dos sicários da UNITA levou-o a fugir para o Lobito, com a sua amada. Lá fez pela vida e com a ajuda do MPLA sobreviveu. Estrou com inveja? Nem pensar. Alguns e algumas que ficaram multimilionários são das minhas relações e até posso dizer que em alguns casos somos amigos. 

Agora uma boa notícia. O meu amigo José Guerreiro, um importantíssimo quadro do MPLA e da TPA publicou um livro de memórias. Notícia melhor não podia ter hoje, o dia em que Joe Biden confirmou a esmola ao continente africano, sob os aplausos dos Chefes de Estado africanos presentes. A vida é mesmo muito bela. Quando pensava que ia ficar sem ar para respirar, eis que o meu amigo e camarada José Guerreiro abriu as cortinas da vida, de par em par, e a luz espanta meus males e minhas tristezas.

Obrigado, Zé Guerreiro. Prometo ler o livro, em marcha lenta e tirar notas. Vou seguramente aprender. Vou seguramente recordar momentos que vivemos juntos na difícil e dolorosa luta do MPLA pela liberdade e a dignidade. Tu és racional, um pensador, um resistente com elevado sentido crítico, Eu sou irracionalmente do MPLA. Umas vezes, fico mal. Outras bem. Mas com esta idade já não vou aprender outra linguagem.

*Jornalista

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