sexta-feira, 14 de junho de 2019

Portugal | Algo ou algo mais


Miguel Guedes | Jornal de Notícias | opinião

Fazer-nos acreditar em algo, seja a preto e branco ou em tons de fúchsia, é o desígnio que a classe política é convidada a adoptar e percorrer de lés a lés, da Direita à Esquerda, pelo convidado presidencial do 10 de Junho, mestre-de-cerimónias João Miguel Tavares (JMT).

Galardoado com um discurso transversal a todo o espectro político, nesse lugar de comunhão que o senso comum interioriza por altura das celebrações em que se sopram velas. Se retirarmos a política do discurso, sobeja um belíssimo manual de instruções para o bom comportamento moral e cívico. Haja princípios.

Mesmo que da sua política não reze a História, o "karma moral" de JMT é o discurso mais interessante e memorável das últimas celebrações do 10 de Junho. Dir-me-ão que 10 anos de discursos foram ocupados por Cavaco. É verdade. Mas isso só aporta maior grandeza ao discurso do cavaquista JMT, defensor do homem das quatro maiorias enquanto primeiro-ministro. Nem a nota de alienação ao povo do "dêem-nos alguma coisa em que acreditar" mancha um bom pedaço de pacífica portugalidade em dia da raça. Não será por acaso que Portugal aparece em 3.º lugar no mais recente ranking dos países mais pacíficos do Mundo (só atrás da Islândia e Nova Zelândia) ou assiste ao crescimento exponencial do PAN: há um país que se revê benignamente em palavras fofas recortadas com avisos à navegação. JMT capturou esse país adiado, plantado à beira-mar como se o dia 10 de Junho ainda fosse mesmo o dia da nossa raça.


Não sei se será necessário nascer duas vezes mas, por cada português que se abate, há logo outro que se levanta. No momento em que o "The New York Times" resolve banir cobardemente, à boleia de um português, qualquer cartoon da sua edição internacional (após as acusações de antissemitismo pela publicação de um cartoon de António Antunes que retratava Donald Trump com um "kipá" e óculos escuros a ser conduzido por um cão-guia com a cara de Benjamin Netanyahu), há um outro português que faz a capa da revista "Time", António Guterres. O secretário-geral das Nações Unidas é fotografado em estado de emergência na Polinésia, fato banhado pelos joelhos nas águas de Tuvalu, alertando para a urgência do combate às alterações climáticas num dos países na orla da submersa devastação pela subida do nível da água nos oceanos. "Alguma coisa em que acreditar". É preciso acreditar que não somos melhores nem piores que ninguém mas que ainda é possível fazer diferente. E aí, confesso, teremos que entrar no império da memória. No momento em que se debate se Vítor Constâncio, ex-governador do Banco de Portugal, autorizou ou não Joe Berardo a levantar 350 milhões da CGD para comprar acções do BCP, é possível olhar para as alterações climáticas como uma oportunidade para povoar áreas inóspitas da Sibéria até ao fim do século XXI. É também por isso que na portugalidade ou no Mundo, uma questão de perspectiva não se resolve com "algo".

*Músico e jurista

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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