sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Portugal | Costa e os espelhos


Miguel Guedes | Jornal de Notícias | opinião

Foi preciso um frente a frente reunindo Costa e Rio à volta de meia dúzia de assuntos, num debate caracterizado pela ausência de ideias sobre o SNS.

Quando o PS parecia caminhar sólido rumo à maioria absoluta, o que permitiu uma inversão de percepção tão súbita, agora que estamos a três dias do início da recta final dos 15 dias de campanha? A ideia de que estas eleições legislativas são mais antecipáveis de que fava em bolo-rei, sofreu um significativo revés. Agora, não se antecipa somente se o PS terá ou não maioria absoluta. Agora debate-se, novamente, se Rui Rio pode afinal ter futuro na liderança do PSD num cenário pós-eleições. Foi António Costa que permitiu que tal sucedesse, foi ele que reabriu um dossier que estava morto e enterrado, ressuscitando a dúvida.

Há uma razão evidente que levou António Costa a não vencer o debate com Rui Rio, como seria expectável: o primeiro-ministro teve medo da soberba. Quando as sondagens colocam o PS próximo da maioria absoluta, a intenção é não forçar a barra, não arriscar o passo em falso, não colocar o eleitorado entre a espada e a parede, não demonstrar arrogância. Um conjunto de nãos. Falsos. Como se o PS não quisesse verdadeiramente a maioria absoluta, como se lhe fosse quase indiferente, como se não fosse aquilo que o seu aparelho mais espera e anseia na expectativa da redistribuição. Fazer de morto, matando o instinto. Evitar a soberba. Sinalizar alguma afabilidade e a condescendência como trunfos. António Costa quis fazer pleno para bingo e nem saiu da linha. Foi certinho. Traiu-se. Assistimos, assim, a um político atípico, anulando o seu "killer instinct", a olhar-se ao espelho sem saber qual o melhor reflexo, sem querer arrasar um Rio a quem bastou ser Rio. Sabe-se agora, Rio é muito bom sem oposição. Ou como candidato presidenciável à imagem de Cavaco.


Outra das razões prende-se com a convicção de Costa de que, em oposição, Rui Rio será sempre um adversário mais simples ou um melhor aliado. Também aí, convém não mexer. Na ausência de maioria absoluta, Costa tem dois sonhos: que a dimensão do PAN lhe chegue para dar a mão ou que Rui Rio se mantenha como líder do PSD. Não será por acaso que o primeiro-ministro resolveu enjaular e dar férias ao seu animal político após disparar continuamente farpas sobre o BE. António Costa vê no BE o seu maior adversário e há muito que não o esconde. Mesmo durante a legislatura, foi o sentido de responsabilidade de BE e PCP que salvou a "geringonça", mantendo-a como solução governativa.

António Costa aborda a fasquia da maioria absoluta com a aproximação do saltador em altura que tem medo de tombar a barra com um salto exuberante. Enquanto Rui Rio dificilmente disfarça a perseguição a jornalistas e ao Ministério Público em nome do segredo de justiça e Gonçalo da Câmara Pereira, líder do PPM, considera que Portugal está a caminho da revolução bolchevique, o país só espera que António Costa também se revele na autenticidade. Nenhum eleitor quer ver António Costa a especular com os votos como especulou com os consensos da legislatura.

*Músico e jurista

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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