sábado, 4 de julho de 2020

EUA | A estátua de Theodore Roosevelt vai cair. Este é seu passado sombrio


#Escrito e publicado em português do Brasil

O Museu Americano de História Natural da Cidade de Nova York anunciou no domingo, dia 21, que removerá a famosa estátua do presidente Theodore Roosevelt que adorna sua entrada principal.

O presidente do museu enfatizou que a decisão foi tomada com base na “composição hierárquica” do monumento – o ex-presidente está a cavalo, ladeado por um homem africano e um indígena americano, ambos a pé – e não pelo simples fato de retratar Roosevelt. O museu, que o pai de Roosevelt ajudou a fundar, manterá o nome do Memorial Theodore Roosevelt, da Rotunda Theodore Roosevelt e do Parque Theodore Roosevelt.

Isso faz pensar que os americanos ainda não encararam o lado terrivelmente sombrio da história de Roosevelt.

Roosevelt nasceu em 1858 em uma família abastada da cidade de Nova York. Seu pai morreu enquanto Roosevelt frequentava a universidade de Harvard, e deixou para ele uma herança que hoje equivaleria a cerca de 33 milhões de dólares. Ainda antes dos trinta anos, Roosevelt investiu uma parte significativa de seu dinheiro em criação de gado no Oeste. Isso fez com que ele passasse bastante tempo nas regiões de Montana e Dakota do Sul e do Norte, poucos anos antes de se tornarem estados, em 1889.


Durante esse período, Roosevelt desenvolveu uma postura em relação aos indígenas americanos que certamente pode ser descrita como genocida. Em um discurso proferido em Nova York em 1886, ele declarou:

“Não chego a pensar que o índio bom é o índio morto, mas vale para nove entre dez deles, e eu prefiro não olhar de perto o caso do décimo. O caubói mais depravado tem mais princípios morais que o índio médio. Pegue trezentas famílias de classe baixa de Nova York e Nova Jersey e as sustente, por 50 anos, em ócio imoral, e você terá alguma ideia do que são os índios. Imprudentes, vingativos, diabolicamente cruéis.”

Naquele mesmo ano, Roosevelt publicou um livro onde escreveu que “o assim chamado Massacre de Chivington ou Sandy Creek, a despeito de alguns detalhes discutíveis, foi no todo um dos feitos mais justos e benéficos que já se praticou na fronteira”.

O massacre de Sand Creek [“riacho de areia”, em inlgês] acontecera 22 anos antes no Território do Colorado, dizimando um vilarejo com mais de 100 pessoas dos povos Cheyenne e Arapaho. Foi comparável, em todos os aspectos, ao massacre de My Lai durante a Guerra do Vietnã. Nelson A. Miles, um oficial que veio a se tornar o mais alto general do Exército, escreveu em suas memórias que fora “talvez o mais vil e mais injustificável crime nos anais da América”.

O ataque foi comandado pelo coronel John Chivington, conhecido pela infame declaração: “Eu vim matar índios. (…) Matar e escalpelar todos, grandes e pequenos; afinal, larvas viram piolhos.” Soldados posteriormente relataram que, depois de matar homens, mulheres e crianças, mutilaram seus corpos para retirar troféus. Um tenente assim declarou em um inquérito parlamentar: “soube que as partes íntimas de Antílope Branco tinham sido cortadas para fazer um saco de tabaco”.

Em outro livro, “A conquista do Oeste”, Roosevelt explicava que as ações dos EUA contra os indígenas americanos eram parte de uma ampla e nobre empreitada do colonialismo europeu:

“Todos os homens de pensamento sadio e íntegro devem afastar com impaciente desprezo a pretensão de que esses continentes sejam reservados para o uso de esparsas tribos selvagens. (…) Felizmente, os homens brutos, enérgicos e práticos que fazem o duro trabalho pioneiro da civilização em terras bárbaras não estão inclinados ao sentimentalismo falso. As pessoas que estão, são esses sedentários egoístas e indolentes, a quem falta imaginação para entender a importância racial do trabalho feito pela irmandade dos pioneiros em terras selvagens e distantes. (…)

A guerra mais justificada de todas, em última instância, é uma guerra contra os selvagens. (…) Americanos e índios, bôeres e zulus, cossacos e tártaros, neozelandeses e maori – em cada um desses casos, o vencedor, embora possa ter praticado atos terríveis, lançou alicerces profundos para a grandeza futura de um povo poderoso.”

Não há exagero em chamar esse discurso de hitleriano. E embora não seja muito popular dizer isto, o nazismo não era apenas retoricamente semelhante ao colonialismo europeu, era uma consequência dele e sua culminância lógica.

Em um discurso proferido em 1928, Adolf Hitler já falava com admiração sobre como os americanos “reduziram, a tiros, os milhões de peles-vermelhas a apenas algumas centenas de milhares, e mantêm agora o diminuto restante sob observação em uma jaula”. Em 1941, Hitler contou a pessoas próximas seus planos de “europeizar” a Rússia. Não seriam apenas os alemães a fazê-lo, disse ele, mas também os escandinavos e os americanos, “todos aqueles que têm um sentimento pela Europa”. A coisa mais importante era “olhar para os nativos como os peles-vermelhas”.

Cabe a nós definir o que isso representa para as inúmeras celebrações de Roosevelt nos EUA. Mas se seguirmos com honestidade, enfrentaremos um acerto de contas com algo ainda mais monumental que a história do país.

Jon Schwarz | The Intercept Brasil | Imagem: Timothy A. Clary/ AFP/ Getty Images | Tradução: Deborah Leão

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