domingo, 24 de junho de 2018

SÃO JOÃO | Para não falar do Sporting

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Afonso Camões | Jornal de Notícias | opinião

Ainda não se tinham alinhado as rusgas da Ponte, junto ao rio Este, nem as de Miragaia, sobre o Douro, e já o arraial de São João ia adiantado do outro lado do Mundo, oito fusos e muitas sardinhas à frente, em Macau, onde o mais popular dos nossos santos é também padroeiro e venerado, há 496 anos.

As crónicas daquele junho de 1622 falam em milagre. Estava Portugal sob domínio filipino e a "Cidade do nome de Deus, não há outra mais leal", era a única que nunca se renderia à coroa espanhola. Entre portugueses e chineses, a praça macaense permanecia, à época, parca de gente e de defesa, quando se deu o cerco que se arrastou por há vários dias. Seriam, por junto, uns 15 navios agressores, e desta vez eram holandeses. Em terra, apenas uns 200 homens mostravam competência mínima para se defenderem com armas, e a invasão já começara, com fraca resistência. Foi então que os do Monte da Guia, frades jesuítas, embicaram a canhoeira à frota inimiga e dispararam três bombardas. O milagre foi que uma delas acertou em cheio no navio-paiol, e terá sido tão brutal a explosão que os holandeses retiraram em debandada para não mais voltarem àquelas paragens.

Era a madrugada de 23 para 24 de junho, dia desse santo tão milagreiro quanto cosmopolita e vadio, que é tão do Porto quanto de Braga, Icaraí, Goa, Alcochete, Salvador, Aracaju, Maceió, São João da Madeira, Pernambuco, Olinda, Vila do Conde, Angra do Heroísmo e, desde então, também de Macau. Sim, a Igreja cristianizou uma festa que já antes o era. Viva o São João! Porque há milénios que, por todo o Mundo, o Homem festeja toda a noite o dia mais longo, quando o sol, no seu movimento aparente na esfera celeste, atinge a maior declinação em latitude, medida a partir da linha do equador. São os mistérios da luz e do fogo, do conhecimento - esses sim, motivo da festa.

* Diretor do JN
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