domingo, 22 de julho de 2018

Brasil | Independência e Soberania Nacional

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Zillah Branco* | opinião

O Estado oligarca que serve aos interesses da sua burguesia brasileira evolui com uma lentidão aflitiva. Ha séculos delegou a responsabilidade de fazer avançar uma engrenagem, para afastar a monarquia colonialista, ao patriarca da independência - José Bonifácio de Andrada e Silva - promovendo o grito do Ipiranga por D. Pedro I. Assumiu o papel de preparar o futuro Imperador instruindo-o para desenvolver obras culturais e acolher os emigrantes europeus, e a Princesa Isabel para assinar a Libertação dos Escravos. A oligarquia, à sombra do poder político alimentado pelo sistema financeiro e comercial da Inglaterra, traçou os seus caminhos de enriquecimento e opressão do povo que ficou livre, mas sem emprego.

Uma frase habitual, quando o brasileiro não estava para se apoquentar na busca de solução para um problema trabalhoso, era "ficou por conta do Bonifácio". Era a saida irresponsável para quem tinha um lugarzinho no Estado. Com o tempo, e a preguiça, deixaram de relacionar o Bonifácio que havia de resolver a questão, com o Patriarca da Independência, que fez os seus trabalhos ha duzentos anos. Mas a mesma engrenagem existe hoje, cheia de cracas e pedras coladas ás roldanas que movem o Estado apesar das modernas tecnologias e os títulos científicos dos que comandam as atividades. Comparado com as empresas privadas fica como peça de museu.

Nunca foi posto ao serviço do povo que, entretanto, formado como operário e classe média, frequentou a escola pública onde desenvolveu a sua criatividade e chegou ás universidades com o grande impulso dado por Lula a partir de 2003. A História produziu heróis que foram criando as funções de um Estado para servir ao desenvolvimento nacional com o povo integrado: com a escola pública, o Serviço Universal de Saúde, a Previdência Social, e o desenvolvimento de estradas, transportes públicos. Mas a elite dominante, obrigada a aceitar as instituições sociais, sempre ameaçou de privatizar os serviços mais rentáveis para enriquecer as empresas vinculadas às multinacionais. Para o povo, mantinha a idéia bucólica de subir no coqueiro para tirar côco fresco, como se apenas fizesse parte da paisagem tropical que encanta os turistas.

Lula inverteu este filme. A partir da Bolsa Família, integrou a população nas condições de cidadania, apoiou os estudantes com bolsas para cursarem as universidades, abriu o caminho para acabar com os preconceitos étnicos, apesar de permitir o fortalecimento do poder financeiro que permaneceu enriquecendo a velha elite acobertada pelo setor produtivo do empresariado.

O que impressiona é que o golpe de Temer veio exatamente para destruir a modernização do Estado em benefício da Nação - na produção de minérios e energia - deixando o Brasil empobrecido com seu povo miserabilizado. Na verdade, o que parece é que a oligarquia que apoiou a ditadura de 64, aceitou a aparente democratização gerida por Sarney e depois FHC e voltou, pela mão de Temer, para evitar que as mudanças democráticas de Lula transformasse o Estado emperrado e mínimo (que convém a quem serve os interessas imperialistas), abrindo as portas à verdadeira independência nacional e patriótica.

Só que o povo agora não está em cima do coqueiro nem chama de "virundú" o "grito do ipiranga". Basta ver as suas organizações onde os oligarcas não entram, as escolas de formação e as unidades produtivas de alimentos sem veneno do MST, as associações de combate aos preconceitos racistas ou machistas, que se relacionam com as congêneres de todo o mundo, a participação entusiástica nos comícios de esquerda onde Manuela do PCdoB, Boulos do PSOL, João Paulo ex-"sem terrinha" do MST, debatem os problemas nacionais que deverão fundamentar um futuro Governo a sério para o Brasil e recuperar as suas riquezas que foram enriquecer os patrões dos oligarcas. Deste despertar de consciência sairá uma plataforma popular e brasileira para a defesa de um Estado realmente democrático.

*Zillah Branco - Cientista Social, consultora do Cebrapaz. Tem experiência de vida e trabalho no Chile, Portugal e Cabo Verde.
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