terça-feira, 6 de agosto de 2013

Portugal: CRIANCICES E ADULTICES

 


José Morgado – Público, opinião
 
Em tempo de férias, umas notas sobre uma matéria que eventualmente poderá parecer estranha mas que ainda assim gostava de partilhar, com a vossa licença.
 
De há uns tempos para cá e com uma mais acentuada frequência no decurso da recente crise política, começámos a ver escritas e a ouvir apreciações aos comportamentos e atitudes de boa parte dos actores políticos envolvidos e mais responsáveis pela situação, que remetem para o universo dos miúdos e dos seus comportamentos.

A título de exemplo, na comunicação social e nos discursos de diferentes analistas e opinadores encontramos referências, como "garotada", "garotice", "bando de garotos irresponsáveis", "trapalhada de jardim de infância", "birras de miúdos", etc.

Peço desculpa, mas ainda que não tenha qualquer mandato de defesa por parte dos mais novos, acho que os miúdos não merecem tal comparação.

Na verdade e do meu ponto de vista, o que boa parte desta gente tem andado a fazer são sobretudo jogos de jogos de poder, contas sobre interesses de natureza partidária, umbiguismo e defesa de interesses corporativos e pessoais com custos imensos para milhões de pessoas. Nesta perspectiva, creio que o espectáculo deprimente de mediocridade e incompetência, de despudor, insensatez e irresponsabilidade de muitos dos discursos e atitudes a que vamos assistindo, tem pouco a ver com o mundo dos miúdos.

Quero sublinhar que, tal como não tenho uma visão idealizada dos comportamentos dos mais novos, também não quero proceder a uma diabolização sem sentido da acção dos actores políticos, limito-me a observar e a pensar em muito do que nos é dado a conhecer.

No entanto, creio que de uma forma geral os miúdos são sérios. Aliás brincar é mesmo das coisa mais sérias que fazem enquanto muito do que assistimos mostra que alguns destas actores não constituem um bando de garotos, mas um bando de gente incompetente e alguns bem medíocres.

Poupem, pois, os miúdos a comparações injustas e que eles não merecem.

A propósito desta questão e na mesma linha, pedia-vos ainda um pouco mais de paciência para uma outra situação

De há uns tempos para cá entrou no léxico comum uma terminologia vinda da área da saúde mental também para apreciar comportamentos e discursos na vida política ou social. A banalização deste comportamento representa do meu ponto de vista, ainda que não intencionalmente, uma enorme ofensa ao sofrimento das pessoas e das famílias que lidam com quadros clínicos desta natureza.

Vejamos alguns exemplos. É muito frequente a referência a estados de depressão, o país está deprimido, os mercados estão deprimidos, algumas regiões portuguesas são consideradas deprimidas, etc. Diz-se com todo o à-vontade que certos comportamentos políticos podem ser suicidas, seja de pessoas ou de partidos. Inventaram até um quadro de claustrofobia democrática, seja lá isso o que for. Não há opinador, amador ou profissional, que não se refira a autismo ou a autista para adjectivar discursos e comportamentos políticos que, noutra variante, também são apreciados como esquizofrénicos. Multiplicam-se as referências a pessoas que assumem compulsivamente estratégias de vitimização, etc., etc. A utilização destas palavras nestes contextos causam-me na verdade algum desconforto.

Aliás, deve recordar-se que a Assembleia da República aprovou uma moção no sentido de se não utilizar tal terminologia nos debates parlamentares.

Mais uma vez e sem subscrever um discurso dirigido à santidade ou ao "politicamente correcto" fundamentalista e sem sentido, julgo que as palavras e as pessoas merecem o uso adequado.

Como disse no início, talvez estas notas vos pareçam algo estranhas mas ainda assim ... aqui ficam.

Continuação de boas férias, se e quando for o caso.

José Morgado é professor universitário no ISPA - Instituto Universitário
 

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