terça-feira, 6 de agosto de 2013

CASO SNOWDEN ENTRA NO CAMINHO DE CRISTINA KIRCHNER NA ONU

 


A presidenta Cristina Kirchner discursará nesta terça (6) no Conselho de Segurança da ONU, tendo como pano de fundo a atual tensão nas relações entre Washington e Moscou. Como ela e seus parceiros regionais lidarão com o caso Snowden, neste momento em que Argentina acaba de assumir a presidência do conselho? Por Martín Granovsky, do Página 12
 
Martín Granovsky - Página 12 – Carta Maior
 
Nesta terça-feira, dia 6, a presidente Cristina Kirchner irá discursar no Conselho de Segurança da ONU tendo como pano de fundo um caso particular das relações entre Washington e Moscou. A Argentina assumiu o comando do Conselho quinta-feira passada, mesmo dia que o ex-agente da inteligência norte-americana Edward Snowden recebeu asilo temporário da Rússia.

Na mesma semana em que um tribunal condenou o soldado Bradley Manning pelos vazamentos que nutriram o WikiLeaks, os Estados Unidos ficaram nada menos do que "decepcionados" com a entrada de Snowden em território russo. Segundo o Acnur (Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados), "o direito de asilo exige dos países que, pelo menos de forma temporal, recibam pessoas que fogem de seus países por perseguição ou perigo". Ou seja, para Putin os Estados Unidos representam um perigo para Snowden. O texto oficial da Acnur ainda diz que "um componente essencial da instituição do asilo é o princípio de não devolução", o que quer dizer colocar o refugiado "nas fronteiras de territórios onde sua vida ou liberdade corra risco em razão de sua raça, religião, nacionalidade, ou suas opiniões políticas".

Forçado, da mesma forma que o ex-oficial da KGB Putin, a demonstrar forte liderança diante de um tema de segurança nacional como espionagem ou vazamento de informações, Barack Obama tem em mãos apenas um consolo: a palavra "temporal" do asilo dado pela Rússia. A presidente Kirchner e sua embaixadora na ONU, a ex-senadora Marita Perceval, terão de lidar em seus discursos com uma situação bem diferente da pós-Segunda Guerra. A questão agora não é ideológica, nem de eixo. A Rússia está longe de ser a superpotência que era a União Soviética em tempos de Guerra Fria. Quanto aos Estados Unidos, são uma hiperpotência única que os historiadores não registram desde o Império Romano. Não há dois ordenadores do mundo no mesmo nível. O que se tem é um mundo que a América do Sul e Argentina desejam mais multipolar, mas que ainda apresenta a existência de uma potência com capacidades militares e estratégicas muito distantes do resto.

A chegada de Snowden a Moscou introduz nas relações com Washington um atrito que parecia dissipado quando os serviços secretos russos e norte-americanos trabalharam juntos para solucionar o atentado de Boston, em abril. No caso, dois irmãos chechenos foram responsáveis pelo ataque. A neutralização da luta pela independência da Chechênia foi um dos motivos que transformaram Putin em um grande líder popular no fim dos anos 1990.

A dura reação legislativa contra Putin nos Estados Unidos, muito mais dura que a de Obama contra o presidente russo, permite conjecturar que nos próximos tempos qualquer tema terá como sombra a concessão do asilo ao ex-empregado da consultora Booz Allen e contratado da Agência Nacional de Segurança (NSA, do inglês), sobretudo temas em que as diferenças entre Washington e Moscou já são agudas, como a crise na Síria, por exemplo.

A presidência do Conselho de Segurança será um ponto interessante de observação - ou de decisões, nunca se sabe - de um mundo que não é bipolar como na Guerra Fria, mas que não está esvaziado de contradições. Como aproveitar essas diferenças sem cair num fogo cruzado é um dos temas que terão de ser enfrentados pela presidente, pela Argentina e pelos parceiros do país na região.
 

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