domingo, 15 de julho de 2018

JAMAICA SEM ÁFRICA!

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Martinho Júnior | Luanda 

1- Terminou em Montego Bay, na Jamaica, a 39ª Reunião Ordinárias dos Chefes de Estado dos países membros da organização CARICOM (15 países que compõem a bacia do Caribe, 5 associados e vários observadores, entre eles Cuba, que este ano foi, com o Chile, convidado especial).

Os componentes desta organização (https://www.caricom.org/) são na sua esmagadora maioria pequenas nações insulares que, fruto do processo de colonização na América, receberam grandes contingentes de escravos para as plantações e por isso têm hoje uma significativa maioria de população afrodescendente, espalhada pelas comunidades multiculturais de toda a região.

São países pequenos, vulneráveis e sofrendo de isolamento crónico, que procuram vários processos de integração articulada e consensos para que a região possa responder em uníssono perante outros interlocutores internacionais e perante as adversidades.

Em função das heranças coloniais e do isolamento, os componentes do CARICOM procuram compensações (https://www.saberesafricanos.net/escuela/talleres-seminarios/3310-conferencia-internacional-sobre-reparaciones.html), uma vez que com a escravatura, geração após geração, as comunidades foram sofrendo de isolamento, de marginalização e de precariedade.

Há avanços em várias questões comuns: desde as que se prendem ao comércio e ao turismo (grande parte das receitas provêm do turismo), até às que se prendem à segurança ambiental numa região que tem sido assediada por cíclicas tempestades.

Todavia, a baixa renda e a precariedade continuam a ser determinantes, influindo no grau de isolamento, sem se poderem abrir até hoje melhores alternativas.

A língua oficial da organização, em contraste com esse relativo isolamento, é a mais globalmente cosmopolita: o inglês.

Por incrível que possa parecer a um observador internacional com o espírito minimamente crítico, o CARICOM não manifesta interesse prioritário nos relacionamentos para com África e reciprocamente!...


2- Ao merecer um convite especial para a 39ª Reunião Ordinária dos Chefes de Estado do CARICOM para este ano, Cuba, a maior das ilhas do Caribe, reflectiu sua proximidade e integração nos consensos regionais e em matérias que vão desde a educação, a saúde, até à segurança ambiental comum.

O Presidente Diaz-Canel evidenciou o que advém do passado comum (http://www.cubadebate.cu/opinion/2018/07/05/diaz-canel-en-caricom-el-irrenunciable-compromiso-de-cuba-con-sus-hermanos-mas-proximos/#.Wz85XibZBjo): “Cuba no anda de pedigüeña por el mundo: anda de hermana y obra con la autoridad de tal. Al salvarse, salva”…

…Lembrou a digna posição de Cuba, consolidada e comprovada face a tantos acontecimentos, uma parte deles ocorridos em África:

“Y la Revolución cubana, que convirtió en ley su legado, no ha dudado en compartir lo que tenemos, ofrecer lo que conocemos; apoyar en lo que podemos, más en la hora difícil que en el instante afortunado, pero sencillamente sempre.

Con una sola prioridad: primero el que más sufre y si es hermano con más razón”…

…Para por fim entrar nas questões comuns de especialidade, sem nunca perder de vista a história e a amizade comum, forjadas em conjunturas tão similares:

“No es nuevo, aunque sí cada vez mayor, el reto que se plantea a nuestros pequeños estados para alcanzar un desarrollo sostenible, pues son aún mayores y más complejos los obstáculos y los peligros derivados de un orden internacional injusto que ha durado demasiado.


Un mundo cada vez más desigual, en el que se obstruye el acceso de nuestros productos a los mercados, y se nos priva de los recursos tecnológicos y financieros imprescindibles para el desarrollo, mientras se dilapidan ríos de dinero y recursos en gastos militares y guerras infinitas fuera de las fronteras de sus promotores, donde hay poco espacio para las esperanzas de las naciones que perdimos siglos de progreso, alimentando el de nuestras metrópolis.

Por eso Cuba apoyará siempre los justos reclamos del Caribe de recibir un trato justo y diferenciado en el acceso al comercio y las inversiones. Y respaldaremos, sin dudar, la legítima demanda de compensación por los horrores de la esclavitud y la trata, a la vez que rechazamos la inclusión de Estados miembros de CARICOM en listas unilaterales de supuestas jurisdicciones no cooperativas elaboradas por los centros del capital financiero internacional.

Ratificamos, igualmente, que es necesario y justo el reclamo de fomentar la cooperación a partir de las necesidades de los países en desarrollo y sobre la base de la deuda histórica como consecuencia del colonialismo, y no por una mecánica e incompleta medición de la renta nacional.

Como ya adelantaba, los efectos del cambio climático y la destrucción progresiva del medio ambiente, amenazan la supervivencia humana y hacen que los fenómenos y desastres naturales afecten con mayor intensidad a los pequeños estados insulares. Nos urge, por tanto, encontrar respuestas mancomunadas para enfrentarlos y reclamar un trato justo, especial y diferenciado.

Propósitos y Principios de la Carta de las Naciones Unidas, como la solución pacífica de controversias, la prohibición del uso y de la amenaza del uso de la fuerza, el respeto a la libre determinación, la integridad territorial, la igualdad soberana de los estados y la no injerencia en sus asuntos internos, son vulnerados continuamente, lo que constituye un real peligro que demanda nuestra más estricta observancia y la voluntad de hacer valer la Proclama de América Latina y el Caribe como Zona de Paz, compromiso firmado en La Habana en el 2014 por los jefes de Estado y Gobierno de la región.

No podemos ignorar los graves y alarmantes mensajes de arrogancia y desprecio con que autoridades de los Estados Unidos se dirigen a nuestras naciones.

La declarada intención de retomar la Doctrina Monroe, expresión directa de sus ambiciones de dominación, junto con actos de intervención, que provocan violencia, crisis humanitarias e inestabilidad, merecen un firme repudio, tanto como la aplicación de medidas coercitivas unilaterales y las tácticas de guerra no convencional que se han convertido en una amenaza directa a la estabilidad y la verdadera integración de nuestras naciones”.

De certo modo, com o CARICOM, Cuba preencheu um preâmbulo na direcção do 24º Encontro do Foro de São Paulo que se vai realizar entre 15 e 17 de Julho, em Havana (http://www.granma.cu/foro-sao-paulo/2018-06-20/que-ocurrira-en-el-foro-de-sao-paulo-en-la-habana-20-06-2018-21-06-03)!


3- A mesma clarividência revolucionária que Cuba tem alimentado para com África, um continente que embora no hemisfério ocidental fica-lhe longe, tem Cuba para com os pequenos estados vizinhos componentes das Caraíbas.

Por isso, sem merecer qualquer solicitação ou mesmo atenção dos africanos, Cuba representou-os sem procuração perante as nações com comunidades afrodescendentes maioritárias espalhadas por todas as Caraíbas, como se produzisse um invisível nexo de ligação, entre os povos sem outra voz, sem outra sensibilidade, senão a sua, com toda a dignidade histórica que ela representa!

Já era tempo das nações insulares das Caraíbas filiadas no CARICOM e África, nomeadamente a União Africana, as organizações regionais africanas e pelo menos alguns dos estados africanos, estabelecerem entre si laços que pudessem reverter para o benefício da defesa de causas comuns que tanto têm a ver com a história, com a geografia, com a diáspora forçada e com o sangue…

Em África resulta que é muito mais fácil os seus estados relacionarem-se, ou mesmo ir a correr, para a Europa, ou para a Ásia, ou mesmo para as nações dominantes da América do Norte, do que se lembrarem que nas Caraíbas há milhões de afrodescendentes, cujo isolamento continua a ser desde logo, com todo o vendaval de contradições que isso implica, para com as nações, os povos e os estados do continente-berço!

Nesse aspecto, os poderes africanos demonstram em pleno século XXI, que estão vulneráveis à assimilação dos poderosos e suas políticas neocoloniais e por isso incapazes de tirar partido da clarividência revolucionária cubana para darem um passo visando não perder a oportunidade de juntar as suas preocupações, as suas inquietudes, os seus anseios e a sua própria expressão, aos povos, nações e estados do CARICOM.

Isso seria tanto mais importante quanto, no “ranking” anual dos Índices de Desenvolvimento Humano, são os países do CARICOM os que mais se aproximam aos de África, na cauda da tabela.


O argumento da divisão está a ser dominante em África e qualquer veleidade de integração, ainda que aberta às mais diversas articulações, é para o império da hegemonia unipolar motivo de suspeita, de vigilância e desde logo das “profilaxias” de que seu “soft power” está de há muito instrumentalizado e de que sua capacidade de ingerência faz sistematicamente uso, inclusive sob os pontos de vista de inteligência e militar!

Na Jamaica, a 39ª Reunião Ordinária dos Chefes de Estado do CARICOM, ocorreu uma vez mais, em pleno século XXI, sem a presença de qualquer sensibilidade africana, para além da representatividade digna e eticamente exemplar de Cuba internacionalista, solidária e transcontinental, que representa sem procuração a todos os que, no mais “obscuros rincões do globo”, simplesmente não têm voz! 

Martinho Júnior - Luanda, 9 de Julho de 2018

Ilustrações:
- Símbolo do CARICOM;
- Mapa dos membros do CARICOM;
- Montego Bay, na Jamaica, onde se realizou a 39ª Reunião Ordinárias dos Chefes de Estado dos países membros da organização CARICOM;
- Altos dignitários dos países membros do CARICOM, presentes na reunião da Jamaica;
- Intervenção do Presidente cubano, Diaz-Canel, convidado especial da CARICOM na reunião da Jamaica.
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