sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

O crepúsculo de dois deuses menores

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Jorge Rocha* | opinião

É uma chatice ver chegado o final de um mandato em funções a termo e saber-se à beira de procurar novo modo de vida.  No entanto, enquanto é possível, esbraceja-se, estica-se o corpo na ponta dos pés, faz-se os possíveis por arranjar quem interceda em seu favor.

Nos últimos dias esse tipo de situação repetiu-se com Francisco Assis e com António Filipe Pimentel.

O primeiro foi um notório opositor à opção do Partido Socialista em coligar-se com os partidos à esquerda, sendo-lhe conhecidas afirmações enfáticas em como seria lícito que, após as eleições de 2015, fosse Passos Coelho a liderar o governo com a abstenção ativa do que seria o principal partido da oposição.

Pode-se imaginar como teria involuído o país se a vontade de Assis tivesse sido satisfeita? Agora, estando em vias de perder as mordomias do precário cargo, desdobrou-se em entrevistas lançando a António Costa o insólito recado: ele que liderara a lista socialista nas europeias anteriores, predispunha-se a abdicar dessa primazia conquanto fosse considerado para lugar elegível.

António Costa fez orelhas moucas à cantilena a lembrar uma canção do Sérgio Godinho («Arranja-me um emprego!») e dispensou a oferta do camarada a quem não deixará de agradecer pelo «contributo» desenvolvido nos últimos anos.

Com o ainda diretor do Museu Nacional de Arte Antiga, António Filipe Pimentel, acontece algo de semelhante. Nos últimos anos ele tem participado ativamente na contestação à política ao governo socialista a quem exigiu aquilo que nunca obtivera, quando estivera em funções o anterior de quem era assumido simpatizante. Aliás, foi notória a sua passagem por um cenáculo do CDS, há um par de anos, em que exagerou nas críticas à tutela vindo logo penitenciar-se, quando compreendeu o risco de ver acelerado o processo de ser devolvido à procedência.

Agora, com a intenção do governo em lançar um concurso internacional para a indigitação de um novo diretor para a instituição, anunciou-se indisponível para continuar num cargo para o qual teria de se bater, de igual para  igual, com outros candidatos e multiplicando as críticas ao Ministério da Cultura. Lamentavelmente a RTP prestou-se a servir de altifalante ao iminente desempregado, dando-lhe o ensejo de dizer-se disposto a continuar se lhe satisfizessem todas as birras.

O caso lembra o da antecessora, Dalila Rodrigues, cuja substituição pelo governo Sócrates motivou críticas de Cavaco Silva e manifestações no jardim da Rua das Janelas Verdes. A exemplo do que sucederá a António Filipe Pimentel, a então diretora era elogiada pelo trabalho feito, que a tornariam imprescindível. O resultado viu-se: quase nove anos depois quem ainda se lembra que Dalila existiu?

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