quarta-feira, 27 de junho de 2018

Retratos de Cuba, em vésperas de mudanças

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Nova Constituição, mais democrática, pode afastar lembranças do “socialismo real”. Mas grande desafio do novo governo é enfrentar as complexas reformas econômicas e transformações culturais

Felix Contreras, em Crônicas de Havana | Outras Palavras

Já estão em marcha e na fase pública os trabalhos para a reforma constitucional, um fato político de grande relevância em Cuba, com muitos detalhes que envolvem as instituições do Estado e sociais, a sociedade civil e a população em geral – e que, por seu conteúdo, moverá as estruturas de todo o país nos próximos anos.

Segundo publicado na imprensa oficial, será a Constituição cubana mais plural, participativa e inclusiva até hoje, com ampla participação popular num marco jurídico que define o sistema político e o modelo econômico do Estado socialista cubano, que agora terá um avanço ”na construção de um novo modelo socialista”.

É a primeira Constituição de um socialismo mais crítico, com um olhar mais aberto ao gênero, à diversidade sexual (agora o machão está mudando), à racialidade, à emigração, aos temas ambientais, à integração. O país precisa de um ar renovador não só na letra, mas também de um novo espírito. A sociedade cubana está muito longe dos esquemas de ontem, dos velhos modelos políticos, daquele “socialismo real” soviético que muito influiu ou gravitou nos destinos do país durante cinquenta anos. Agora são os cubanos das redes sociais, das novas tecnologias da informação, os cubanos que têm liberdade para sair e entrar no pais sem limitações, sem medo do debate e de falar o que pensam.

Turismo e agricultura

O turismo em Cuba, com grande espaço nas reformas econômicas abertas por Raul Castro, espalha neste momento seu desenvolvimento, com 4 milhões de turistas só neste ano. Mas tem um ponto fraco: são poucos os produtos do país, e é preciso recorrer a alimentos importados. Acontece que o consumo de refeições nos hotéis e nas casas que alugam acomodações é imenso, ainda mais na hora do café da manhã, momento sagrado para o turismo brasileiro.

A agricultura foi vítima da antiga política de controle absoluto nas mãos do governo, do Estado – que, para limitar o poder político do camponês (acumulação de dinheiro), refreava sua produção agrícola. Resulta que muitas terras, muitas matas tornaram-se alimento da marabu, uma erva daninha que não para de espalhar-se e que mata as plantas vizinhas. É aquele marabu de que falou Raul Castro no ano 2000, quando fez uma visita ao estado de Camaguey e ficou arrepiado com a invasão dessa erva nas terras que antigamente alimentavam as vacas leiteiras no centro da ilha.

Outro problema derivado da carente infraestrutura cubana são os guardanapos e o papel higiênico – as pessoas compram em grandes quantidades, provocando uma escassez artificial. Uma amiga paulista pediu dois guardanapos num restaurante e só lhe deram um: ”temos muito pouco”, foi a explicação do garçon, mirando os grandes olhos no rosto da garota.

Relações com EUA

As relações Cuba-Estados Unidos são complexas e é difícil entender direito se acabou ou não a guerra fria ou degelo entre os dois países. Quase todos os dias aparecem na mídia desmentidos ou informações contraditórias, como na semana passada, quando uma notícia falava da redução de voos a Havana de empresas aéreas que não faziam mais negócios em Cuba.

É verdade que o turismo norte-americano teve uma queda causada pela crise dos ainda misteriosos ataques sônicos que teriam sido recebidos pelos diplomatas estadounidenses em Havana. Também os fortes danos do furacão Irma no país concorrem para essa queda. Daí que o mais minguado mercado na industria do turismo em Cuba é hoje o norte-americano – houve uma forte contração de janeiro de 2018 (menos 585 turistas) e ainda maior em fevereiro e março (433).

Esse tema esquenta muito a cabeça do povo cubano – e imagino que esquenta ainda mais a da Donald Trump, agora que muitos hotéis de Havana são comandados por militares dos Castro. Parece que a American Airlines será a primeira empresa na operação de transporte de pacotes entre EUA e Cuba, o que inclui também correspondência e correio expresso. Afinal, acabou ou não a política de ferro para Cuba da administraçao Trump?

Unificação das moedas

Os cubanos já esqueceram a quantidade de vezes que seu governo anunciou a unificação das duas moedas existentes no pais, ou seja, a volta ao peso cubano e à normalização de comprar ou trocar sem fila a moeda estrangeira (dólar, euro, lira, libra ou outras) pelo CUC (dólar cubano equivalente a 25 pesos) para, depois, trocá-lo por moeda nacional, o peso, e assim poder comprar as coisas com melhor preço.

”Nossa, fiz um mestrado em Havana usando as duas moedas… Sorte que o mestrado foi de graça”, me disse rindo uma amiga de São Paulo.

O tema das duas moedas é o quebra-cabeças número um para o turista que vem a Havana pela primeira vez. Um quebra-cabeças que é mais complexo e difícil do que se pode pensar e uma pedra no sapato do processo de transformações econômicas da ilha, porque os custos econômicos, sociais e políticos são maiores que os previstos e Cuba não tem dinheiro nenhum.

Um tema recorrente na percepção popular habaneira, onde o cara que vende banana na esquina diz “Nossa, esta troca não tem pés, vai devagar demais”, e o freguês que o escuta fala: “Isso é tema para um romance de Leonardo Padura”.

Havana, submersa em lixo

Recentemente nomeada Cidade Maravilha por instituições internacionais, Havana mostra ao turista uma face de grande contraste com essa qualificação: montanhas de lixo e cheiros nada amáveis nas esquinas do chamado grande Centro de Havana (onde lamentavelmente moro).

”Que acontece que há tanto lixo nas esquinas da Cidade Maravilha, Contreras?”, perguntam amigos brasileiros.

Na contemplação da Cidade Maravilha, de seu ecletismo arquitetônico e a beleza do art déco, sobressaem também os grupos de cachorros sem dono que deambulam sem rumo fixo pelas ruas olhando para o céu e a legião de turistas sem ”comprender” nada…

Ao acaso, uma vizinha sai de uma república com uma sacola de lixo nas mãos e, na maior indolência do mundo, joga o lixo no chão diante do cartaz que pede: ”Favor não jogar lixo fora do cesto”. Minha amiga diz à velhinha: ”Nossa, a senhora joga o lixo no chão!”… E a senhora responde: ”O que você quer, que eu jogue no chão da minha casa? Diga ao governo que venha limpar, caralho!”

Pensadores

As grandes mudanças que acontecem em Cuba provocam muitas perguntas, principalmente fora da ilha, onde se tem menos informações sobre Cuba. No ano passado o jornalista de Outras Palavras Cauê Ameni me fez a pergunta: “Há em Havana pensadores/pensadoras à altura do sucesso dessas mudanças?

Sim, respondo, e cito só alguns: Esteban Morales, doutor em ciências econômicas, especialista em política e professor, autor de Teoria leninista do imperialismo e A problemática racial em Cuba; Alfredo Preto, ensaísta e editor, diretor da revista Cuadernos de Nossa América, autor dos livros A imprensa nos Estados Unidos, A agenda americana e O outro no espelho; Domingo Jorge Cuadrielo, pesquisador literário e narrador, autor de Do exílio espanhol em Cuba e do Dicionário biobibliográfico de escritores espanhois em Cuba, século XX; Guilherme Rodrigues Rivera, poeta, jornalista e ensaísta, autor de Em carne propia, historia do tropo poético e de Nós os cubanos; Fernando Ravsberg, jornalista uruguaio que mora em Cuba, autor do blog Cartas desde Cuba; Dmitri Prieto, mestre em direito, antropologia e sociedade pela London School of Economics and Political Science; Aurelio Alonso, sociólogo, ensaísta e especialista em política, autor de Iglesia y política em Cuba e de O laberinto tras a caída; Armando Chaguaceda, historiador, especialista em temas políticos como democracia, movimentos sociais e historia da política latino-americana; Jorge Gomez Barata, jornalista, foi professor na Uniiversidade Agostinho Neto de Angola; Roberto Veiga Gonzales, licenciado em direito, autor de matérias sobre religião católica.
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