quinta-feira, 16 de maio de 2013

OS SENTIDOS DO IMPÉRIO



Rui Peralta, Luanda

I - O projecto de construção de uma América unida, iniciada por Bolivar, Francisco de Miranda, Francisco Morazán, José Marti e outros, sempre encontrou, por parte de Washington, uma persistente resistência, uma vez que contrariava as apetências imperiais, desde muito cedo manifestas, da parte Norte do continente. Ontem, como hoje, as forças que sempre se opuseram á integração americana e a um real e efectivo processo de independência e assunção da soberania popular na América Latina e Caribe, encontraram (tal como encontram) em Washington os seus mentores, financiadores e protectores.

Desde muito cedo, nos USA, desenvolveram-se tendências, que se tornaram dominantes, contrárias á independência dos territórios que actualmente compreendem a América Latina e o Caribe. John Adams, que foi presidente dos USA entre 1797 a 1801, aconselhava prudência aos seus compatriotas, alertando-os para o perigo da Inglaterra se fortalecer com as independências a Sul do continente, reagindo às informações que chegavam ao Norte, sobre a insurreição de Tupac Amaru em 1780 - 1781.

Thomas Jefferson, manifestou as mesmas preocupações e considerava que o fim do domínio espanhol só beneficiaria a Inglaterra. Foi com os mesmos argumentos que George Washington (presidente no período 1789 – 1797) decidiu apoiar a administração colonial francesa no Haiti, durante a revolução haitiana e que os USA negaram-se durante muitos anos a reconhecerem a independência do Haiti.

II - Só no início do século XIX é que os líderes norte-americanos concluíram que os processos em curso, na época, na parte sul do continente, eram, afinal, os ecos da revolução iniciada no norte e que seriam inevitáveis os resultados das independências a sul do continente. Mas se o Congresso dos USA aplaudia e apoiava o processo de emancipação a Sul do continente, no executivo continuava a preponderar a ideia de que este processo apenas iria beneficiar a Inglaterra e que constituiria a médio prazo uma ameaça á independência dos USA, pelo que seria preferível manter a presença espanhola a sul do continente, até que os USA estivessem em condições de enfrentar a Inglaterra e conduzir esse processo de emancipação.

Em 1819, John Quincy Adams, presidente dos USA e Luís de Onís, ministro espanhol, subscrevem em Washington o tratado que legalizava a possessão da Florida para os USA. Após a ratificação do tratado a política norte-americano alterou-se em relação às independências sul-americanas. Os USA passaram á ofensiva no Texas e em Cuba, que reivindicaram territorialmente e reconhecem as independências das colónias espanholas, embora mantenham uma política de neutralidade, aprovada pelo Congresso dois anos antes do tratado da Florida, durante a administração de James Madison (1809 – 1817).

Mas esta neutralidade dos norte-americanos é apenas aparente, consistindo na realidade um subterfúgio para dissimular os seus reais interesses. Em 1817, o governo republicano da Venezuela proclamou o bloqueio da Guayana e Angostura, em posse dos realistas espanhóis. Os USA fizeram ouvidos de mercador e furaram o bloqueio. Os republicanos venezuelanos aprisionaram dois barcos norte-americanos, que ignoraram o bloqueio e que transportavam viveres e munições para os realistas.

Nos USA, Cobbett iniciou uma campanha no seu semanário, contra a falsa neutralidade parcial dos USA a favor de Espanha e solidarizou-se com os republicanos da Venezuela, exigindo que o governo norte-americano entregasse armas, munições e equipamento aos Venezuelanos e terminasse com o apoio camuflado de neutralidade aos espanhóis. Um facto ocorrido em 1817 contribuiu ainda mais para desmascarar a pretensa neutralidade norte-americana: em Junho desse ano, mais de uma centena de patriotas sul-americanos ocuparam a ilha Amélia, na costa norte da Florida e proclamaram a Republica Livre da Florida, estabelecendo a capital em Fernandina. Os revolucionários içaram a bandeira venezuelana e dominaram toda a ilha.

A posse deste ponto na Florida era de extrema importância para os patriotas venezuelanos, pois permitia-lhes a comunicação com os USA, para além das operações logísticas a partir da costa norte-americana e ao mesmo tempo era um reforço ao bloqueio de Guayana e Angostura, detendo todo o abastecimento norte-americano aos realistas. Foi a partir desta Republica Livre, que durou 66 dias, que as duas embarcações norte-americanas foram detidas. Os norte-americanos (decorria a administração James Monroe, sendo John Quincy Adams o secretario de estado) invadiram a Ilha Amélia e ocuparam Fernandina.

III - Para além desta política de falsa neutralidade dos governos norte-americanos perante os movimentos de emancipação sul-americanos, Washington adoptou uma atitude de recusa em receber os enviados diplomáticos da América Latina. A Junta Suprema de Caracas foi a primeira a enviar as suas comissões aos USA em busca de apoios para a causa da independência e do reconhecimento oficial. A missão foi um fracasso. Os norte-americanos não reconheceram a Junta Suprema de Caracas e não ouve qualquer apoio. Por exemplo, as fábricas norte-americanas alegaram que não podiam fornecer armas porque já havia outros compromissos comerciais com outras nações.

O presidente norte-americano Madison prometeu enviar a Caracas um cônsul, depois de Caracas decretar a liberdade de comércio. Esta proposta foi recebida friamente em Caracas. No fundo a posição norte-americana resumia-se a não reconhecer a Junta Suprema, desde que esta não reconhecesse de forma oficial o governo dos USA e aceitasse as condições comerciais dos USA.

Também o Governo de Cartagena das Índias (Colômbia) pretendeu estabelecer relações diplomáticas com o governo dos USA, mas teve o mesmo destino que a Junta Suprema de Caracas, e das comissões do Chile e de Buenos Aires, embora a este último bastasse reconhecer os USA como a nação mais favorecida no relacionamento comercial. Na administração de Madison, o único enviado diplomático que o secretário Monroe recebeu de imediato e com cortesia foi o do México, mas para propor ao governo mexicano a incorporação desse país nos USA.    

IV - Do lado sul-americano, a atitude era a oposta. Os sul-americanos recebiam respeitosamente os agentes diplomáticos norte-americanos. Buenos Aires recebeu o cônsul-geral norte-americano em 1811, Caracas o agente diplomático em 1812, Cartagena em 1816 e Buenos Aires, Santiago e Lima receberam o agente diplomático em 1817 (Tendo Buenos Aires recebido o cônsul-geral seis anos antes).

O governo norte-americano só reconheceu a Grande Colômbia (actualmente Venezuela, Colômbia, Panamá e Equador) em Março de 1822. Cuba realizaria uma luta pela independência, durante 30 anos e apenas foi reconhecida por Washington depois de ter assinado a Emenda Platt, um apêndice á constituição cubana que converteu a ilha numa neocolónia dos USA. O Haiti, independente desde 1804, apenas seria reconhecido pelos USA em 1862. Esta política de Washington é contraditória se considerarmos que a Republica do Texas, que se tornou independente em 1836, foi reconhecida pelos USA no ano seguinte e o Panamá que optou pela secessão, afastando-se da Grande Colômbia, em 1903, a 3 de Novembro, foi reconhecido 3 dias depois, devido ao canal interoceânico que os norte-americanos estavam interessados em construir. 

Todo este pequeno e resumido historial é, no entanto, suficientemente demonstrativo da política externa norte-americana, que desde a sua fundação sempre se regeu pela necessidade de expandir a sua hegemonia. Os USA apenas reconheciam a independência dos países do sul do continente quando os benefícios económicos se tornavam evidentes. Para trás e no esquecimento ficaram todas as declarações dos pais fundadores dos USA e os seus princípios constitucionais. Até hoje e durante todo o tempo em que o Capital subjugar a democracia norte-americana.

V - Há 250 anos David Hume intrigava-se com o facto de muitos serem governados por poucos, de uma maneira tão fácil e interrogava-se sobre o que conduzia o Homem a essa submissão. Concluiu, há 250 anos, que o governo baseia o seu controlo na opinião.

Hutchenson, um pedante moralista, contemporâneo de Hume, considerava que a questão colocada por Hume era subversiva e que existia um princípio, a que denominou consentimento dos governados, que era o que fazia que as massas “estupidas e preconceituosas” consentissem com o que era feito em seu nome, pelos governantes.  

Este princípio foi aprimorado nos USA, através da sua história. Está evidenciado nas relações com o sul do continente americano, foi evidenciado na Guerra das Filipinas (onde a imprensa norte-americana afirmava que as tropas norte-americanas estavam “massacrando os nativos á moda inglesa, de forma civilizada” e com o “consentimento futuro dos filipinos, que reconheceriam o gesto norte-americano, num futuro próximo”, foi patente na Coreia, no Vietname e mais recentemente no Iraque e no Afeganistão.

A indústria mediática dedica-se ao controlo da opinião pública, ao ponto desta tornar-se um murmúrio zombie, apenas ouvido em privado. Toda esta atitude tornou-se ofensiva generalizada a partir do momento em o moralista (medíocre, como todos os moralistas) Hutchenson tentou tapar a boca a Hume. Porque a partir daí surgem todo o tipo de barbaridades expressas, como a de Hamilton considerar que o povo é uma grande besta que precisa de ser domada.

Há de facto uma besta, mas não é o povo, mesmo se não entendermos muito bem o que é que esta identidade o povo representa e que sectores comporta (o léxico burguês está carregado destas meias verdades e de conceitos inúteis e vazios, como povo, sociedade civil, opinião pública, etc., devido á mediocridade e generalização do mundo burgues), mas existe de facto uma besta – o Capital – indomável e cuja única solução para os problemas que causa é o seu extermínio.

Os USA são sempre um exemplo nestas questões (Tocqueville foi o primeiro a compreender a importância dos USA como exemplo). O comportamento, a atitude, da política externa norte-americana em relação á América Latina é um exemplo da forma como os diversos sectores do Capital, dominaram as relações com as nações do sul do continente, ultrapassando as tímidas recomendações e princípios expressos pelo Congresso e as barreiras criadas pela soberania popular. Mas esses princípios aplicados nas relações exteriores não eram mais do que o espelho da política interna. A diplomacia do negócio não é mais do que a continuidade do negócio doméstico, levado para lá das fronteiras.
            
VI - O padrão de relacionamento com a América do Sul nunca mudou. Durante a administração Kennedy o conceito de missão das Forças Amadas da América Latina foi alterado. Do conceito de “defesa hemisférica” passou a “segurança interna”. Esta decisão não foi uma mera alteração de conceito de defesa ou de política externa dos USA. Foi uma alteração de relacionamento entre centro e periferia. Com essa alteração a administração Kennedy reposicionou a periferia.

A primeira consequência deste reposicionamento foi o golpe que instituiu a ditadura militar brasileira. As Forças Armadas brasileiras eram consideradas pelos norte-americanos como uma “ilha de sanidade” e o golpe foi considerado pelo embaixador dos USA na época, Lincoln Gordon (um economista de Harvard), como uma “rebelião democrática” e “vitória mais decisiva da liberdade na metade do século XX”, acrescentando que o golpe militar iria “criar um clima muito melhor para investimentos privados”. A continuação deste processo é conhecida e trágica quando foi transposta para a Argentina e para o Chile.

A protecção do investimento privado dos USA e o comércio são a base da política externa dos USA. O principal destinatário da ajuda e do treino militar norte-americano na América Latina, actualmente é a Colômbia, cujo regime oligárquico, curiosamente, é o campeão das violações aos direitos humanos no hemisfério. A base deste relacionamento é um mito denominado “guerra ao narcotráfico”, um mito criado em Washington, usando actores colombianos (de péssima qualidade).

Um mito porque o regime colombiano é alicerçado no narcotráfico e sustentado pelas verbas dos narcotraficantes. É um regime aberrante, produto das decadentes oligarquias latifundiárias e da sua aliança com os sectores financeiros, suportada pelos militares corruptos, cujos salários são pagos pelos cartéis da droga. O país é um imenso cemitério, onde as milícias paramilitares dos traficantes impõem a sua lei. O terrorismo de estado é a norma e o genocídio prática corrente. Pois é esta a “democracia” que os USA consideram estável e um exemplo para a América Latina.  

VII - Esta politica externa é a consequência do panorama interno dos USA. E o panorama interno não é mais do que uma sociedade dominada por uma minoria manipuladora que controla a maioria através da alienação. Sociedade profundamente alienada, em que a opinião publica é manipulada por “fazedores de opinião”, cujas elites escolhem os candidatos a presidentes, como se fossem presidentes de conselhos de administração de uma qualquer multinacional e que fazem do eleitorado um imenso rol de consumidores que votam na melhor cosmética realizada aos candidatos e que assumem como seus os representantes do Capital.

A alienação da sociedade norte-americana é traduzida nos conceitos do “american dream” e do “american way of live”, conceitos divulgados de forma persistente pela indústria mediática, a nível interno e na periferia. São milhões os pobres que vindos da América do Sul correm atrás do “american dream”. Muitos perdem a vida em busca desse sonho e milhões vêm a sua ilusão acabar mal. Poucos são os que se apercebem, a tempo, do alcance desta máquina propagandística e muito poucos os que conseguem singrar no mundo hostil do “american nightmare”. 

Uma coisa já ficou determinada pelos últimos movimentos democráticos de contestação social nos USA, os Occupy: A elite é apenas um por cento…Talvez esta quantificação ajude a despertar os sentidos entorpecidos por séculos de intoxicação.

Fontes
Castro,  Manuel Medina, Estados Unidos y América Latina, Siglo XIX, Casa de las Américas, 1968,
Salazar, Luis Suárez Madre América. Un siglo de violencia y dolor (1898-1998) Editorial de Ciencias Sociales, La Habana, 2006
Pividal, Francisco Bolívar: Pensamiento precursor del antiimperialismo Fondo Cultural del ALBA, La Habana, 2006
Guerra, Sergio, Jugar con fuego. Guerra social y utopía en la independencia de América Latina, Fondo Editorial Casa de las Américas, La Habana, 2010
Chomsky, Noam Democracy and Markets in the New World Order, Duke University Press, 1994
Chomsky, Noam Deterring Democracy, Verso, Columbia, 1991
Chomsky, Noam Year 501, South End University Press, 1993.
Chomsky, Noam, World Orders, Old and New; Columbia University Press, 1994
Luttwak, Edward Turbo Capitalism; Ocean Publishing Group Ltd. London, 1998
Appleborne, Peter New York Times, August 1, 1994
Lake, Anthony New York Times, September, 23, 1994.

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