sábado, 4 de agosto de 2018

Está no campo de Trump a bola para aliciar o Irão

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M K Bhadrakumar

Tal como escrevi na semana passada, uma conversação de má qualidade tem estado a decorrer entre Washington e Teerão. O alto-falante não é mais utilizado, a conversação é em tom civil a partir de plataformas públicas ou, mais significativamente, através do Twitter. Tornou-se uma ocorrência quase diária. Falando na generalidade, a comunicação é entre o presidente Donald Trump do lado americano, com o ministro dos N. Estrangeiros Javad Zarif a interpor-se activamente por conta do presidente Hassan Rouhani quase em tempo real. Certamente o líder supremo, Ali Khamenei, está a ouvi-los.

O dueto chegou a isto de modo gradual. Trump está desejoso de encontrar-se com Rouhani "em qualquer momento... sem condições prévias". Ultimamente ele tem um pressentimento de que isto poderia acontecer "muito em breve". (Quando Trump coloca um prazo como este em traços gerais, isto aponta para algum canal de rectaguarda.) Mas a seguir, Teerão diz que não conversará sob coação, com o orgulho e a honra ofendidos. Os EUA devem primeiro mostrar "respeito" e cessar actividades hostis.

Por outro lado, Trump afirma perceber mudanças no comportamento do Irão. (Isto pode ser interpretado como um sinal ou um reconhecimento.) De modo interessante, Teerão nem contesta nem confirma a afirmação de Trump. De facto, há alguma "mudança" discernível no comportamento do Irão – Moscovo revelou que forças iranianas e "formações xiitas" retiraram seu armamento pesado na Síria para uma distância de 85 km das Alturas de Golan ocupadas por Israel e que "não há unidades com equipamento e armamento pesado que pudessem apresentar uma ameaça a Israel a uma distância de 85 km da linha de demarcação".

Claramente, esta "mudança" no comportamento do Irão tornou-se possível no pano de fundo da reunião Trump-Putin em Helsínquia, em 16 de Julho. O facto importante é que Rouhani (leia-se Khamenei) anuiu ao conselho de Putin (a pedido de Trump). Naturalmente, o primeiro-ministro israelense, Netanyahu, tal como o Oliver Twist de Dickens, continua a dizer: "Por favor, senhor, quero algo mais" – nomeadamente que o Irão deveria deixar também o solo sírio, mas isso é um pedido "irrealista", como ponderou Moscovo . (Putin teria dito isso a Trump, também.) Isso equivale a dizer que Moscovo não tem inclinação para aconselhar Teerão a fazer diferente. No entanto, esta "mudança" do comportamento iraniano no próprio Golan é uma boa coisa no que respeita aos CBMs (Conventional Ballistic Missiles].

E quanto às expectativas de Teerão? O primeiro lote das sanções de Trump supostamente entra em vigor na próxima semana. Serão elas revertidas? Enquanto isso, Zarif, o secretário de Estado Mike Pompeo, os ministros dos N. Estrangeiros russo Sergey Lavrov e chinês Wang Yi bem como a chefe da política externa da UE Federica Mogherini estão a convergir para Singapura no contexto da reunião de ministros de N. Estrangeiros da ASEAN em 4 de Agosto.

A caminho de Singapura, Zarif emitiu um tweet: "O Irão & os EUA tiveram dois anos de conversações. Com a UE/E3+Rússia+China, produzimos um acordo multilateral único – o JCPOA. Ele tem funcionado. Os EUA podem culpar-se apenas a si próprios por saírem & abandonarem a mesa. Ameaças, sanções & truques de RP não funcionarão. Tentem o respeito pelos iranianos & pelos compromissos internacionais". Isto foi em resposta à observação de Trump de que está pronto a encontrar-se com Rouhani sem estabelecer qualquer condição prévia. "É bom para o país, bom para eles, bom para nós e bom para o mundo. Nenhumas condições prévias. Se eles quiserem reunir-se, eu reunirei", havia dito Trump.

As coisas na verdade limitaram-se dramaticamente. Hamid Aboutalebi, ajudante do presidente Rouhani, esclarecer que o retorno ao acordo nuclear é a maior condição prévia para possíveis conversações – "Respeitar os direitos da nação iraniana, reduzir hostilidades e retornar ao acordo nuclear são passos que podem ser dados para abrir a estrada acidentada de conversações entre o Irão e a América", tuitou Aboutalebi.

Mas então, será que Trump realmente rasgou o acordo de 2015? Ele disse querer melhorar o acordo de 2015 (o qual não era suficientemente bom no seu julgamento). Trump está determinado a entrar para os livros de história como um negociador mais hábil do que Barack Obama – seja em relação à alteração climática, ao TPP ou ao acordo com o Irão.

Em geral, esses são estímulos positivos. Significativamente, sentindo que "uma reunião pode não estar para além do reino da possibilidade", o jornal governamental China Daily sugeriu num editorial em 31 de Julho que "as outras partes do acordo nuclear de 2015 deveriam encorajar Washington e Teerão a se unirem pois realmente seria bom conversar".

Sem dúvida, a China é uma das principais partes interessadas. Além de ser o destino de mais de um terço de todas as exportações do petróleo iraniano, o que inevitavelmente a torna um alvo de danos colaterais devido às sanções dos EUA, a China também está lidando com uma das disposições mais complicadas do acordo de 2015 – nomeadamente, o re-desenho do reactor nuclear de água pesada de Arak, no Irão, para torná-lo incapaz de fabricar plutónio de grau militar sob operação normal.

Este assunto constou na reunião entre Rouhani e o presidente chinês, Xi Jinping, em Pequim, em Junho, à margem da cimeira da SCO . Sobre Arak, o acordo de 2015 especifica que o novo desenho terá como objectivo minimizar a produção de plutónio e impedir a produção de plutónio com grau militar na sua operação normal. Também especifica o combustível que o Arak deve utilizar e diz que o combustível gasto durante a vida útil do reactor deve ser despachado para fora do Irão. Os EUA inicialmente lideraram o grupo de trabalho para redesenhar o reactor de Arak com a China, mas o Reino Unido agora o substituiu. Pense-se simplesmente em toda a confusão criada por Trump. 

02/Agosto/2018

O original encontra-se em blogs.rediff.com/mkbhadrakumar/... 

Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ 
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