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quarta-feira, 29 de junho de 2016

CHÁ DOS 27



Miguel Guedes* - Jornal de Notícias, opinião

Não era preciso ser adivinho para prever o Brexit. O populismo e a demagogia visceral liderada pela extrema-direita britânica tem perna larga e os tempos na União Europeia (UE) navegam em vagas de eurocepticismo pela inversão do paradigma europeu dos burocratas em Bruxelas. Há crime e há culpados. O chauvinismo económico e financeiro de Schauble faz mártires das vítimas da austeridade e não descansa enquanto não punir os povos pela impossibilidade de cumprir à vírgula as políticas desastrosas que ele próprio desenhou e nutriu. O apocalipse alimenta-se e o martírio já fez um mártir: o Reino Unido decidiu sair e pode deixar descendência caso este projecto europeu germânico não ganhe vergonha.

Não se pode dizer que os britânicos necessitassem de uma purga europeia como de chá para a boca quando nunca exerceram uma visão crítica da UE senão para o exercício da relevância do seu umbigo ou interesse. Daí que não deixe de ser surpreendente como David Cameron olhou para o referendo, em tempos idos, como uma etapa ganha por antecipação na sua sobrevivência política pessoal. Não é necessário parar a democracia e sair para que o tempo para a democracia se exerça fora de timing. Democraticamente, os britânicos saíram pelo timing dos bárbaros.

O tempo para a democracia no país vizinho não se exerce só em eleições mas é certo que o Podemos sofreu um rude golpe eleitoral em tempo de esperança. Veremos se resiste à secular autofagia da Esquerda. Portugal bem precisava na Europa que bons ares soprassem de Espanha. O poder estará nas mãos de Rajoy e Sanchéz ou de um acordo "à portuguesa". Mas dificilmente veremos Espanha, adaptando o ditado popular, em bons casamentos políticos. O espetro da punição europeia com sanções económicas a Portugal e Espanha deveria ter convocado alianças estratégicas entre os dois países, convergências para as quais as forças políticas espanholas ainda não se mostraram preparadas.

O histerismo com que a política nacional recebeu a proposta do Bloco para referendar o Tratado Orçamental (como se o PS ou o PCP não tivessem antes defendido o mesmo) é um favor que fazem aos nossos falsos prestadores de cuidados. Não se trata de referendar a nossa saída da UE: pondera-se a clarificação democrática de um acordo entre governos num momento estratégico da negociação. Para uma refundação. Se há unanimidade sobre a irrazoabilidade de sanções económicas, não se pode negociar na lógica do absurdo. Se a prepotência da UE for tão longe, ao ponto de aplicar a mesma receita ao moribundo que assim se faz morto, é (no mínimo) tão válida a teoria do "levanta a cabeça" como a do "não te mexas". Se fingirmos que abraçamos permanentemente o agressor, acabamos vítimas, já fomos. É uma questão de tempo. Chá dos 27. É o agora ou nunca para a UE.

*Músico e advogado - O autor escreve segundo a antiga ortografia

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