quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Portugal. JORNALISMO: “ESTE CAMINHO ESTÁ A LEVAR-NOS À AUTODESTRUIÇÃO”


No meio de uma crise de identidade jornalistas reúnem-se em congresso. Maior inquérito de sempre aos jornalistas portugueses revela longas jornadas de trabalho, salários baixos, condicionalismos à autonomia e alguma vontade de virar costas à profissão.

Portugal perdeu quase dois mil jornalistas nos últimos dez anos. E dois terços dos actuais titulares de carteira profissional já pensaram pelo menos uma vez na possibilidade de abandonar a profissão. Abalados por uma crise de identidade, que deslocou a ênfase na produção das notícias para a distribuição na Internet, os jornalistas reúnem-se a partir de quinta-feira, até domingo, no Cinema São Jorge, em Lisboa.

Não há congresso há 18 anos. Fazê-lo foi uma promessa proferida por Sofia Branco durante a corrida à direcção do Sindicato de Jornalistas. Já lá vão dois anos. O sindicato não avançou sozinho. Envolveu o Clube de Jornalistas e a Casa da Imprensa. As inscrições já fecharam. Há uma lista de 700 nomes. E a conferência inaugural, às 18h30, cabe a Michael Rezendes, prémio Pulitzer 2003 pelo trabalho no The Boston Globe, que inspirou o filme Spotlight.

"Esperamos que o congresso sirva para que os jornalistas reflictam sobre os seus principais problemas”, declarou à Lusa Maria Flor Pedroso, presidente da comissão organizadora. “A minha expectativa é que se reflicta e que se decida”, disse Sofia Branco ao PÚBLICO. “No fim, devemos ter uma folha A4 com medidas concretas.”

“É preciso separar as águas”

Joaquim Fidalgo, jornalista e professor da Universidade do Minho, contou a um amigo que irá estar num painel a falar de ética e o amigo espantou-se: “O Titanic a afundar e tu a tocar violino!”, “Isto está a ir abaixo porque está a haver uma misturada”, entende aquele fundador do PÚBLICO. Há os blogues, as redes sociais, os comentários em cima da informação, os conteúdos patrocinados. “É preciso separar as águas”, adverte. “Sucedâneos de jornalismo não são jornalismo. Não pelo rótulo, mas pela substância.” O jornalismo exige saber. E atenção, ética e deontologia.

Os resultados do maior inquérito feito aos jornalistas portugueses – a apresentar ao congresso no sábado – mostram o descontentamento: 64,2% já pensaram, pelo menos uma vez, em virar as costas à profissão. Porquê? Pelo baixo rendimento (21%), a degradação da profissão (20,4%) e a precariedade (14,3%).

Os jornalistas têm escolaridade superior à média (79,6% com licenciatura), mas um terço não possui um vínculo laboral sólido, três quartos não vêem progressão de carreira há mais de quatro anos e, no final de cada mês, mais de metade (57,3%) leva para casa menos de mil euros. Trabalham longas horas. A maioria mais de 40 por semana. Muitos afligem-se para conciliar a vida profissional com a vida pessoal: 46% considera difícil, muito difícil ou extremamente difícil fazê-lo. Quase metade não tem relação conjugal (47,8%). Mais de metade não tem filhos.

Jornalistas com salário mínimo 

“Há a ideia que somos uma elite que ganha muito bem e isso não é verdade”, sublinha Sofia Branco. A média salarial é 1113 euros líquidos. “A margem de pessoas que ganha menos de mil euros [57,3%] é significativa”, lamenta. Há 21,8% a auferir entre 501 e 700 euros e 11,6% menos de 500. “Esta é uma profissão qualificada. As pessoas entram com licenciaturas e continuam a fazer formação. Muitas fazem mestrados, pós-graduações. Não acho ‘normal’ que haja jornalistas a ganhar o salário mínimo. Acho chocante que isso seja pago a alguém que tem a missão de informar”, enfatiza.

O estudo – conduzido por uma equipa do CIES/ISCTE-IUL e intitulado Os jornalistas portugueses são bem pagos? – parte de um inquérito às condições laborais composto por 78 perguntas. Entre 1 de Maio e 13 de Junho de 2016, responderam perto de 1600 jornalistas (1494 inquéritos válidos).

“Tínhamos algumas ideias sobre o que poderíamos encontrar, algumas foram confirmadas, outras desfeitas”, conta Miguel Crespo, da equipa de investigadores. “Acabámos por concluir que não há assim tantas diferenças entre homens e mulheres”, exemplifica. Não nota diferença nas horas de trabalho, na dificuldade de gerir a vida, nem nos salários baixos ou médios, apenas nos mais altos.

Longe vão os tempos em que as redacções eram um exclusivo masculino. As mulheres têm estado a ganhar terreno. Em 2016 representavam 41% dos titulares da carteira profissional, mas os homens continuam a dominar os lugares de topo. Ainda na quarta-feira o Jornal de Negócios publicou um artigo a chamar a atenção para o facto de na direcção de 16 jornais e revistas ter encontrado 50 directores e oito directoras (esqueceu-se da directora de arte do PÚBLICO).

Sofia Branco acredita que as discrepâncias de género são maiores do que este inquérito mostra. Ocorre-lhe um levantamento feito na Lusa em 2015 que indicava disparidades até superiores à média nacional. “As pessoas muitas vezes não percepcionam estas questões”, diz. “Há falta de treino.”

O estudo desfaz outras ideias feitas. Prova que há algum espaço para renovação geracional (6,6 dos jornalistas têm menos de 25 anos) e que é grande o esforço de formação continua, o que, na opinião de Miguel Crespo, revela “uma classe profissional dinâmica, interessada em evoluir”.

 “Para quem está de fora, é fácil ver um erro e embarcar numa teoria da conspiração”, concebe ainda Miguel Crespo. Os jornalistas até resistem bem às pressões externas. Sentem-se é afectados por pressões internas: “31,5% dizem ser pouco ou nada autónomos em relação às decisões das chefias, e 41% em relação às decisões das administrações”. A agenda toma-lhes demasiado tempo. É esse o maior condicionamento à sua autonomia. Seguem-se as condições de trabalho.

“Alguma coisa tem de mudar aqui – este não pode ser o único caminho porque este caminho está a levar-nos à autodestruição”, considera Sofia Branco. "Eu acho que o mundo está em crise de identidade, os jornalistas fazem parte do mundo, o mundo está constantemente a mudar e, portanto, há aqui um processo de adaptação”, entende Flor Pedroso. “A crise de identidade é também uma crise de credibilidade” e a responsabilidade, julga Fidalgo, “não é só dos jornalistas, é também das empresa, que também têm obrigações éticas".

Ana Cristina Pereira – Público – Foto Rui Gaudêncio

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