domingo, 13 de maio de 2018

EDP | A conversa não cozinha arroz

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Afonso Camões* | Jornal de Notícias | opinião

Têm a fama de ter sido eles a descobrir que o segredo para se andar sobre as águas é saber onde estão as pedras. Nem que tenham de comprá-las, e é o caso. A concretizar-se, esta compra será uma das maiores operações de sempre na Bolsa nacional. Os acionistas chineses, que já controlam quase 30% da EDP, acabam de lançar uma Oferta Pública de Aquisição (OPA) sobre o restante capital da elétrica portuguesa. A ideia, publicamente assumida, é fazer da EDP a plataforma chinesa para todos os investimentos na área da energia para a Europa, Estados Unidos e Brasil. E só lançaram o anúncio depois de garantirem o apoio ou a neutralidade do Governo português no negócio.

Nós somos um país aberto, e os chineses "têm sido bons investidores, respeitadores da legalidade", responde o primeiro-ministro, António Costa, citando os exemplos da REN, EDP e "outros setores": (A chinesa CTG é a maior acionista da EDP, enquanto a State Grid controla a REN; é também chinês o acionista de referência na TAP; a Fosun é o maior acionista do BCP, com 27% do capital, e controla 85% do capital da Fidelidade...)

Como seria de esperar, franzem-se por aí sobrolhos ao facto de gigantes estatais chineses estarem a comprar e poderem passar a ter controlo absoluto de empresas estratégicas, cruciais para o desempenho das incumbências constitucionais do Estado português. Acontece que os chineses não chegaram aqui de assalto, foram convidados a vir, a pedido, em sucessivas vagas de privatização lançadas por sucessivos governos, do PS e do PSD. Ora, o capital não tem pátria mesmo quando se disfarça no preconceito. E há que distinguir entre a tralha xenófoba que vocifera contra o investimento chinês (noutros casos, angolano) e os que, apesar de tudo, sabem alguma coisa da nossa História e procuram honrar os compromissos do Estado português.

Somos os europeus que eles melhor conhecem, de uma mais longa e pacífica relação histórica. Para a China, Portugal é mais uma porta de entrada para a maior zona de comércio livre do Mundo. Na Europa, apenas o Reino Unido e a França ficam à frente de Portugal no que toca ao investimento chinês. Desde que os dois países assinaram a Parceria Estratégica Global, em 2005, o investimento total da China em Portugal terá superado os nove mil milhões de euros. Ora, como se vê, aquela parceria está em pleno vigor. Mas talvez seja preciso advertir uns e outros de que "a árvore cresce inclinada se o vento sopra de uma única direção". E também "não é a conversa que cozinha o arroz", digo eu, que aprendi uns ditados chineses.

*Diretor do JN
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