sábado, 19 de maio de 2018

Portugal | Violência subterrânea

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Domingos de Andrade | Jornal de Notícias | opinião

Introdução. Vamos lá usar a linguagem dos agentes policiais no terreno. Há um "modus operandi" na forma como uma certa elite chega a elite. É gente que traz pouco de trás, permitam lá a cacofonia, que subiu nos redemoinhos das jotas, a manobrar e a vergar desde cedo, que cresce nos urros das claques, nos gabinetes ministeriais ou institucionais, numa certa forma de dobrar as costas quando posta a mesa. A olhar o prato com medo que fuja.

Parecem subservientes. Serventes. Mas não. São perigosos. Porque há um dia em que tomam conta da mesa. Na política. Nas empresas. Nas instituições. Da bola, às associações. Os fenómenos de violência e de corrupção, não do pequeno jeito no cheiro dos hospitais públicos, quando se pede ao porteiro das Urgências um favorzinho para deixar entrar mais um, mas a da grande, que nos admira quando se destapa, nascem assim.

Desenvolvimento. Dos eleitos e dos nomeados esperamos sempre que ajam em interesse das populações e do crédito das ações. Que sejam consequentes. Nas palavras e nos atos. Contra o compadrio, a tragédia, ou a agressão. Em suma, que governem, seja o Governo do país ou das empresas.

Percebe-se por isso muito as reações duras contra a violência a que assistimos em Alcochete. É um país "vexado", como sintetizou o presidente da República. Percebe-se por isso menos quando o primeiro-ministro decide criar mais um gabinete para estudar a violência no futebol, quando a escalada é generalizada há anos e o que falta é atuação. Levem os filhos aos estádios e expliquem-lhes a violência dos cânticos, ou as tochas a arder nos relvados.

Percebe-se menos ainda quando o primeiro-ministro tem necessidade de dizer que o Governo nada fará para apoiar um clube em areias movediças internas, a que se juntam fenómenos de violência e de investigação policial. Mas passou pela cabeça de alguém "ajudar"? E percebe-se por isso menos ainda que individualidades (o palavrão é propositado), que o são por representarem num dado momento da pequena história um cargo institucional, confundam a gravata que usam com as cores do equipamento por que vibram, numa evidente diluição de papéis que só contribui para adensar a introdução.

Levem os filhos aos estádios e expliquem-lhes que o que veem não é bem o que veem, porque grassam suspeitas de corrupção sobre o que veem.

Conclusão. As declarações oficiais, as medidas e falta delas, mostram a dificuldade que temos em lidar com os monstros que se agigantam do tanto espaço que ganham à mesa. Mas a pior sensação é a de que ainda há tantas portas abertas. E que, de uma vez, precisamos de um abanão que nos obrigue a limpar a sala.

* Diretor-executivo
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