domingo, 24 de novembro de 2013

Xanana Gusmão culpa Dilma por falta de acordo para ajudar Portugal a sair da crise

 


Isabel Tavares e Joana Azevedo Viana – jornal i
 
Em Estrasburgo, o primeiro-ministro timorense falou com o i sobre o fundo que não chegou a ser criado, sobre o caso sunrise e sobre a sua saída do cargo até 2015
 
O primeiro-ministro timorense, Xanana Gusmão, sentiu-se na obrigação moral de ajudar Portugal a encontrar uma saída para a crise e foi ao Brasil negociar com a presidente Dilma Rousseff um empréstimo. O plano incluía a participação de Angola, que caberia ao presidente Ramos Horta convencer.
 
Xanana Gusmão contou ao i os bastidores da história, à margem do prémio Sakharov, entregue à jovem paquistanesa Malala Yousafzai, no Parlamento Europeu, em Estrasburgo.
 
"Acompanho a situação em Portugal desde 2008. A ideia era que os três pudessem ajudar, não a salvar Portugal, mas dar algum apoio e mostrar às organizações financeiras internacionais que há um país em crise. Nós temos essa experiência, sabemos dizer exactamente de que forma poderia ser ajudado, já sabemos o que resulta e o que não resulta."
 
O primeiro-ministro timorense chegou a ir ao Brasil encontrar-se com Dilma e ficou definido que, depois, o presidente Ramos Horta iria a Angola pedir uma contribuição. "O tempo foi passando e, quando Dilma foi a Portugal e tomou consciência do valor da dívida saiu um bocadinho a correr assustada com os números. E eu creio que também me assustei. Senti uma obrigação moral de ajudar, mas quando foi anunciado o valor da dívida percebemos que estava fora do nosso alcance, o plano era maior do que as nossas capacidades, não dava", confessou Xanana Gusmão.
 
Agora, é tarde de mais. Ainda assim, e "como observador", Xanana Gusmão atreve-se a dizer que "o políticos portugueses falam de mais e é tempo de se deixarem disso. Cada um quer liderar qualquer coisa que não existe e quem está a sofrer é o povo, quem está a sofrer é a nação", lembrou. "Em Portugal falhou o controlo, mas agora não vale a pena estarem a apontar os dedos uns aos outros, assim não se anda para a frente. O que é preciso é encontrar uma solução".
 
Caso Sunrise
 
Gusmão foi parco em palavras quanto ao caso Greater Sunrise, meses depois de Timor ter acusado a Austrália de espionagem de informação confidencial sobre a exploração de gás e petróleo no Mar de Timor. Em causa está o Tratado sobre Determinados Ajustes Marítimos no Mar de Timor, assinado pelos países em 2007 para facilitar a exploração dos recursos na zona marítima fora da Área Conjunta de Desenvolvimento do Petróleo.
 
No final de Abril, Xanana escreveu a Camberra e declarou o tratado inválido porque a Austrália "fez espionagem" durante as negociações do Plano de Desenvolvimento do campo de exploração de gás Greater Sunrise, que criou um impasse entre a petrolífera australiana Woodside e as autoridades timorenses.
 
"A 5 de Dezembro o trio de arbitragem vai encontrar-se com as partes para discutir as formalidades processuais", acrescentou sem mais pormenores.
 
Xanana Gusmão anunciou que pretende abandonar o cargo de primeiro-ministro até 2015. "Abandonar não, eu não vou abandonar. Eu vou deixar o cargo para permitir à nova geração uma maior capacidade de responsabilização. Nós, a geração mais velha, às vezes ficamos [na política] como uma sombra e isso não ajuda as pessoas a produzir e a demonstrarem participação, então é nesse espírito de deixar os mais jovens enfrentar as dificuldades que decidi sair", explicou ao i.
 

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