sábado, 31 de março de 2012

Itália: EM NÁPOLES AS CRIANÇAS VOLTAM AO TRABALHO




Cécile Allegra - Le Monde, Paris – Presseurop, foto Mário Spada/prospekt - Le Monde

Nesta cidade, que está entre as mais pobres da Europa, milhares de crianças deixam a escola para ajudarem os pais a fazerem face às despesas. Fazem pequenos trabalhos não declarados ou são recrutados para os trabalhos sujos da máfia. Um fenómeno que a crise acentuou. Excertos.

Sete horas da manhã, San Lorenzo, no coração de Nápoles. Um miúdo corre pelo labirinto de ruelas húmidas, com uma pesada caixa de conservas debaixo do braço. Casaco acinzentado, capuz na cabeça e sapatos de ténis muito usados, o pequeno Gennaro começa o seu dia de trabalho.

Ninguém se espanta de o ver a labutar tão cedo. Em setembro de 2011, Gennaro foi contratado por uma mercearia. Seis dias por semana, dez horas por dia, arruma prateleiras, descarrega caixas e entrega compras no bairro.

Gennaro sonhava ser informático, mas é moço de recados numa loja, a profissão mais comum entre as crianças trabalhadoras de Nápoles. Trabalha ilegalmente, por menos de um euro à hora, e ganha, no máximo, 50 euros por semana. Gennaro acaba de fazer 14 anos.

Paola Rescigno, a mãe de Gennaro, nunca imaginou que um dia tivesse de o privar da escola. Durante 20 anos viveu com o marido numa casinha de 35 metros quadrados, num pátio do bairro de San Lorenzo, o mais sombrio do centro da cidade.

Depois, o marido morreu, vítima de um cancro fulminante. Agora, Paola Rescigno vive de biscates. Organizou uma míni empresa de limpeza de imóveis e partilha o trabalho com as outras desempregadas do bairro. Ganha 45 cêntimos de euro por hora, 35 euros por semana, menos do que o salário do filho.

Aos 10 anos, as crianças trabalham dez horas por dia

É ela quem, todos os dias, muito cedo, acorda Gennaro para que o rapaz chegue a horas à mercearia. A filha mais nova tem seis anos, por isso, teve de escolher: “Não tinha dinheiro para pagar os livros dos dois. Por isso, ou era um, ou outro.” Em cima da mesa da cozinha está um “pão de oito dias”, uma bola de centeio com três quilos, que se conserva durante muito tempo e custa apenas cinco euros. Um bem com grande sucesso nos anos da fome do pós-guerra italiano.

Em Nápoles, foram postas a trabalhar milhares de crianças como Gennaro. Segundo um relatório alarmante, publicado em 2011 pela autarquia, entre 2005 e 2009, 45 mil crianças em toda a Campânia, a região de Nápoles, abandonaram o sistema de ensino; 38% tinham menos de 13 anos.

Moços de recados em lojas, empregados de café, entregadores de compras, aprendizes de cabeleireiro, ajudantes nas fábricas de curtumes do interior e nas marroquinarias das grandes marcas, “paus para a toda a colher” nos mercados, estão por todo o lado, visíveis, a trabalhar à luz do dia, perante uma indiferença quase geral.

“É verdade que sempre fomos a região mais pobre de Itália. Mas desde o fim da II Guerra Mundial que não se via uma coisa assim”, diz Sergio d'Angelo, adjunto do município de Nápoles. “Aos dez anos, estes miúdos já trabalham doze horas por dia, uma verdadeira negação do seu direito a crescerem.” Os pais vivem na ilegalidade e, a qualquer momento, os serviços sociais podem retirar-lhes a criança e coloca-la numa família de acolhimento.

A crise italiana passa por aqui. Desde 2008, sucessivas leis de finanças impuseram planos de redução de custos drásticos. Em junho de 2010 a Campânia suprimiu o subsídio equivalente ao rendimento de solidariedade ativa francês [rendimento mínimo garantido pelo Estado às famílias com baixos rendimentos], mergulhando na miséria mais de 130 mil famílias que estavam abrangidas.

Nessa altura, o rendimento médio da região era de 633 euros por habitante: atualmente, metade dos habitantes afirma que a sua situação se degradou. “Os jovens pagam, sozinhos, o preço da mais grave crise económica do pós-guerra”, diz Sergio d’Angelo.

"O Estado que abandona as suas crianças"

Em Nápoles, os filhos das famílias pobres não têm outro remédio senão agarrarem-se aos estudos ou começarem a trabalhar ilegalmente. Uma terceira opção é juntarem-se aos grupos da Camorra, a máfia napolitana.

É contra esta escolha brutal que luta Giovanni Savino, 33 anos, professor especializado. O seu território é um dos piores bairros de Nápoles: Barra, verdadeiro supermercado de droga, uma zona escura, cheia de prédios a desabar sob a influência dos clãs da Camorra.

Todas as semanas, Giovanni Savino vai ao colégio Rodino, uma escola da zona, plantada no coração dos bairros de habitação social. Aqui, o tráfico está no auge, e uma em cada duas crianças falta à escola cem dias por ano.

Segundo a lei, depois de faltarem sessenta dias, deveriam ser expulsos. A diretora da escola, Annunziata Martire, e o professor, lutam contra o relógio: uma vez por semana, ela entrega-lhe a lista dos faltosos. Giovanni Savino tem dez dias para encontrar uma solução, antes da intervenção dos serviços sociais.

A maior parte das vezes, é ele que se encarrega de os fazer passar ao estatuto de alunos livres, para evitar que sejam retirados aos pais e colocados em famílias de acolhimento.

Os funcionários do município já não se atrevem a aproximar-se dos prédios de habitação social e são poucos os professores capazes de entrarem na Barra, como faz Giovanni Savino.

A sua associação chama-se Il Tappeto di Iqbal, o “Tapete de Iqbal”, inspirado no nome de uma criança-escrava paquistanesa que se revoltou e foi assassinada.

Giovanni Savino é um homem furioso, contra os mafiosos, contra uma educação falhada, e contra o Estado, “que abandona as suas crianças”. Em Itália, não existem gabinetes de apoio social. O apoio aos jovens e às famílias depende da energia de 150 associações que vivem exclusivamente dos subsídios atribuídos pelo município. Com a crise, os fundos de apoio social foram reduzidos em 87%. Há dois anos que os vinte mil professores da Campânia não recebem salário e têm de se endividar para trabalharem. Sem financiamento, o “Tapete de Iqbal” fechará as suas portas.

"Não digas à minha mãe que eu tenho uma faca"

No entanto, Giovanni Savino já arrancou dezenas de miúdos da Barra das garras de empregadores sem escrúpulos ou dos grupos mafiosos que ali vão recrutar os seus futuros soldados.

Carlo é um dos seus primeiros resgatados. Aos 13 anos, criança-assassino já tatuado, extorquia, roubava e esfaqueava às ordens do clã Aprea. Quatro anos depois, Carlo tornou-se o braço direito de Giovanni Savino, a quem devota absoluta lealdade: “Giovanni não se limita só a arranjar-te a licença para passares a aluno livre. Não te larga. Salvou-me a vida.”

Depois de Carlo, houve Marco, cocainómano aos 12 anos e especialista em roubos de carteiras. E Ciro, aluno brilhante, que se tornou empregado de mesa para salvar a família, que tinha caído nas mãos dos usurários mafiosos.

Do último, Pasquale, de 11 anos, Giovanni Savino diz que é o seu maior desafio. Quando o pôs sob a sua asa, já lá vão nove meses, Pasquale tinha deixado a escola e passava fome.

Para ajudar a família, este rapazinho de 1,30 metros, com a cara semeada de sardas, descarregava caixas num supermercado. À noite, ia roubar cobre para as lixeiras e para os armazéns de Trenitalia. “Pegas no fio, queimas assim, depois cortas para fazer uma bola”, explica ele, todo vaidoso.

Mostra-se um pouco preocupado: “Sobretudo, não digas à minha mãe que eu tenho uma faca, hein!”. No bairro da Barra, o cobre e o alumínio são negociados na candonga a 20 euros o quilo. E o tráfico é o negócio das crianças. Quando se lhe pergunta o que quer fazer quando for grande, Pasquale, de repente, fica mudo. Depois choraminga: “Vou fazer o que puder”.

Sem comentários:

Mais lidas da semana