segunda-feira, 24 de outubro de 2011

NOS CAIXOTES DO LIXO DO… CONTINENTE




ORLANDO CASTRO*, jornalista – ALTO HAMA

Em breve os hipermercados Continente vão estar em força em Angola. O dinheiro não tem pátria, e as pátrias que o querem ser… estão falidas.

A Sonae e a Condis, empresa maioritariamente detida pela empresária Isabel dos Santos (apenas, e por mera coincidência, filha do homem que é presidente de Angola há 32 anos sem nunca ter sido eleito) e pelo marido, Sindika Dokolo, aí estão unidas até que a democracia (quando a houver) as separe.

O acordo resulta de uma parceria cujo capital é detido em 51 por cento pela Condis e em 49 por cento pela Sonae, em que as decisões relevantes são partilhadas, cabendo à Sonae a gestão operacional.

Segundo o grupo liderado por Paulo Azevedo, com esta parceria estratégica "alia-se o `know-how` técnico e experiência de retalho que a Sonae possui ao forte conhecimento do mercado angolano aportado pela Condis"-

Que a Condis conhece o mercado angolano como ninguém, é uma verdade indesmentível. Aliás, conhece o mercado como conhece tudo o resto. Por alguma razão a família Eduardo dos Santos representa quase 100 por cento do Produto Interno Bruto de Angola.

Sempre achei curiosa e hilariante a referência de que o projecto esteve sujeito à apreciação final das autoridades angolanas. Se Angola é o MPLA, se o MPLA é Eduardo dos Santos, porque carga de chuva se vem falar de autoridades angolanas?

Ser filha de quem é representa só por si a maior e única autoridade do país.

São com certeza boas notícias para as partes envolvidas. No entanto, talvez porque à Sonae tenha custado engolir as regras da corrupção angolana, as coisas não terão corrido tão bem como o inicialmente previsto, isto porque Paulo Azevedo anunciara a 17 de Março de 2010 que a entrada da empresa no mercado angolano poderia acontecer em 2010…

Angola é um dos países lusófonos com a maior taxa de mortalidade infantil e materna e de gravidez na adolescência, segundo as Nações Unidas.

Mas o que é que isso importa? Importante é saber de facto que a Sonae vai avançar com o lançamento dos hipermercados Continente em Angola, mesmo sabendo-se que o regime é um dos mais corruptos do mundo. Ou será por isso mesmo?

Seja como for, o que conta é o "Hello tomorrow" (olá amanhã), rapidamente e em força para... Angola.

Em cada mil crianças nascidas em Angola, 131 morrem antes de atingir o primeiro ano de vida, a taxa mais elevada entre os países lusófonos e de toda a África Austral.

De acordo com o relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), numa escala de 0 a 100, Angola apresenta um índice de desigualdade entre ricos e pobres de 58,6, os mais pobres (perto de 70% da população) têm uma taxa de consumo de 0,6 por cento enquanto a dos ricos é de 44,7 por cento.

45% das crianças angolanas sofrem de má nutrição crónica, uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos. 76% da população vive em 27% do território. Mais de 80% do Produto Interno Bruto é produzido por estrangeiros; mais de 90% da riqueza nacional privada foi subtraída do erário público e está concentrada em menos de 0,5% de uma população de cerca de 18 milhões de angolanos.

Mas o que é que isso importa? Sim! O que é que isso importa?

Aliás, muitos dos angolanos (70% da população vive na miséria) que raramente sabem o que é uma refeição, poderão certamente fazer incursões ao Continente, ou melhor, aos caixotes do lixo do Continente e lá encontrar restos quase novos de comida. Portanto... não se queixem.

A Sonae não é uma empresa filantrópica e, por isso, negoceia com os donos do poder e, no caso de Angola, do país. E, como sempre, é muito mais fácil negociar com dirigentes vitalícios do que com os que resultam de uma vida democrática.

Também é verdade que se a comunidade internacional não se preocupa com o facto de, em Angola, poucos terem cada vez mais milhões e cada vez mais milhões terem pouco ou nada, porque carga de chuva deveria ser a Sonae a preocupar-se?

* Orlando Castro, jornalista angolano-português - O poder das ideias acima das ideias de poder, porque não se é Jornalista (digo eu) seis ou sete horas por dia a uns tantos euros por mês, mas sim 24 horas por dia, mesmo estando (des)empregado.

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