segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Portugal: O CARRO QUE É CENOURA DE GAMA ALTA

 

Alfredo Leite – Jornal de Notícias, opinião
 
A ideia já me tinha ocorrido, mas só a interiorizei quando o secretário de Estado formalizou o anúncio na semana que passou. O Fisco vai sortear carros para premiar os cidadãos exemplares que solicitem fatura com o respetivo número de identificação fiscal. E eu, que em matéria de finanças sou um cidadão quase perfeito, só agora percebi que estou a ser discriminado. Por minha culpa, note-se. Neste caso, o Estado está inocente.
 
Não tenho carta de condução, logo não conduzo e, portanto, estou-me nas tintas para tão generoso prémio. Imagino que aconteceria o mesmo se fosse invisual e os prémios de Passos Coelho para combater a evasão fiscal fossem televisores LCD de gamas média e alta. Daqueles tão grandes que teríamos de contrair empréstimo bancário para mudar de apartamento, só para ter parede para afixar o aparelho. Como cilindradas, cavalos e binários são coisas que não me assistem, se fosse só pelo motorizado prémio eu, um "desmotorizado" de longa duração, jamais pediria uma fatura. E não vale a pena dizer com pragmatismo que poderia fazer dinheiro a vender a viatura. Tenho tanto jeito para o negócio como para polícia das Finanças.
 
A questão é outra. Ao colocar na frente do nariz de cada um de nós uma cenoura de gama alta, o Governo pode até melhorar a performance no combate casuístico à fuga ao Fisco. Será, porventura, uma ação de pouca dura. Acabar com a economia paralela acenando-nos apenas com paliativos de cilindrada generosa, exige um plano B. Obriga a medidas estruturadas, mais dignas de uma democracia europeia e menos de um país em vias de desenvolvimento. Plano alternativo que, obviamente, o Executivo PSD/CDS não tem.
 
Combater o crime fiscal na origem dá mais trabalho e é menos popular do que viciar o povo em concursos acumuláveis com a raspadinha, o totoloto ou o euromilhões. Em resumo: oferecer carros é fácil, é barato (vão gastar-se 10 milhões de euros) e dá milhões (prevê-se um encaixe máximo estimado em 800 milhões de euros). O pior é o resto. Declarar e pagar impostos pressupõe essa nobre ideia de cidadania que é a redistribuição da riqueza. Uma partilha solidária em que os mais abastados pagam para que os menos favorecidos da sociedade vivam mais dignamente.
 
Ao promover tômbolas automobilísticas, o Governo não está só a dar mais encargos às famílias (dizem-me que um carro é "uma renda") com parcos recursos financeiros, mas com sorte ao jogo. Pode estar também a engrossar o património dos mais ricos ou, simplesmente, a premiar os incumpridores dos compromissos fiscais que, ao que tudo indica, também podem concorrer ao carro da sorte. Ou seja, está a promover deliberadamente uma distorção social.
 
No curto prazo, a medida vai favorecer os cofres do Estado. Mas até quando é que as Finanças vão promover esta "Roda da sorte"? Até ao próximo Governo entrar em ação? Ou até achar que tem o encaixe estabilizado para troika ver? É que, ou me engano muito, ou, quando os burocratas do Terreiro do Paço deixarem de oferecer carros, a cidadania de parte do povo vai eclipsar-se num ápice. E, por diferentes razões, esses contribuintes vão fazer como eu. Vão estar-se nas tintas para as faturas.
 

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